quarta-feira, março 16, 2005

Filosofia Prática

Ser filósofo não é apenas ter ideias subtis, nem mesmo fundar uma escola... É resolver alguns dos problemas da vida, mas em termos práticos.
Henry David Thoureau

Praticar a Filosofia é sondar o temperamento pessoal mas é também, e simultaneamente, uma tentativa de descoberta da verdade.
Iris Murdoch

35 comentários:

PJG disse...

«Nada mais prático do que uma boa teoria» (Kant)n'est pa?

R.Dart disse...

Não faço ideia mas é uma boa frase. Garanto-lhe é que dentro da CRPura, da CRPrática, da CFJuízo e dos Prolegómenos se torna cansativo procurar :)

Mas se se interessar mais sobre Filosofia Prática:

http://apaef2005.weblog.com.pt/

v. LEAL BARROS disse...

levantar as perguntas certas e tentar dar-lhes resposta... tentando perceber e sentir esta coisa magnifica que é a vida

...beijo

R.Dart disse...

É sim migo. Mas só levantamos as certas com conhecimento, senão passamos a vida às cabeçadas em inutilidades. Encontrar as respostas? Pois sim, sempre. É esse o ouro dos alquimistas ;)

Miguel Sousa disse...

gostei muito das duas citações. relativamente´à última...parece-me importante que se entenda que a verdade não é única..

R.Dart disse...

Essa importância, caro Miguel, descobre-se à medida que se vai aprendendo.
Não foi à toa que Sócrates dizia: "Só sei que nada sei" É como lhe digo, mais vale cheios de conhecimento para se chegar à frase de Sócrates do que vazios. Contudo, também é importante fazer-se a distinção entre Verdade e Certeza. São coisas muito distintas. Fica para outro post esta distinção no ponto de vista das ciências.

Anónimo disse...

Sobre Iris Murdoch deixe-me sugerir-lhe o filme "Iris".

R.Dart disse...

Boa sugestão, já fui inspecionar na net e parece-me bem.
Obrigado!

Anónimo disse...

Ah!...e sobre Thoureau continuemos a andar a pé...

Caiê disse...

Ouvi dizer, certa vez, que a ética era o melhor ramo filosófico porque nos ensinava a viver. Talvez possas atirar luz sobre esta frase.
Kissinhos.

R.Dart disse...

Caiê, a constituição da ordem ética é saber como ordenamos os actos na nossa vida. Como bem sabes, a ordem das coisas altera o fim que se quer.
Não basta ter determinados ingredientes, há que saber misturá-los.
Para mim, a ética é o melhor ramo filosófico sim, pelo menos o meu preferido. Principalmente por essas razões que dizes, não que ensine a viver, mas porque se aprende a viver e a pensar criticamente [ética do étimo grego ethos: lugar onde habita o homem; entenda-se como: a verdade que está dentro de nós, a nossa essência mais íntima que nos faz sermos o que somos].
A ética é portanto, o estudo da racionalidade do agir, do encadeamento lógico das nossas acções, a nível de fundamentação e normatividade.
Defendo muito a ética prática, porque esta se torna útil, as pessoas entendem-se a si mesmas com outra clarividência. Creio que metade dos problemas pessoais que há, são consequência da forma obscura como se encara a vida. Mais Platão, menos Prozac! ;) É de Lou Marinoff para quem quiser ler.

Sobre isso, digo-te o que já sabes para não correr o risco de escrever muito agora, fica para um outro post. Visita a página:
http://apaef2005.weblog.com.pt/

Beijos amiga.

R.Dart disse...

Anónimo, não apanhei a do Thoureau :|

Anónimo disse...

É o nome de um livro do Thoureau - "Andar a Pé" .

Caiê, quem se apaixona por um polícia? e por um ladrão?... ;)

PS. O exemplo é leviano, mas bem aprofundado não é assim tão inocente.

Miguel Sousa disse...

Li o texto da ética que sugeriu e achei interessante. Quando acabei pquestionei: mas como dar um aspecto prático da ética ...talvez o seu interesse pela ética prática possa ajudar este pobre ignorante...eh eh

carlos disse...

Então,cara Prima,não conhece o "Walden, or Life in the Woods"(1854) do Henry David? Mau, Maria!
Conselho de amigo e parente: outro livrinho para a lista do shopping e, se for dada a vertigens bibliófilas, recomendo a edição publicada o ano passado (2004)para assinalar o 150º aniversário da "editio princeps".

