Segunda-feira, Julho 23, 2007

Estão a matar o desejo!

Lembro-me de, há alguns anos, me ter oferecido para passar uma tarde com os filhos de uns amigos. Os pais estavam a trabalhar e as crianças ficavam aborrecidas em casa. Planeei levá-las a espaços diferentes que lhes proporcionassem novas actividades, programei percursos e organizei jogos, e até me aventurei na compra de uns pequenos “mimos”. Suponho que se tenham divertido mas, de facto, apenas retive um momento fugaz desse dia: ofereci um gelado (“dos bons” – diria eu; “que insignificância” – responderiam vós) e, perante a total ausência de reacção, tendo perguntado se não gostavam, uma das crianças disse-me ser já o terceiro do dia.
Fiquei estupefacta! Não porque não houve agradecimento da oferta, mas porque não houve alegria no receber.
Desde então reparo naquela criança que faz birra no supermercado e que os pais se apressam a acalmar entregando o objecto pretendido ou aquela outra que, em frente do escaparate dos doces, recusa todos, não obstante a insistência dos pais em lhe quererem dar o que ela escolher. Estão a matar o desejo! E sem desejo nem a criança nem nós nos desenvolvemos ou podemos ser felizes. É o desejo que nos torna responsáveis pela eleição dos fins, que estimula à descoberta dos melhores meios, que confere mérito ao nosso esforço, e que nos recompensa com a felicidade que advém da dificuldade e até da natureza transitória da posse... porque, afinal, o desejo tem de persistir... Aristóteles disse-o no séc. III a.C., tê-lo-emos esquecido no séc. XXI?

Maria do Céu Patrão Neves in Jornal Diário a 2007-07-20

Sexta-feira, Julho 13, 2007

“Escolhendo-me, escolho o homem”

Opinião

A primeira vez que li não compreendi: “escolhendo-me, escolho o homem”. Avancei no texto de 1948 do filósofo Jean-Paul Sartre para confirmar que o sentido mais evidente da expressão era afinal também o mais genuíno, não obstante a estranheza que pudesse causar. Toda a “escolha” é sempre, inevitavelmente, a expressão de um valor, e tanto o que escolhemos para nós como o modo como escolhemos ser são testemunhos do que valorizamos, do que designamos por “bom” ou “bem”. Escolhemos para nós sempre o que consideramos ser melhor (mesmo se afirmássemos estar a escolher o pior seria ainda o melhor para nós) pelo que, paralela e implicitamente, rejeitamos outras escolhas, destituímos outros pretensos valores. Por isso “escolhermo-nos” é também escolher um modelo de pessoa, é escolher os outros ou como todos deviam ser; é escolher a humanidade.
Sartre destaca este aspecto para acentuar a enorme responsabilidade que nos incumbe em cada escolha. Porque, afinal, nunca escolhemos apenas para nós ou a nós próprios; quando decidimos agir e ser de um determinado modo, quando “nos escolhemos”, estamos a indicar como consideramos que os outros deviam agir e pensar, estamos a “escolher os outros”. Por isso – conclui o autor – devemos ter sempre presente a pergunta: “Que aconteceria se toda a gente fizesse o mesmo?”

Maria do Céu Patrão Neves in Jornal Diário 2007-07-13

«Mais Filosofia»

«Mais Filosofia» é uma rubrica - chamemos-lhe assim, cuja iniciativa partiu e está a ser desenvolvida e dinamizada pela Área de Filosofia da UAç.
Esta área de Filosofia engloba professores e ex-alunos de Filosofia da Universidade dos Açores bem como o Centro de Estudos Filosóficos.

A intenção de trazer mais Filosofia às nossas vidas passa por uma série de artigos, publicados às sextas feiras nos seguintes jornais regionais:
- Açoriano Oriental, versão papel.
- Expresso das Nove, versão papel.
- Jornal Diário, também disponível online no endereço www.jornaldiario.com

Nós por cá tentaremos acompanhar e divulgar as publicações, assinalando os respectivos autores, e esperar que gostem. Que vos façam pensar.
Escusado será dizer que se aceitam sugestões e comentários relativos aos textos.

Segunda-feira, Julho 09, 2007

Não leia este artigo!

É verdade. Não leia este artigo, pois vamos falar de algo que - não interessa a ninguém.
Vamos falar de homens, de saberes, de pensar e de filosofia.
Filosofia, isso o que é? Filosofia, para que é que serve? Dá dinheiro?
Respondendo à primeira questão, apenas com alguns filósofos, diríamos que Hegel mandava os seus alunos lerem os seus livros; Kant defendia que era necessário ensinar a pensar; Ricoeur chamava a atenção para a importância da compreensão e da captação do sentido, de um pensamento consciente analítico e crítico; José Enes envereda pela hermenêutica e Gustavo de Fraga embrenha-se na fenomenologia. Porém, todos eles compreenderam algo de importante e pretenderam, nos seus diferentes campos de investigação, partilhar esse conhecimento com os demais. Levar-nos, muitas vezes, pela mão, até entendermos e contemplarmos aquilo que tiveram a ousadia ou apenas a felicidade de poderem perceber.
Filosofia? Tem a ver com quê? Dá emprego?
Parece que ninguém sabe…
No entanto, no café, ouvimos falar em “filosofia do futebol” e todos os presentes percebem do que se está a falar. Fala-se de “filosofia governamental” que minoriza a importância da Filosofia no ensino secundário, e todos contestamos. Defende-se a “filosofia do curso” e encerram-se cursos de Filosofia. Todos reclamamos a nossa “filosofia de vida”, e assumimo-(la) com firmeza e determinação.
Afinal, aquilo que parecia a princípio complicado e até mesmo excepcional, reservado só para alguns espíritos esclarecidos, torna-se uma vulgaridade do discurso quotidiano que todos parecem entender.
Enfim, o que se entende por filosofia?
Eu bem o avisei para não ler este artigo.

