segunda-feira, dezembro 05, 2005

O solitário

"O solitário leva uma sociedade inteira dentro de si: o solitário é multidão. E daqui deriva a sua sociedade. Ninguém tem uma personalidade tão acusada como aquele que junta em si mais generalidade, aquele que leva no seu interior mais dos outros. O génio, foi dito e convém repeti-lo frequentemente, é uma multidão. É a multidão individualizada, e é um povo feito pessoa. Aquele que tem mais de próprio é, no fundo, aquele que tem mais de todos, é aquele em quem melhor se une e concentra o que é dos outros.

(...) O que de melhor ocorre aos homens é o que lhes ocorre quando estão sozinhos, aquilo que não se atrevem a confessar, não já ao próximo mas nem sequer, muitas vezes, a si mesmos, aquilo de que fogem, aquilo que encerram em si quando estão em puro pensamento e antes de que possa florescer em palavras. E o solitário costuma atrever-se a expressá-lo, a deixar que isso floresça, e assim acaba por dizer o que todos pensam quando estão sozinhos, sem que ninguém se atreva a publicá-lo. O solitário pensa tudo em voz alta, e surpreende os outros dizendo-lhes o que eles pensam em voz baixa, enquanto querem enganar-se uns aos outros, pretendendo acreditar que pensam outra coisa, e sem conseguir que alguém acredite."

Miguel de Unamuno, in 'Solidão'

5 comentários:

R.Dart disse...

(via Citador)

Vítor Leal Barros disse...

rosita, tenho a dizer-te que este texto é um mimo...

bjo

Lu disse...

Rosa, talvez porque o solitário não é, ele está... e essa é condição sine qua non para que sejamos capazes de nos inebriar dos outros.
Beijo.

R.Dart disse...

Exactamente, não podia concordar mais contigo Lu.
É uma condição que implica actividade, que implica o «sendo» e que sem ela nunca «absorveríamos» os outros, não pelo menos, ou aproximadamente, da forma mais pura.

Anónimo disse...

Acrescentar que este livro foi editado pela Ariadne Editora
http://ariadne-editora.blogspot.com