R.Dart disse...

Carissímo Miguel, não é assim realmente. Não é com um simples texto que o Homem se forma, mas sim com muito estudo e preserverança. Isto para quem tem por meta querer sempre ser melhor, superar-se.
Na ética é como na enologia, caro amigo. Cada palavra tem que ser convenientemente degustada, tem que fazer parte de si para que a digira com sentido.
A ética é um todo que não pode ser entendida por partes e consequentemente torna-se uma parte autónoma do todo das ciências.

R.Dart disse...

A ética é prática, é o estudo do nosso agir. A ideia é usar essa informação em nós, senão para quê mais um punhado de ideias amorfas?

R.Dart disse...

Anónimo, essa do polícia...
Diria de outra forma, quem se apaixonará por um ladrão ou por um assassino ou por outro escroque que não contribui em nada para a nossa felicidade e/ou o da sociedade? Deixemos os polícias que quero crer que ainda haja uns realmente vocacionados para o bem comum.
Se essa é também a sua ideia, deixe-me que lhe diga que também não concebo "amor" dessa forma. Vai além de qualquer paixão entusiasmadamente adolescente. Supera a admiração e o respeito, por isso a "selecção" passa naturalmente por outras vocações.

R.Dart disse...

Anónimo e Carlos, querido primo atento, nunca li na íntegra nenhuma obra de Thoureau. Ando sempre limitada pelo tempo por ter sempre outras leituras em mãos. Estou a ver que vale a pena por isso farei o possível por me desdobrar e lê-lo. Obrigado!

Caiê disse...

Obrigada pelas dicas, Rosa.

Quanto a Thoreau, parece-me que falam de :
"I went to the woods
because I wanted to live deliberately life deep
and suck all the marrow out of life
to put around all that was not life
and not, when I've come to die,
discover that I had not lived."
Desculpem se falho, mas cito de cor. Conheço melhor a literatura do que a filosofia, por razões óbvias...

A sua frase, Anonymous, é muito pouco inocente. É excelente. Eu, porém, não me apaixonaria por nenhum. As regras policiais parecem-me muito ... limitativas. O que nos encerra é sufocante.

R.Dart disse...

Não podias ter ido buscar melhor Caiê. Bem desterrado. É por isso que gosto do Sr. em questão.
Quanto ao resto... fardas tb não são o meu forte, dixit.

R.Dart disse...

Se bem que hoje estou solidário com os que morreram coitados.

Anónimo disse...

"(...)Se essa é também a sua ideia, deixe-me que lhe diga que também não concebo "amor" dessa forma."

Não se precipite. E quem falou de "amor"?

...

E os que morrem diaramente e ninguém fala? Os que morrem de frio, de fome...
É claro que lamento a morte dos dois agentes da PSP -que isso fique bem claro.

Mas muito haveria sobre isso falar. Como o outro diz "a ética só entra depois de ter a barriga cheia". E se deseja, como eu, uma sociedade mais justa e mais livre, com uma "boa prática ética" (seja lá o que isso for) comece por acabar com a pobreza que se vê neste país.

Alguma ideia?

R.Dart disse...

"Caiê, quem se apaixona por um polícia? e por um ladrão?... ;)"

Anónimo disse...

"O que nos encerra é sufocante."

E um grande roubo, diria eu.

R.Dart disse...

O outro que diz que a ética só entra de barriga cheia não me parece muito bem pensado, aliás, é melhor mesmo que não se saiba quem é.
É esse o grande problema porque há tanta pobreza, caro anónimo. ;)

Caiê disse...

Um roubo, sim, concordo. "Evita o que te encerra e o que te enterra". Eu, isto, não posso deixar de ter presente.

Achei interessante isso de "A ética só entra de barriga cheia". Percebo que choque esta afirmação. Mas não será a ética uma preocupação de quem está saciado? Afinal, quem tem fome de pão, fará quase tudo. É uma verdade muito crua, mas não a podemos julgar levianamente, porque nenhum de nós (espero) tem fome de pão. Como ser juiz de quem a tem?

Quanto à paixão... Eu creio bem que ela não desemboca em amor, muitas vezes. "Amor" é uma palavra que designa um outro algo, na minha opinião.

R.Dart disse...

A Ética, a quem tivesse fome, faria a diferença entre o que mata e engana para roubar o pão, e o que trabalha ou pede para comer.