Gabriela Castro in Açoriano Oriental a 06.07.2007

Sexta-feira, Julho 06, 2007

“Eu só sei que nada sei”

Opinião


“Eu só sei que nada sei” é por certo a afirmação de Sócrates que mais decisivamente o imortalizou. Repete-se ainda hoje amiúde ora jocosamente, devido ao paradoxo que exprime, ora ironicamente, pelo sentido contrário que pretende evocar, ora eruditamente, na citação de um reputado mestre. Talvez tenha sido uma destas intenções, ou até as três simultaneamente, a perpetuarem o aforismo no conhecimento comum. A mim, porém, apraz-me pensar que é esta magia de condensar uma profunda sabedoria na simplicidade de uma única frase que verdadeiramente a eternizou.
A nossa justa valorização do conhecimento tende a converter todos em pequenos grandes especialistas que emitem opinião sobre tudo com uma invariável e inflexível autoridade. Falam sem ouvir, elevando progressivamente a voz num crescente ensurdecer da sua ignorância. Não se interrogam, nem hesitam; sabem! Porém desconhecem que quem tudo sabe nada aprende. Só quem se questiona e duvida, só quem se reconhece desconhecer pode vir a aprender.
A ignorância é a origem de todo o saber.

Maria do Céu Patrão Neves in Jornal Diário a 2007-07-06

Quinta-feira, Abril 27, 2006

A Diagonal da Vida

"Ao olharmos o caminho que percorremos na vida, ao abarcarmos o seu «erróneo curso labiríntico» (Fausto), não podemos deixar de ver muita felicidade malograda, muita desgraça atraída, e talvez facilmente exageremos nas repreensões a nós mesmos. O curso da vida não é certamente a nossa obra exclusiva, mas o produto de dois factores, a saber, a série dos acontecimentos e a das nossas decisões. Séries que sempre interagem e se modificam reciprocamente. Além disso, há o facto de que, em ambas, o nosso horizonte é sempre bastante limitado, na medida em que não podemos predizer com muita antecipação as nossas decisões e muito menos prever os acontecimentos; na verdade, de ambos conhecemos com justeza apenas os acontecimentos e decisões actuais.
Sendo assim, enquanto o nosso alvo está longe, não podemos dirigir-nos directamente para ele, mas só por aproximações e conjecturas, amiúde tendo de bordejar. Tudo o que conseguimos é tomar decisões sempre segundo a medida das circunstâncias presentes, na esperança de fazê-lo bem, para desse modo nos aproximarmos do alvo principal. Na maioria das vezes, portanto, os acontecimentos e as nossas intenções básicas são comparáveis a duas forças que agem em direcções opostas, sendo a diagonal resultante o curso da nossa vida."


Arthur Schopenhauer, in 'Aforismos para a Sabedoria de Vida'


... «O Homem é aquilo que sabe» Francis Bacon ou «Sou eu e as minhas circunstâncias» Ortega Y Gasset - ? - Pode ser apenas retórica a pergunta, mas aceitam-se bitaites. ;)

Quinta-feira, Abril 13, 2006

...

É só mais um bocadinho por favor, juramos que ainda estamos deste lado de cá e prometemos mais filosofia em breve.
Beijos e abraços.

Segunda-feira, Março 20, 2006

Fernando Gil

Dados biográficos Lisboa, 19 Mar (Lusa) - O filósofo português Fernando Gil morreu, hoje, em Paris, aos 69 anos, vítima de doença prolongada, revelou fonte do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior.
Fernando Gil, nasceu a 3 de Fevereiro de 1937, em Moçambique, onde fez o liceu. Estudou sociologia, durante um ano, na Universidade de Witwatersrand, na África do Sul, partindo de seguida para Lisboa, onde se licenciou em Direito. Em 1961, parte para Paris, onde se licencia em Filosofia pela Universidade da Sorbonne.
Mais tarde, doutorou-se em Lógica, na Universidade de Paris, de que resulta a publicação da tese «La Logique du Nom». Em 1976, começou a leccionar na Faculdade de Letras de Lisboa, integrando posteriormente o Departamento de Filosofia da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, onde era professor catedrático desde 1998.
Ensinou em várias universidades europeias e sul-americanas, como as Universidades de Porto Alegre e de São Paulo, e na Universidade Johns Hoppkins, em Baltimore. A publicação, em 1984, de Mimesis e Negação, valeu-lhe o Prémio Ensaio do Pen Club, que voltará a receber com Viagens do Olhar, em 1998. Edita ainda Provas, em 1998, Tratado da Evidência, em 1993, e Modos da Evidência, em 1998.
Traduziu para português, autores como Karl Jaspers, Romano Guardini, Cesare Pavese e Merleau-Ponty. Em Lisboa, fundou e dirigiu a revista Análise.
Foi consultor do ministro da Ciência e Tecnologia, José Mariano Gago, e do Presidente da República, Mário Soares, durante os seus dois mandatos.
Recebeu, em 1993, o Prémio Pessoa e foi galardoado com o grau de Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique, em 1992. A Universidade de Aveiro nomeou-o ’doutor honoris causa’ e o governo francês agraciou-o com o título de Cavaleiro da Ordem das Palmas Académicas.

