terça-feira, março 22, 2005

Picadelas

Mente-se por tudo e por nada. Mente-se para não incomodar nem afligir, para não se ser demasiado agressivo ou brutal, para não se dar má impressão, para não humilhar o outro; mente-se até para se ser simpático e corresponder ao que o outro ou a situação propiciam.
Notícias Magazine (DN) 2005.01.02
Continuamos a depositar no que se passa fora de nós expectativas enormes e a depreciar o que, bem instruídos e dentro de nós, podemos fazer com o que nos incomoda. Esta externalização excessiva, este quase vício de culpar alguém, penhora o futuro, obedece a uma trama, criteriosa e deliberada, de nos sentirmos sempre pequenos e desamparados, dependentes dos outros.
Notícias Magazine (DN) 2005.01.16

36 comentários:

Ana disse...

E mente-se tantas vezes por cobardia e para defesa pessoal.
Nao posso imaginar o que é viver mergulhado em mentiras*

R.Dart disse...

Nem eu Ana, nem eu.*

Viuva Negra disse...

existem os mentirosos compulsivos , que vivem em outro mundo , acreditam na propria mentira , é patologico , outros por má formação ...

PJG disse...

Era uma vez uma mentira que se tornou verdade.

Goebbels soube que isso era verdade.
Muitos ainda acreditam que isso é mentira.

Contradições...

Miguel Sousa disse...

O problema são as mentiras que tomamos como verdades...essas ninguém sabe onde estão.

À minha volta, reprovava-se a mentira, mas fugia-se cuidadosamente da verdade (Simone de Beauvoir )

PS (salvo seja). Como vê não resisto em intervir....é mais forte do que eu (mesmo quando sou duro, admiro-a)

Miguel Sousa disse...

O problema são as mentiras que tomamos como verdades...essas ninguém sabe onde estão.

À minha volta, reprovava-se a mentira, mas fugia-se cuidadosamente da verdade (Simone de Beauvoir )

PS (salvo seja). Como vê não resisto em intervir....é mais forte do que eu (mesmo quando sou duro, admiro-a)

R.Dart disse...

Como diz Popper sobre as ciências exactas: "Qualquer teoria é verdadeira até ser falsa"
...
Um ar da sua graça Miguel? ;) Fique à vontade para ser duro que não me incomoda, como bem sabe.
...
Desde que haja por base o respeito e a educação, pode-se opinar o que se quiser. Quem quiser passar à teoria, fundamente-se. É simples.*
...
PJG, já vi que "anda de roda" de Goebbels, que não conheço, por isso não sei do que está a falar:( Não nos quer desvelar um pouquito?

Anónimo disse...

Joseph Goebbels foi chefe
da Propaganda Nazi.

PJG disse...

Correcto Anónimo. Correcto

PJG disse...

Não confundam: a minha admiração não é pela doutrina Nazi, mas sim pela eficiência - e sucesso - da sua propaganda, orquestrada por Goebbels.

Quer queiramos quer não, Goebbels foi o maestro de uma portentosa mentira - ou será que acreditam que todos os alemães sabiam de Auschwitz? Que todos eram xenófobos?
Isto tudo a propósito que "Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade" [sic].

Não me interpretem mal, por favor.

R.Dart disse...

Goebbels... não estava nada à espera desse, mas de outro qq! Já me esclareceram. Obrigado C.

PJG, não estava de facto a seguir o seu raciocínio anteriormente.
Bem, sem qualquer tipo de confusões quanto ao nazismo, está bem "apanhado" sim sr., eficiência não faltou a Goebbels.
Não PJG, não podemos acreditar que todos eram xonófobos. Se assim fosse, éramos nós os xenófabos.
**

Caiê disse...

Foi uma propaganda tão boa que até hoje tem seguidores. A extrema direita ainda é um problema na Europa. Na Alemanha e na França, sobretudo. Há manifestações de extremistas. Eu já as vi, e são jovens. Há sinagogas bombardeadas, por exemplo. E há coisas menos "fortes" (que não dão para aparecer nos jornais) mas que se sentem na nossa pele... Sim, uma mentira repetida muitas vezes... faz nascer um exército de seguidores.