in Visão Online 20 Março de 2006

Segunda-feira, Janeiro 30, 2006

Condição Humana

(...) Vivemos, com efeito, na era do ser humano em aberto, a condição humana encontra-se actualmente, no estaleiro. (...)
Se nos quisermos orientar para o exercício duma reflexão crítica e prospectiva é conveniente começar por selecionar uma tese positiva: o estatuto em que a condição humana se encontra, hoje, situa-se perfeitamente no clima temático da modernidade, que pode ser remetido, como se de um momento originário se tratasse, para o diálogo entre Deus e Adão na Oratio (1486) de Pico Della Mirandola: nesse texto o que caracteriza a essência do conceito de humanidade é o seu carácter novo e incompleto, aberto e indeterminado. O ser humano é a criatura que simultaneamente é criadora de si própria. (...)
Se a humanidade não se perdeu, na exacta medida em que ainda não se havia encontrado, porquê então a existência de um mal-estar generalizado, um mal-estar perante o qual a nossa cultura, na multiplicidade das suas manifestações, parece querer desviar os olhos?
As respostas são também múltiplas. Por várias vezes, e de múltiplos modos, perdemos os instrumentos de navegação, e ficámos com o sentimento de que não rumamos para o cumprimento dum destino, mas antes que nos limitamos a andar à deriva.
Passemos em revista breve alguns dos sinais dessa constante perda de bússola, consitutiva do regime em que tem funcionado a cultura moderna:
a) Houve o claro sentimento/percepção de uma mudança de rota: a perda da noção de humanidade associada ao direito natural, como reacção à Revolução Francesa, que conduziu à manutenção do esclavagismo nos EUA, ao imperialismo-nacionalismo e colonialismo europeus, e ao climax de tudo isso no nazismo.
b) Crise da ideia de progresso como ideal-reitor, nas suas múltiplas formas.
c) Ruptura na ideia de confiança cega na aliança da ciência com a tecnologia (Chernobyl e contestação ecológica).
d) Descrença na ideia do papel libertador das instituições (crise do Estado): depois da passagem do Estado soberano, para o Estado nacional, vivemos no dilema de saber se a época que se abre aponta para um Estado cooperativo ou para uma estranha abolição do Estado, um recuo a uma nova era fragmentar?
e) Abandono da tese de um fim-da-história redentor e justificativo. As teodiceias laicas estão em agonia profunda. O que agora se pretende é que a história não acabe...
f) Crise na crença do papel dos valores éticos e solidários como factor de emancipação da humanidade: o testemunho contrário da fome e das múltiplas espécies de segregação subsistentes (nunca houve, simultaneamente, tanta riqueza, nem tanto sofrimento sobre a Terra...).
g) Cepticismo quanto à crença no valor principal da nossa tradição iluminista, quanto à razão como factor de transparência na condução da história humana e no alargamento da esfera controlada pela própria deliberação racional: A racionalidade parece subordinar-se ao primado de uma arquitectura pulsional, que parece estender-se não só ao individuo como à sociedade; parece termos passado da disciplina das paixões ao espectáculo da sua desinibição compulsiva.
h) Perda dos mecanismos de controlo democrático sobre a prospecção construtiva do futuro.
i) Desencanto no choque da globalização como experiência de dezenraizamento e injustiça em vez de comunhão e partilha.
j) Emergência de um profundo sentimento de culpa (mesmo que débil e confusamente formulado) em relação às gerações futuras e em relação às outras criaturas que a intensidade do nosso presente coloca em causa. É aí, aliás, que reside a demanda por um, ainda muito nebuloso, horizonte de desenvolvimento sustentável.
Em síntese: parece ter-se realizado uma das advertências nietzscheanas - perdemos Deus, mas ainda não ganhámos a altura e a distância em que poderíamos dispensar os ídolos.
Já não somos sociedades ávidas de progresso e de futuro, porque tememos a nossa transformação em sociedades devoradoras de futuro.

Viriato Soromenho-Marques (Univ. de Lisboa), Crise Ambiental e Condição Humana. Actas do colóquio Ética Ambiental: uma ética para o futuro. Coordenação de Cristina Beckert. 2001.
*(o negrito no texto é meu.)

Terça-feira, Janeiro 24, 2006

Conjugar Verbos

Deixo-vos uma sugestão.
Em caso de dúvidas na escrita, mais que não seja para aqueles que se preocupam minimamente com isto, até porque cultura não é só informação, é também saber usar a nossa língua - e já que por aqui todos se lêem uns aos outros, aprendendo (... ou desaprendendo) com isso - faz sentido apelar à responsabilidade em primar pelo mais correcto, e já agora, incondicional e/ou implicitamente, prestar um bom serviço público.
Encontrei este link sobre a conjugação de verbos, que é uma das nossas «desgraças» mais frequentes. Não está muito completo, e por tal, não deve dispensar a leitura a uma gramática, mas já é qualquer coisa para os entretantos.
Muitas vezes se lê, por exemplo: «andasse» em vez de «anda-se» ou vice-versa (entre outros verbos).
É frequente trocar-se o Imperfeito do Conjuntivo (andasse) pelo Presente Indicativo (anda-se) de verbos reflexos (aqueles onde recai a acção no sujeito: «eu lavo-me»; «tu lavas-te»; ...) ou trocá-lo pelo uso da particula apassivante «se» (por exemplo: «Em Portugal anda-se mal»), que substitui uma entidade indefinida.
Também me estive a informar com a Gata Preta que disto sabe muito mais do que eu!
Bom uso e aproveitem para dar uma vista de olhos e tirar dúvidas.

Segunda-feira, Janeiro 16, 2006

Mitos e Razões

"Uma vez que a lógica não é apenas argumento válido, mas também reflexão sobre os princípios da validade, esta só aparecerá naturalmente quando já existe à disposição um corpo considerável de inferências ou argumentos. A investigação lógica, a de pura narrativa, não é suscitada por qualquer tipo de linguagem. A linguagem literária não fornece material suficiente de argumentos e inferências. As investigações em que se pretende ou procura uma demonstração é que naturalmente dão origem à reflexão lógica, uma vez que demonstrar uma proposição é inferi-la validamente de premissas verdadeiras. Há duas condições para a demonstração, as premissas verdadeiras e os argumentos válidos.
Do ponto de vista lógico, a distinção importante é que a premissa demonstrativa é verdadeira e necessária enquanto a dialéctica não o é necessariamente. Na demonstração começamos com premissas verdadeiras e chegamos necessariamente a uma conclusão verdadeira, por outras palavras, temos uma demonstração. No argumento dialéctico, pelo contrário, não se sabe se as premissas são verdadeiras e não é necessariamente que a conclusão é verdadeira. Se nos aproximamos da verdade dialéctica é por via indirecta.
Existem 3 tipos diferentes de linguagem nas quais se procura ou se exige demonstração. Na matemática pura pretende-se demonstrar verdades abstractas e a priori, em metafísica pretende-se demonstrar proposições muito gerais sobre a estrutura do universo e, na linguagem de todos os dias, especialmente na linguagem política e jurídica, procura-se demonstrações de proposições contingentes."

William Kneale & Martha Kneale - O Desenvolvimento da Lógica (Gulbenkian)


"O mito surge-nos, deste modo, como uma conversão simbólica de atitudes e crenças próprias da consciência comum e/ou do imaginário social efectivo – conversão esta que se processa através de relatos orais colectivamente elaborados e aceites, e que propende, por vezes, a uma justificação a posteriori dos ritos e da própria ordem sócio-cultural vigente, e, de um modo mais geral, a dar (ou antecipar), resposta a inquietações comunitárias frequentemente ainda não formuladas, a respeito dos diversos níveis da condição humana e da sua inserção na ordem cósmica."

Francisco Sardo - Logos e Racionalidade (Casa da Moeda)

Segunda-feira, Janeiro 09, 2006

[sincronicidade]

... de [Luciana Melo] e [Vítor Leal Barros]

Domingo, Janeiro 08, 2006

...

Mostramos ser democráticos, acima de tudo, quando sabemos perder.
É saber aceitar as preferências dos outros e não assumir que a maioria é toda burra.
Iluminados são os candeeiros.

Quinta-feira, Dezembro 29, 2005

Bom Ano!

Votos de sabedoria e de bom senso para 2006.
Boas entradas e divirtam-se muito!

Sexta-feira, Dezembro 16, 2005

Julián Marías

«Muere el filósofo Julián Marías.
Madrid, 15 dic (EFE).- El filosofo y escritor Julián Marías murió esta mañana en Madrid en su domicilio familiar, a los 91 años, tras una larga enfermedad, informaron a Efe fuentes familiares. Los restos mortales de Marías serán trasladados al tanatorio de la Paz, en lacarretera de Colmenar, y serán enterrados mañana, viernes, en el cementeriomadrileño de la Almudena, aunque la hora está por precisar. Alumno y continuador de la obra filosófica de José Ortega y Gasset y XavierZubiri, Marías era miembro de la Real Academia de la Lengua desde 1964 y fuesenador por designación real de 1977 a 1979. Nacido en Valladolid, en 1914, el pensador es autor de numerosas obras, entrelas que destacan "Historia de la Filosofía", "Idea de la metafísica", "Laescuela de Madrid", "Antropología filosófica" y "España inteligible".»

Sexta-feira, Dezembro 09, 2005

:)

Segunda-feira, Dezembro 05, 2005

O solitário

"O solitário leva uma sociedade inteira dentro de si: o solitário é multidão. E daqui deriva a sua sociedade. Ninguém tem uma personalidade tão acusada como aquele que junta em si mais generalidade, aquele que leva no seu interior mais dos outros. O génio, foi dito e convém repeti-lo frequentemente, é uma multidão. É a multidão individualizada, e é um povo feito pessoa. Aquele que tem mais de próprio é, no fundo, aquele que tem mais de todos, é aquele em quem melhor se une e concentra o que é dos outros.