PJG disse...

Mentira e verdade.

Um tema que teria interesse em ser discutido, mas apenas na companhia de um velho tinto duriense.
Assim sim, as verdades seriam expulsas.
Assim sim, as mentiras seriam engolidas em subtis, infalíveis e ébrios tragos.

Eis a minha apologia: bebamos à saúde de nada.

Tchim, tchim!

R.Dart disse...

Brindo a isso.
Um dia faremos um encontro de bloguers e matamo-nos todos com teorias e arrogâncias (ehehe), acompanhados de um bom tinto, pois concerteza. :)
Saúde!

eliseu disse...

... eu por mim minto! Desde que necessário.
raios partam a "escola" que nos ensinou que mentir não é preferível a participar num mexerico!

raios partam a "escola" que não ensina apenas a ler, a escrever e a contar!



PS - pôr um ar inteligente antes de iniciar a leitura

upsssssssss!!! Tarde demais???

R.Dart disse...

Com ou sem mentiras e ar sério. Welcome :)

Caiê disse...

Uma coisa é mentir e outra é ocultar a verdade... Não é?

R.Dart disse...

Há quem ache que sim amiga. Para mim mudam as moscas.

PJG disse...

Combinado R. Dart. Combinado.

PS: O tinto de ontem era realmente bom. Era sim.

PJG disse...

(Será desta que estou em desacordo com a R.Dart?).

Caiê.
Há sempre que ponderar os interesses em confronto: o valor da omissão versus a obrigação de actuar. Certo.
Mas distingo facilmente ambas as situações, até porque em termos axiológios "acção" e "omissão" são manifestamente diferentes: uma coisa é dizer «não» ou «sim»; outra é sorrir ao de leve com olhar distante, ou simplesmente dizer «nim».

Confesso que, por vezes, uma propositada omissão é um tónico revigorante: não só espicaça a nossa inteligência, como também é uma terrível arma de sedução. Como é que é isso? Omito.

R.Dart disse...

Não, continuamos em sintonia. :)
Explicado como está, sob o ponto de vista de confronto de interesses, faz todo o sentido. Aliás é assim que o utilitarismo funciona. O melhor para o maior número. Basta considerar na política a "mentira razoável" que é uma mentira útil, estudada e aconselhada pela Ciência Política em alguns casos. A omissão, ainda na política, reporta ao "silêncio do Poder" sempre tendo em vista a utilidade.
...
Sob o ponto de vista pessoal, tanto uma como outra "abalam" a delicada estrutura da confiança. E isto porque nunca saberemos se a intenção era boa ou não, visto que não há forma possível de medi-la. Teríamos que acreditar na palavra uns dos outros e esperar sempre o melhor. O que já não acontece... pois não? ;)

Caiê disse...

Sim, ponderar a necessidade de agir versus o valor da omissão, Pjg, concordo.

Amiga, abalar a estrutura da confiança, sim,toda a fuga à verdade, abalará... mas mais uma vez, arrisco a dizer que cada circunstância tem o seu peso. A medicina está cheia de omissões à verdade. Para ser mais específica - a terapêutica de um doente em fase terminal está repleta de omissões à verdade, por exemplo.

R.Dart disse...

PJG... se bem que: "uma coisa é dizer «não» ou «sim»; outra é sorrir ao de leve com olhar distante, ou simplesmente dizer «nim»."
Hipotéticamente, se estiver metido consigo e alguém chega ao seu lado e lhe pede dinheiro: você opta por dar, não dar, ou pela indiferença. A escolha de dar envolve acto, a escolha de não dar também envolve acto (pelo gesto ou resposta), e a indiferença pode parecer que não envolve escolha, mas envolve, pode é não envolver acto e ser tida por omissão. Mesmo quando escolhemos não escolher... estamos a escolher, e quando as nossas escolhas (na óptica de quem omite)condicionam outros de alguma forma, essa omissão passa a ser um acto com consequências.
Amigos, cuidado com as omissões, quando mal interpretadas fazem efeito bumerangue. ;)

R.Dart disse...

Caiê, a primeira parte era mesmo pessoal (no que diz respeito à minha pessoa), para mim uma e outra vão para o mesmo saco. Primo pela verdade e não por manipulações dela. É esta a minha circunstância e não sou flexivél quanto a isto.

A medicina e a terapêutica como não pertencem ao jugo da humilde escolha individual, são remetidas para o campo do utilitarismo ético (Stuart Mill - Ensaio sobre a Liberdade), é a tal conversa... o melhor para o maior número. Pode e há estudos caso a caso, como tb o fazem as comissões éticas em casos de eutanásia, distanásia... etc. Mas tem que haver critério. Há sempre necessidade de critérios senão ficaríamos atirados a nós mesmos, ao caos diria mesmo. As omissões aqui tem a função de proteger os demais subjugados, tal como na política. Dizem eles que esta razoabilidade é para o bem de todos. Será? :)

Caiê disse...

Embora a terapêutica, em sentido lato, possa ser "o melhor para o maior número", acaba sempre por ter de ser entendida, forçosamente, como "um estudo caso a caso". Desculpa as citações, mas servem o propósito. :) É também por isso que a faculdade não ensina a realidade concreta dos pacientes nem nunca o poderia fazer, pois é o exercício profissional que, dia a dia, o revela.

"As omissões protegem os demais subjugados" nos casos referidos. Sem dúvida, toda a omissão deve ser feita com o intuito de proteger. Porque quando alguém é incapaz de imaginar a sua vida ou de se imaginar com optimismo, esse alguém cessa. Mesmo que a sua vida continue, ele/ ela já desistiu de existir.

Ah! e aprovieto para dizer que a expressão "utilitarismo ético" é extraordinária...

R.Dart disse...

Pois, concordamos. Os pessimistas é que dizem que não. ;)
...
À tua curiosidade:
Utilitarismo - do latim utilitas - utilidade; vantagem.
Foi uma doutrina representada por Jeremy Bentham (1748-1832) e por Stuart Mill (pai).
O utilitarismo faz da utilidade o único critério da moralidade: uma acção é boa na medida em que contribui para o bem estar do maior número de indivíduos.
Enquanto para Bentham, este bem estar está associado à quantidade de prazeres, para John Stuart Mill (filho/1806-1873), a questão dos prazeres não é de quantidade mas sim de qualidade, ou seja, os prazeres do espírito devem dominar os prazeres do corpo. É o chamado utilitarismo ético.
Jinho*

R.Dart disse...

Alguém me sabe ensinar como raio se fazem os itálicos e os bolds????????????????????????
Eu bem vejo acima da caixa a sugestão... mas não sei como se faz.
SOS Brigada da luta anti-azelhice: HELP!

PJG disse...

Bom.
Perdi um bom debate, mas ganhei uma noite boémia. Não se pode ter tudo, certo?

Mas se ainda for a tempo, deixem-me divagar sobre seguinte.
R.Dart: sou um pouco renitente fase à tua percepção do conceito de «acção»(trato-te por tu, e teria todo o gosto que, doravante, fizesses o mesmo comigo, se não te importas, claro).
Quando dizes «mesmo quando escolhemos não escolher... estamos a escolher, e quando as nossas escolhas (na óptica de quem omite)condicionam outros de alguma forma, essa omissão passa a ser um acto com consequências» eu sou obrigado a discordar (vá...tem de ser desta, senão ainda nos acusam de conluio).

Eu não entendo os conceito de «escolha» e «acção» em sinonímia. Escolha, para mim, é um acto de optar. Acção, para mim, é um acto de agir.
Aliás o conceito de "actiones" era, por exemplo, utilizado pelo direito romano como conceito (processual) de actuar sob qualquer coisa («actiones ob rem») ou sobre pessoas («actiones personae»).
Portanto, actuar implicava já uma exteriorização - positiva ou negativa - no desenvolvimento do processo natural. Eu «actuo» ao fechar uma janela por causa do vento (e que vento anda aqui), pois caso contrário o vento abri-la-ia.

A escolha, por sua vez, implica um juízo, geralmente de prognose, onde eu podero se actuo, ou se não actuo (i.e. omito). É um conceito que está a jusante da actuação ou da omissão. Condiciona-os, com toda a certeza, mas não se confunde com eles.