(...) O que de melhor ocorre aos homens é o que lhes ocorre quando estão sozinhos, aquilo que não se atrevem a confessar, não já ao próximo mas nem sequer, muitas vezes, a si mesmos, aquilo de que fogem, aquilo que encerram em si quando estão em puro pensamento e antes de que possa florescer em palavras. E o solitário costuma atrever-se a expressá-lo, a deixar que isso floresça, e assim acaba por dizer o que todos pensam quando estão sozinhos, sem que ninguém se atreva a publicá-lo. O solitário pensa tudo em voz alta, e surpreende os outros dizendo-lhes o que eles pensam em voz baixa, enquanto querem enganar-se uns aos outros, pretendendo acreditar que pensam outra coisa, e sem conseguir que alguém acredite."

Miguel de Unamuno, in 'Solidão'

Terça-feira, Novembro 29, 2005

1 ano

1 ano de Filosofia.
Obrigado a todos que por cá passaram e aos que vão passando.

Bioética

Bioética ou ética da vida. A bioética pode ser definida como um estudo interdisciplinar que procura estabelecer as normas que devem reger a acção no campo da intervenção técnico-científica do homem sobre a sua própria vida.


Progressos.
O século XX foi marcado por enormes progressos no domínio das ciências médicas, que permitiram curar muitas doenças consideradas incuráveis e sobretudo prolongar a vida humana (aqui lembro Saramago, que em ficção, no seu novo livro «As Intermitências da Morte» trata o assunto).
Entre os avanços científicos que o permitiram destacam-se os seguintes:
- A introdução das sulfamidas e dos antibióticos que permitiram controlar as infecções.
- A substituição dos orgãos em falência (diálise, ventilação mecânica, transplantes de orgãos, etc).
- A identificação do código genético e das leis que presidem à formação da vida (inseminação artificial, engenharia genética, etc).
- O desenvolvimento das técnicas de diagnóstico (radiografias, ecografias, diagnóstico pré-natal, etc)
Estes extraordinários progressos alteraram por completo a pratica da medicina, que passou a contar com muitos mais agentes, assim como a própria relação do homem com a própria ciência.

Problemas Éticos.
A evolução das ciências médicas até ao século XX processou-se de um modo que não suscitou grandes problemas éticos, estando os princípios fundamentais consagrados no célebre "Juramento de Hipócrates". As experiências médicas eram realizadas e por serem muito limitadas, não suscitavam grandes problemas.
Os progressos que se registaram a partir do século XX só foram possíveis porque as ciências médicas passaram a ter uma enorme complexidade e a envolverem grandes interesses económicos, onde participam uma enorme rede de agentes (médicos, farmacêuticos, biólogos, químicos, engenheiros, etc) e instituições (empresas, fundações, universidades, etc). Os interesses passaram a ser múltiplos, e nem sempre prevalecem os do saber.
Na primeira metade deste século ocorreram muitas experiências científicas que colocaram em causa os princípios mais elementares da dignidade da pessoa humana. Os casos mais conhecidos, mas não os únicos, deram-se na Alemanha durante o domínio nazi (1933-1945) onde milhares de seres humanos foram mortos em experiências médicas.
Na segunda metade do século XX, permaneceram os avanços espectaculares na biologia, biotecnologia e medicina.
Ora muitos destes progressos continuam a usar seres humanos como cobaias, muitas vezes sem o seu conhecimento. A utilização de animais passou igualmente a ser questionada, sobretudo quando a estes são infligidos sofrimentos desmesurados.
Cresceram também de forma espectacular as indústrias ligadas às áreas da saúde, nomeadamente as empresas farmacêuticas que se tornaram verdadeiros potentados multinacionais. Fruto destes progressos científicos e do dinheiro delas obtido, muitas experiências passaram a ser feitas com um único objectivo: a projecção mediática (fama) e o lucro dos laboratórios, médicos ou cientistas que as realizam. As "doenças" passaram a ser um dos negócios mais lucrativos do mundo, facto que só por si alterou radicalmente as relações entre o médico e o doente. Este último sente-se frequentemente explorado por redes de interesses que apenas consegue vislumbrar os seus contornos.
O problema dos limites da ciência e das experiências médicas, assim como os interesses nelas envolvidas, passou a estar na ordem do dia.
Em muitas áreas tornou-se cada vez mais difícil compatibilizar o progresso científico com o respeito pela vida humana e os valores culturais assumidos como estruturantes das nossas sociedades.
A diversidade de temas abordados na bioética espelham melhor que nada a complexidade que adquiriram actualmente estes problemas.

Principais temas da bioética:
1. O diagnóstico pré-natal; conselhos genéticos; eugenia fetal; terapia genética; práticas abortativas; esterilização masculina e feminina por diversos motivos;
2. Reprodução humana "artificial" ou assistida em todas as suas modalidades e suas correspondentes implicações técnicas (bancos de esperma, bancos de embriões, mães de aluguer, etc);
3. Experiências com seres humanos, embriões e cadáveres em qualquer fase do ciclo vital:
4. Informações clínicas e a sua comunicação ao paciente; reanimação; eutanásia e direito a uma morte digna;
5. Terapia e manipulação genética em todas as suas formas;
6. Suicídio e ajuda ao suicídio;
7. Transplantes de orgãos humanos;
8. Trans-sexualidade:
9. Investigação e desenvolvimento de armas biológicas e químicas;
10. Biogenética animal e vegetal.

*texto retirado da Filosofia no Sapo.