Mas não sei se tu, R.Dart, estavas a pensar na omissão que chamarei, um pouco paradoxalmente, de activa. Explico melhor pegando no exemplo da Caiê: a chamada eutanásia passiva (não continuação de tratamento médico). De facto, actualmente é aceite esse tipo de eutanásia, pelo menos em Portugal, desde que efectuada por especialistas médicos. Estes, ao confrontarem-se com a situação, têm de «optar», ou seja escolher, se actuam (continuando o tratamento) ou se omitem (terminando o tratamento). Imagino o que poderás estar a pensar:Paulo, estás a ser contraditório. Correcto será dizer que o médico actua ao terminar o tratamento e omite a morte se pretender continuá-lo. Mas não será assim.A natureza do «acto» não deixa de ser uma «omissão» (parar o tratamento), já que não implica uma exteriorização para alterar o normal processo natural (neste caso a morte). O processo natural só não é interrompido se o médico «actuar» sobre o paciente, mantendo o tratamento. Já se o parar - desligando a máquina - deixa o processo natural seguir o seu caminho. Daí a diferença da eutanásia «activa».

Outro exemplo de um válido penalista alemão: a alegoria do naúfrago. Eu estou na praia e vejo um naúfrago a afogar-se. Atiro a bóia de salvação mas, quando o naúfrago está prestes a alcançar a bóia, eu arrependo-me e volto a recolhê-la. Actuo ou omito?

Isto tudo a propósito da dicotomia entre «actuar» e «escolher».
Antes de não actuar, o médico e o socorrista «escolheram» numa fase anterior.
Isto não quer dizer que uma omissão não possa ter consequências mais graves do que uma acção. Acontecerá, certamente.
Mas são coisas distintas com resultados distintos e, consequentemente, com valorações dissemelhantes.
Escolher «actuar» implica alterar o processo natural e, portanto, consubstancia um valor mais grave e mais condenável do que uma omissão de igual calibre.
Matar alguém com um tiro é para mim bem mais condenável do que deixar alguém morrer esvaído em sangue. Ambos são maus. Mas um é mais mau do que o outro.

Não te peço desculpa pela minha divergência - porque presumo que até gostarás do desafio - mas sim pela extensão do meu comentário.

Um bom fim de semana.

R.Dart disse...

Paulo, estou com alguma pressa agora por isso não vou responder já. Quero mesmo só dizer que é um prazer enorme ler-te. Se há coisa que tens é um excelente raciocínio. Não sou autoridade nenhuma na matéria por isso não te babes, mas que o tens, tens! Deves ter sido dos que deste trabalho aos professores ;)
Seu boémio. Eu este fds nem por isso. (volto mais tarde para responder)
Bom fim de semana!

Caiê disse...

Queria dar-lhe os parabéns, Paulo, por ter pegado no exemplo da eutanásia passiva, que é um facto poder ser feita, mas que é poucas vezes nomeada pelo peso da palavra. O exemplo do náufrago também é interessante; de resto todo o seu raciocínio...
Ah! eu, a seguir a noites boémias, não falo latim... bebo chazinhos... mas a cada qual seus hábitos. ;)

PJG disse...

ERRATA:
«...o processo natural só não é interrompido se o médico «actuar» sobre o paciente...» deverá ler-se «...o processo natural só é interrompido se o médico «actuar sobre o paciente...»

R.Dart.
Foi mais forte do que eu e não evitar babar-me.
Agradeço o teu elogio, mas se dei - e dou - trabalho, é apenas pela minha «arrogância».
Portanto, escrevo sem qualquer fundamento altruísta, muito pelo contrário. E depois, «só sei que nada sei» n'est pa?

Confesso que tenho algumas dificuldades com o elogio. Talvez seja fruto do prazer que retiro da crítica, por estar habituado a ser criticado.

Dispenso pavoneio pessoal e intelectual, mas gosto de um bom «brainstorming». E este teu blogue mais não é do que isso: um «brainstroming» axiológico.

Portanto, R.Dart, se alguém está de parabéns és tu, enquanto criadora e dinamizadora deste espaço, e respectivas provocações.

Post scriptum: não obstante a santidade da época, já pequei hoje, e continuarei ao longo desta noite (mas não há problema pois há muito que sei que vou para o Inferno). Por este motivo que não terei a oportunidade de ler, ainda hoje, a tua desforra.
Mas fico aguardar por ela.

Um tranquilo final de dia.

PJG disse...

É verdade Caiê.

E eu também gosto de cházinhos. Acredite

R.Dart disse...

Tive que fazer caixinha á parte para os comentários senão perdemo-nos a ler lá por baixo. :)
...
Antes de aquecer as mãos para escrever um comentário grande, deixa-me dizer Paulo, que entendo muito bem o que queres dizer sobre as críticas. Bem sei o que é isso, mas não faz mal e desde que com educação, tal como tu, adoro. Prefiro uma boa crítica que me faça ter mais exigência para me superar (pq é sinal que mexemos com alguma coisa, connosco e com os outros, e mesmo que a mal, advém sempre bem disso) do que elogios por conveniência, o que não pratico. Afinal, também não é com mais ou menos elogios que nos construímos.
Entendamo-nos então com as nossas «arrogâncias» amigo Paulo.
...
Como sabes, com Kant passou a saber-se que há efectivamente uma separação entre as 2 razões, a teórica do pensamento e a prática da acção. È por isso que falamos em coerência e congruência, ou seja, são razões distintas mas com relação entre elas (unidas pela imaginação), o que nos faz ter racionalidade a escolher. Supondo que se pense primeiro no que se faz, dever-se-ía realmente fazê-lo - isto se fossemos inteligentes e usássemos a razão, mas nem sempre somos, e por isso o resultado das nossas acções tem que ser julgado de alguma forma, já que através da intenção das pessoas não vamos lá. A maior parte das vezes as pessoas sentem culpa por isso mesmo, por não se terem obedecido ou remetendo para Sartre, dou o exemplo da má fé: Adio o que sei que não deveria e estando consciente disso, mas não deixo de o fazer, a óbvia consequência é também a culpa, angústia. No entanto, Sartre, como bem sabe o Paulo que gosta muito dele, atribui qualquer consequência de decisão ao próprio homem. Somos o resultado das nossas escolhas. Sempre e sem qualquer fundamento, porque Sartre era ateísta, logo Deus não pode ocupar o lugar de divina Previdência.
Estamos condenados a ser livres e a escolher e por isso a responsabilidade é sempre nossa.
(Sou católica mas não gosto de pensar que podemos atribuir "culpas" a Deus pelos nossos disparates porque ele deu-nos a razão para o evitarmos.)
Logo pressupõe-se que quando estamos a escolher estamos a optar, e se optamos (no plano teórico) e agimos coerentemente (no plano prático), essa acção é de facto resultado da escolha teórica que se torna prática em caso de congruência do sujeito. É por isso que digo acima que mesmo que eu não aja terei sempre escolhido não agir, porque o escolher não escolher é também uma escolha. Pode não haver acto mas há escolha - consciente e responsável. Atenção que estamos sempre a falar aqui de livre arbítrio e nunca condicionados por algo. Estas são as nossas possibilidades pela estrutura humana biológica que temos em comum, agora quando não há consciencia nem responsabilidade o resultado recai sobre cada qual.
O que entendi pelo teu comentário Paulo, é que estamos a falar da mesma coisa mas em óticas diferentes, a minha é a explicação de onde brotam os actos do ponto de vista do sujeito, a tua, a avaliação dos actos por parte de outros. Corrige-me se estiver a pensar mal.
Sendo assim, digo-te que pela avaliação dos actos caímos inevitavelmente em juízos como bem dizes, já que nunca se poderá medir a tal (boa ou não)intenção de ninguém. Escolha é, mas se será boa? Quantas vezes com maldade não sai até algo bom e vice-versa?
Quando defendes alguém em tribunal não alegas que é boa pessoa e que teve boa intenção, podes é dizer que tem cadastro limpo como atenuante, tratas de factos. Só podemos medir carácteres pelo resultado da acção e através do juízo imposto por lei ou o de cada um, o moral. Vem daí a maior parte dos nossos problemas como podes perceber, vivemos numa época em que tudo tende a ser relativo a qualquer coisa e sempre subjectivo, ora assim a única "razão universal" tende a cair na lei, que não é um direito natural. Precisamos de leis porque somos infantis, não somos todos responsáveis infelizmente.
O não actuar pode ser considerado omissão, sem dúvida. Sob o teu ponto de vista é mais do que correcto.
Mas por esse caminho entramos por outros problemas, e quando a omissão é manipulada? Onde recai a responsabilidade da omissão na eutanásia? Uma pessoa cuja saúde esteve adulterada por máquinas, ao omitir será mesmo dar continuidade ao «processo natural»? Cada vez mais se aproxima o dia em que teremos que redefinir o conceito Homem e Vida. Esta última já quase não é natural, estamos a ganhar capacidades de escolher a vida e a morte. Não será isto perigoso?
Isso caro amigo, são tudo questões muito complexas e já alterei tanto este texto que já me perdi e já não estou a gostar dele (hehe).
É importante percebermos como funciona o processo do conhecimento, as suas causas e as suas consequências seja através da razão ou da emoção porque no fundo, nós mesmo sendo todos diferentes, temos tudo em comum. É importante antes de avaliarmos consequências sabermos as causas.
...
Não te dei uma resposta à altura, leio-me e percebo-o, mas melhores dias virão.
...
Post Scriptum: Pago-te um cházinho no inferno. ;)