Sexta-feira, Novembro 18, 2005

Mais uma explicação para França

"(...) Numerosos estudos internacionais - quer os de política educativa, quer os que incidem na avaliação dos desempenhos reais - e não só das classificações ou diplomas - dos alunos e das escolas (OCDE, IEA, Comissão Europeia) - alertam recorrentemente para os problemas agravados de exclusão social que o facto de não ter aprendido já está a provocar dramaticamente nas sociedades actuais. São já, na sua grande maioria, alfabetizados e escolarizados e escolarizados sem sucesso - na realidade, iletrados funcionais e desenraizados sociais - os elementos de todas as bolsas de exclusão ou marginalidade das sociedades actuais.

Nem a economia, nem o mercado de trabalho, nem o díficil equilíbrio das tensões sociais podem compadecer-se com a existência de bolsas crescentes desta população quase iletrada, afastada do acesso básico à informação e ao conhecimento, informação e conhecimento que se constituem hoje como a principal chave para a inclusão social, para a rentabilidade económica, e também para o bem-estar social e a estabilidade pessoal e profissional.

A mesma escola que se confrontou com a massificação do acesso à educação, desafio já genericamente superado, encontra-se hoje perante uma situação bem mais complexa: a premência da subida do nível educativo real das populações. Trata-se, assim, nos nossos dias, da necessidade de "massificar o sucesso", ou seja, garantir a todos uma qualidade educativa satisfatória, não podendo mais confinar-se a escola ao papel de assegurar uma socialização de base e uma instrução elementar para a maioria, com aprendizagem de melhor nível apenas reservada a alguns.

Em síntese, o grande problema da escola é hoje o de responder satisfatoriamente a todos, garantindo-lhes um bom apetrechamento educativo - sendo que esses todos são cada vez mais diferentes (Roldão, 1998)."

in
Roldão, Maria do Céu. Gestão Curricular, fundamentos e práticas. Ministério da Educação, 1999, pp.33.

Tolerância

*Este é o logo de 1995 - Ano da Tolerância - proclamado pelas Nações Unidas.
Imagem desenhada por Manuel Arquier.

*Estas são as bandeirinhas da Tolerância adoptadas pela UNESCO. Veja a sua significação.

HOW CAN INTOLERANCE BE COUNTERED?

1. Fighting intolerance requires law:
Each Government is responsible for enforcing human rights laws, for banning and punishing hate crimes and discrimination against minorities, whether these are committed by State officials, private organizations or individuals. The State must also ensure equal access to courts, human rights commissioners or ombudsmen, so that people do not take justice into their own hands and resort to violence to settle their disputes.

2. Fighting intolerance requires education:
Laws are necessary but not sufficient for countering intolerance in individual attitudes. Intolerance is very often rooted in ignorance and fear: fear of the unknown, of the other, other cultures, nations, religions. Intolerance is also closely linked to an exaggerated sense of self-worth and pride, whether personal, national or religious. These notions are taught and learned at an early age. Therefore, greater emphasis needs to be placed on educating more and better. Greater efforts need to be made to teach children about tolerance and human rights, about other ways of life. Children should be encouraged at home and in school to be open-minded and curious.
Education is a life-long experience and does not begin or end in school. Endeavours to build tolerance through education will not succeed unless they reach all age groups, and take place everywhere: at home, in schools, in the workplace, in law-enforcement and legal training, and not least in entertainment and on the information highways.

3. Fighting intolerance requires access to information:
Intolerance is most dangerous when it is exploited to fulfil the political and territorial ambitions of an individual or groups of individuals. Hatemongers often begin by identifying the public's tolerance threshold. They then develop fallacious arguments, lie with statistics and manipulate public opinion with misinformation and prejudice. The most efficient way to limit the influence of hatemongers is to develop policies that generate and promote press freedom and press pluralism, in order to allow the public to differentiate between facts and opinions.

4. Fighting intolerance requires individual awareness:
Intolerance in a society is the sum-total of the intolerance of its individual members. Bigotry, stereotyping, stigmatizing, insults and racial jokes are examples of individual expressions of intolerance to which some people are subjected daily. Intolerance breeds intolerance. It leaves its victims in pursuit of revenge. In order to fight intolerance individuals should become aware of the link between their behavior and the vicious cycle of mistrust and violence in society. Each one of us should begin by asking: am I a tolerant person? Do I stereotype people? Do I reject those who are different from me? Do I blame my problems on 'them'?

5. Fighting intolerance requires local solutions:
Many people know that tomorrow's problems will be increasingly global but few realize that solutions to global problems are mainly local, even individual. When confronted with an escalation of intolerance around us, we must not wait for governments and institutions to act alone. We are all part of the solution. We should not feel powerless for we actually posses an enormous capacity to wield power. Nonviolent action is a way of using that power-the power of people. The tools of nonviolent action-putting a group together to confront a problem, to organize a grassroots network, to demonstrate solidarity with victims of intolerance, to discredit hateful propaganda-are available to all those who want to put an end to intolerance, violence and hatred.