R.Dart disse...

Quero acrescentar que com isto tudo, creio piamente que a esperança esteja no próprio homem. Tudo depende apenas de nós. Façamo-lo da melhor forma.

PJG disse...

R. Dart.
Não substimes a tua capacidade de resposta. Ele é mais do que evidente, segundo comprova o teu comentário.

Concordo com algumas coisas que dizes, ignoro, ou ignorava, outras e mantenho a minha discordância em relação a algumas afirmações.
Como te disse, dou-me melhor com a crítica pelo que só vou ater-me às minhas discordâncias e deixo os elogios que mereces para outra ocasião.

«Estamos condenados a ser livres e a escolher e por isso a responsabilidade é sempre nossa». Certíssimo. Mas mantém-se a dicotomia dos planos: a escolha não se confunde com a sua consequência (ou ausência dela).

«Logo pressupõe-se que quando estamos a escolher estamos a optar, e se optamos (no plano teórico) e agimos coerentemente (no plano prático), essa acção é de facto resultado da escolha teórica que se torna prática em caso de congruência do sujeito. É por isso que digo acima que mesmo que eu não aja terei sempre escolhido não agir, porque o escolher não escolher é também uma escolha.»
Continuo a discordar, ou sem perceber-te, desculpa-me. Eu escolho actuar ou não actuar.
A não ser que te estejas a referir aos actos reflexos ou condicionados (por exemplo, o manipular das mudanças do carro, ou afastar uma abelha do nariz), mas ainda aqui não há escolha, portanto estão fora do baralho.
Para mim o conceito de escolha é indissociável do elemento volitivo que norteia toda a actuação humana. Lá está, a tal liberdade e responsabilidade sarteriana de que falaste.
Quando não há vontade, não há responsabilidade (salvo raríssimas excepções).

«...estamos a falar da mesma coisa mas em óticas diferentes, a minha é a explicação de onde brotam os actos do ponto de vista do sujeito, a tua, a avaliação dos actos por parte de outros.» Não, R. Dart. Eu falo não na perspectiva consequente da escolha mas sim numa perspectiva antecedente à prática, ou omissão, do acto, enquanto resultado da escolha. Se te refere ao processo de construção da escolha, pois aí não me meto. Mas ainda não é escolha.
Portanto, estou a pensar mesmo no elemento cognitivo, na apreensão do objecto. Depois separo essa aprenssão, através da exteriorização da escolha. Eu posso escolher 1001 maneiras de te matar (não te assutes, é só um exemplo). Não deixam de ser múltiplas escolhas. Mas algumas vez serei responsável por isso?
Se não opto, não escolho. Se opto,escolho, mas tal não implica acção ou omissão. Se omito, já escolhi, portanto o processo já está completo, faltando apenas a exteriorização.E que, no caso da omissão, vem acontecer precisamente através da ausência da acção (escolhi não actuar, e não escolhi não escolher, pois, de factoo, escolhi).

«Quando defendes alguém em tribunal não alegas que é boa pessoa e que teve boa intenção, podes é dizer que tem cadastro limpo como atenuante, tratas de factos.» A segunda parte da afirmação está correctíssima. Quanto à primeira não é tanto assim, cara R. Dart. O elemento volitivo da acção é de uma importância extrema para a valoração da conduta. A intenção (culpa) é importantíssimo ao nível do Direito Penal; a boa-fé, enquanto norma de contuda, para o Direito Civil; a concorrência leal para o Direito Económico, etc.
Salvos raríssimos casos, não é possível responsabilizar alguém de forma objectiva.
Mas mesmo que não caíamos no aspecto legalista da questão, toda a regra, seja qual for a sua natureza, baseia-se na liberdade do homem, pelo ele só poderá ser sancionado se for livre de escolher. Atenção, refiro-me a toda a regra que seja digna de pertencer a um Estado de Direito. Quando isso não acontece, está-se perante um aborto; um não direito; um gerado mas não criado.

«Onde recai a responsabilidade da omissão na eutanásia? Uma pessoa cuja saúde esteve adulterada por máquinas, ao omitir será mesmo dar continuidade ao «processo natural»?» Entendo que sim, por mais crus e empedernidos que sejam os factos. A pessoa só não morreu em virtude da liberdade da intervenção humana, pelo que da mesma maneira quem será responsável pela não continuação do tratamento será quem se arrogou dessa mesma liberdade (não é por acaso que é admissível que um Jeová morra esvaído em sangue, desde que o médico saiba que o paciente não admitiria tal operação, em virtude das suas - legítimas - crenças religiosas. Aqui o médico pode, e no meu entender até DEVE, respeitar a vontade do paciente, desde que o mesmo seja um imputável).
Não acredito em direitos absolutos e tudo tende a relativar-se, como enfatizaste e bem, e em proporção directa à quatidade de informação de vamos recebendo, sublinho eu.
Mas não é isso a ponderação de valores? Para quem a vida não é um valor absoluto mas sim um valor que terá de ser medido com a dignidade da pessoa humana, deves supor qual a minha conclusão, não?

«Cada vez mais se aproxima o dia em que teremos que redefinir o conceito Homem e Vida. Esta última já quase não é natural, estamos a ganhar capacidades de escolher a vida e a morte. Não será isto perigoso?»
Eu não acho perigoso, mas sim fascinante. O conceito «Homem» evoluiu na verdadeira acepção do termo. De um verdadeiro «SuperHomem». Já não é Deus o culpado mas sim o Homem (quem sempre foi).
Depois, a noção do início e do termo da vida, é complexa. Mas não é aporética. Quanto mais evolui a técnica mais se pode constactar do que é efectivamente viver, e do que não é. A vida artificial não me parece suficiente para obnubilar a questão, a não ser que começem a entrar razões religiosas, o que é já um outro campo.
Entra aí de novo a ponderação de valores: vale a pena viver sem qualquer dignidade, mesmo tratando-se da manutenção de uma vida não consentida?


E pronto.
Sáo estas as passagens da tua resposta que não percebi ou então que não concordo. No primeiro caso peço desculpa, no segundo «não vou por aí», como dizia José Régio.

Não pretendo desenvolver qualquer teoria epistémica. Nada disso.
Isto aqui é só conversa de café...ou de chazinho!

Dou o merecido descanso aos teus olhos.

Accomplissements sympathiques!

R.Dart disse...

O R antes do meu último nome é de Rosa. :)

Temos muitas ideias aqui já. Haveremos de esmiuçar isto aos poucos. Assim parece-me bastante confuso para quem nos leia e mesmo para nós, que corremos o risco de não aprofundarmos bem as coisas para que lhes possamos dar a importância que lhes é devida.

Notinha manhosa: Quando deixo perguntas no ar não significa que esteja a concordar... são só radares. ;)

I'll be back... to the next tea.