Terça-feira, Novembro 15, 2005

Dia Mundial da Filosofia - Atelier de Filosofia

Dia Mundial da Filosofia
Proclamado pela UNESCO
17 de Novembro de 2005
“[...] A filosofia é uma ‘escola da liberdade’ [...], uma escola da solidariedade humana. [...] O ensino da filosofia contribui para a formação de cidadãos livres.”
(UNESCO, Dezembro, 2004)

Atelier de Filosofia
Universidade dos Açores

O “Dia da Filosofia” começou a ser celebrado pela UNESCO desde o ano de 2002. Porém, apenas no passado mês de Outubro de 2005, por ocasião da 33ª sessão da Conferência Geral da UNESCO, foi formalmente proclamado, passando a ser assinalado na terceira quinta-feira do mês de Novembro. No próximo dia 17 de Novembro celebra-se, pela primeira vez a título oficial, o Dia Mundial da Filosofia.
O Grupo de docentes de Filosofia e os alunos do Seminário de Licenciatura em Filosofia, da Universidade dos Açores, vão assinalar este Dia através da organização de um Atelier de Filosofia que, como a designação sugere, consiste num conjunto de actividades destinado a permitir aos alunos relacionarem-se com o pensamento filosófico de uma forma interactiva. Para o efeito, estarão montadas cinco “bancas de trabalho”: “o Passeio dos Filósofos” (reprodução do “Jogo da Glória”); “Ver, Ouvir e Pensar” (combinação de imagens, textos e música); “Muda de Canal” (apreciação de anúncios publicitários); “Jogos de Pensamento” (construção de palavras cruzadas e banda desenhada); “Forum de discussão” (diálogo polémico). Paralelamente, apresentar-se-ão dois posters temáticos, um dedicado a Jean-Paul Sartre, cujo centenário do nascimento se celebra em 2005, e um outro dedicado a Paul Ricoeur, falecido no presente ano.
No dia 17 de Novembro, a Universidade dos Açores manterá um “espaço aberto” (Edifício da Aula Magna), das 9:30 às 17:30 horas, convidando todos os interessados a visitarem e a “trabalharem” nas diversas bancas deste Atelier de Filosofia.
Convidamo-los para uma experiência única!

Maria do Céu Patrão Neves
(Organização)

Segunda-feira, Novembro 14, 2005

A Sexualidade Humana

Mais um documento de referência, desta feita, elaborado pelo Prof. Doutor Michel Renaud.
A quem possa interessar, favor ver na página do CNECV.

Terça-feira, Novembro 08, 2005

Da gestação ao colapso

«O acontecer histórico não é um fenómeno de geração espontânea ou de produção brusca. Não resulta também da simples associação de vontades, nem se esgota com a própria vivência. Germina lentamente, sem prejuízo dum eventual momento explosivo. A sua energia projecta-o para além de si mesmo, marcando, de um modo ou de outro, o devir histórico.»

Graça e J.S. da Silva Dias, in Os primórdios da Maçonaria em Portugal, vol I, tomo II. Lisboa 1986.

Sábado, Outubro 22, 2005

Dignidade Humana

"Em resumo, o termo Dignidade Humana é o reconhecimento de um valor. É um princípio moral baseado na finalidade do ser humano e não na sua utilização como um meio. Isso quer dizer que a Dignidade Humana estaria baseada na própria natureza da espécie humana a qual inclui, normalmente, manifestações de racionalidade, de liberdade e de finalidade em si, que fazem do ser humano um ente em permanente desenvolvimento na procura da realização de si próprio. Esse projecto de auto-realização exige, da parte de outros, reconhecimento, respeito, liberdade de acção e não instrumentalização da pessoa. Essa auto-realização pessoal, que seria o objecto e a razão da dignidade, só é possível através da solidariedade ontológica com todos os membros da nossa espécie. Tudo o que somos é devido a outros que se debruçaram sobre nós e nos transmitiram uma língua, uma cultura, uma série de tradições e princípios. Uma vez que fomos constituídos por esta solidariedade ontológica da raça humana e estamos inevitavelmente mergulhados nela, realizamo-nos a nós próprios através da relação e ajuda ao outro. Não respeitaríamos a dignidade dos outros se não a respeitássemos no outro.
Na ética moderna, a dignidade humana exprime-se em um 'nós-humanidade' que não é a soma dos 'eus' individuais. Segundo Levinas, "'nós' não é o plural de 'eu'". O ponto de partida para a expressão dessa dignidade situa-se na totalidade dos seres humanos e por isso foi possível afirmar-se que enquanto um ser humano não for livre, nenhum ser humano será livre.
A socialização não é porém uma diluição do 'eu' no conjunto da comunidade humana. Como vemos todos os dias, todo o ser humano aspira a repetir o seu "paraíso perdido", que foi a fusão total com a mãe. Daí a procura, por vezes desenfreada, de uma relação dual. Ora, o indivíduo acede à sua condição de ser único quando torna possível essa passagem da fusão com a mãe à autonomia. É a aprendizagem do 'eu/tu' que Martin Buber tão eloquentemente descreveu e onde alicerçou as condições indispensáveis para a alteridade efectiva. Quanto maior e mais alargado for o número de pessoas com quem estabelecemos a relação 'tu/eu', maior é a nossa participação na noosfera e mais forte é a nossa dignidade humana.
Foi esta noção de uma camada de humanos que envolve toda a Terra que Teilhard de Chardin chamou a noosfera. Ela é interdependente da biosfera e da atmosfera. A evidência desta afirmação encontra-se no nosso quotidiano (vivemos das espécies biológicas e respiramos porque imersos na atmosfera). Mas também a encontramos em certas manifestações religiosas que têm marcado profundamente algumas civilizações. Assim, por exemplo, no Budismo não há separação entre o humano e toda a realidade natural que o rodeia. No nosso tempo, esta interdependência é sentida através da acção nefasta do humano sobre a biosfera e sobre a atmosfera. Daí poder inferir-se que a contribuição para a integridade e diversidade das espécies biológicas e para o equilíbrio da atmosfera é, afinal, também contribuir para a defesa da dignidade humana."

Prof. Doutora Teresa Joaquim, in Documento de trabalho: 26/CNECV/99;
REFLEXÃO ÉTICA SOBRE A DIGNIDADE HUMANA

Príncipio da Autonomia


"Não te dei, ó Adão, nem rosto, nem um lugar que te seja próprio,
nem qualquer dom particular, para que teu rosto, teu lugar e teus
dons, os desejes, os conquistes e sejas tu mesmo a possui-los.
Encerra a natureza outras espécies em leis por mim estabelecidas.
Mas tu, que não conheces qualquer limite, só mercê do teu arbítrio,
em cujas mãos te coloquei, te defines a ti próprio. Coloquei-te no
centro do mundo, para que melhor possas contemplar o que o mundo
contém. Não te fiz nem celeste nem terrestre, nem mortal nem
imortal, para que tu, livremente, tal como um bom pintor ou um hábil
escultor, dês acabamento à forma que te é própria".

Pico de la Mirandola

Quarta-feira, Outubro 19, 2005

Linguagem

A reflexão sobre a linguagem é antiga, mas as definições clássicas da linguagem eram muito gerais (faculdade de expressão verbal do pensamento, etc), confundindo-se língua com linguagem. É com o Cours de linguistique générale (1916) de Saussure, fundador da linguistica, que se define a linguagem na sua especificidade, como faculdade de constituir um língua. Desde então, linguagem e língua estão dissociadas e esta ruptura marcou todo o pensamento contemporâneo. Linguagem era sinónimo de língua antes de Saussure, depois deste, toma outra acepção. É a faculdade de comunicar o pensamento por um sistema de signos (ex: Gestual, que não é universal, cada língua tem as suas convenções próprias, gestos próprios), e em particular por meio da língua (conjunto de convenções adoptadas pelo corpo social) associada à palavra (meio verbal individual de expressão). Faculdade de constituir uma língua.

"O que é a língua? Para nós, não se confunde com linguagem, porque é somente uma parte determinada dela, embora essencial. É, ao mesmo tempo, um produto social da faculdade da linguagem e um conjunto de convenções necessárias, adoptadas pelo corpo social para permitir o exercício desta faculdade entre os indivíduos."
(Saussure, Cours de linguistique générale, p.25, Payot)

A semiologia

Vem do grego sèmeion - «sinal» e logos - «estudo», «ciência» ou «razão». É a chamada ciência dos sinais que estuda a organização dos sistemas significantes.
O projecto de uma semiologia geral foi fundado pelo linguista Ferdinand de Saussure. Diz-nos ele que se a língua é um sistema organizado de signos arbitrários, dos quais podemos estudar as relações (e não apenas a sua evolução), é, então possível estudar da mesma maneira todos os sistemas de sinais que regem a vida social (gestos, roupas, regras de boa educação, etc.). Nesta perspectiva, a linguistica, na medida em que tem por objecto a estrutura da língua, é apenas uma parte da semiologia, mesmo se essa parte seja exemplar e sirva de modelo.

As tautologias

Como a inferência é sempre verdadeira, quaisquer que sejam os valores de verdade atribuídos às proposições, chamar-se-á tautologia. Seja por exemplo o seguinte raciocínio: «Se o Pedro ama a Maria; o Paulo é solteiro; ora Paulo não é solteiro; então o Pedro não ama a Maria»: que, no mundo real, Pedro ame ou não a Maria, que Paulo seja ou não solteiro, o cálculo será sempre válido. Será o mesmo, independentemente do sentido dado a «Pedro», «Maria», «ama», «solteiro», etc.
Vazias de qualquer conteúdo, as tautologias não são de todo desprovidas de utilidade. Constituem pelo contrário as leis lógicas na base das quais operam as regras do cálculo. Mais geralmente, formulam os princípios lógicos que permitem raciocinar correctamente e justificar a correcção dos nossos raciocínios.

A lógica como cálculo

Como toda a escrita simbólica, a lógica serve para calcular e/ou manipular os símbolos, de forma a chegar, através de procedimentos mecânicos, a um resultado indiscutível.
Leibniz foi o primeiro, no século XVIII, a querer estender a ideia de cálculo a um domínio mais lato do que o dos números e das quantidades, e a projectar construir uma «álgebra do pensamento». Da mesma forma que na aritmética, por exemplo, a «sintaxe» - ou seja, as regras de utilização dos sinais =, +, -, x, : - permite calcular de uma forma precisa os números, - é possível definir um conjunto de proposições relacionadas de maneira regrada, graças a conectores lógicos: ~ (negação), & (deveria ser um v ao contrário, mas não o descubro. leia-se "e"), v (ou), => (implicação - se... então...), <=> (consequência), etc. O emprego destes conectores permite-nos transformar as proposições e operar sobre elas como se fossem fórmulas.

Língua natural e língua simbólica

Embora o silogismo seja formal (podemos substituir os termos por variáveis), Aristóteles concebia-o como um instrumento da ciência (as obras lógicas de Aristóteles são conhecidas por nós sob o nome de Organon, que significa «instrumento»). Era então, para ele, inquestionável construir silogismos válidos a partir de proposições falsas «materialmente», ou mesmo a partir de simples «formas proposicionais». A lógica moderna libertar-se-á definitivamente deste ponto de vista «realista».