Em todo o lado, em todas as profissões, em cada pessoa, há sempre uma melhor forma de se fazer as coisas. Ética antes significa uma boa educação, ética durante é o que cada um de nós faz todos os dias, tentamos melhorar-mo-nos. Ou não o fazem?
Ou para que serve isto se ela não interessa?

Caiê disse...

Pois, Rosa, percebo a indignação, digamos assim. Mas conheci quem roubasse para comer. Dir-me-ás: porque não trabalhavam? Porque tinham 1O anos. Dir-me-ás: com essa idade, a ética não se aplica. Eu acho que a ética existe sempre. O que não há é a ética como verdade universal. Eu, pelo menos, não acredito em princípios universais, válidos sempre e para todos. Depende das circunstâncias de cada um.

Mas claro, eu nem estudo Filosofia, e vocês todos saberão melhor... Eu só vivo.

R.Dart disse...

Caiê, a ética não é universal ou absoluta, há muito que Kant com a sua razão universal ficou para trás, esta é, como dizes, relativa e subjectiva, o que não invalida que se guie por princípios (não regras, mas normas), universais, vejamos os direitos humanos. Haverá algo que nos una além de regras e normas? Haverá uma dimensão espiritual que nos faz gostarmos uns dos outros (a simpatia, a empatia, a solidariedade...) ou tudo se resume à mera química corporal e a regras sociais regidas por utilitarismos para que não sejamos, como Hobbes diz, o lobo do homem?
Será possível darmo-nos todos bem apenas pela beleza de termos semelhantes diferentes (passo a expressão paradoxal, espero que entendam)? Ou seremos tão "umbigais" que os outros são apenas parte da nossa construção de interesses?
Eu estudo isso mas não é preciso estudar-se isto, é preciso pensarmos isto. Quanto mais respeitarmos toda a dimensão humana, melhor tentaremos passar o nosso contributo a outros, melhor tentaremos um dia ser bons pais e passar isso aos nossos filhos para que eles não roubem, por exemplo.
Porque sim, a ética é o agir humano, é aquela que mesmo escolhendo não escolher, estaremos a escolher, é irredutível ao homem. Não há quem não aja. Então porque não sabermos os porquês, porque não fazermos melhor? Porque não tentar fazer disto tudo um lugar melhor?
...
Sempre achei que ter filhos era mais do que satisfazer o desejo de ser mãe ou de manter continuidade genética. Acho pessoalmente que colocar crianças neste mundo sem a capacidade de lhes dar um mundo e uma vida boa, é um crime, um egoísmo. Isto, que se note, não passa nem de perto por concordar com o aborto, passa antes de mais, por pensarmos em tudo o que fazemos, medir causas e consequências, seja por livros, experiência ou observação. Temos tudo ao nosso alcance para isso. Saberemos fazê-lo? Ou escudamo-nos em teorias facéis e confortáveis? Também não sei, nem nunca se há-de saber. Defendo apenas que se deve tentar saber, cada um por si, a viver, como dizes Caiê, mas com mais exercício, com mais seriedade. Deprime-me saber que muitos possam pensar que este não possa ser um assunto da maior importância, mas é. A comida para a boca não faltará de certeza se o espírito estiver alimentado. Basta olhar em volta.
...
Aos miúdos de 10 anos nunca diria que a ética não se aplica, aliás, somos todos orientados pelos pais ou responsáveis por nós, desde as mais tenras idades. Aprendemos ou imitamos ou que é o bem ou mal, o correcto ou incorrecto, o certo ou o errado. Depois estruturamo-nos ou não, e criamos o nosso agir consoante essas orientações, que devo dizer, estão sempre em aberto e em constante devir, a vida é um livro, há é que saber fazer as melhores interpretações, tentar pensar correctamente. Ora se assim não fosse, poderíamos nós criticar quem não segue os valores que pretendem respeitar os direitos humanos? Com que direito poderíamos nós julgar o Islamismo e toda a sua controvérsia? Somos tolerantes com os terroristas apenas porque são diferentes pela sua religião ou não toleramos que não se respeite a dignidade humana? Afinal, a religião deles é tão legítima como a nossa. Ou não?
A culpa duma criança de 10 anos roubar é dos pais dela, apenas.
Desculpa lá o testamento amiga.
Um beijinho.*

Miguel Sousa disse...

confesso que já me questionei porque venho aqui, sempre que coloco um comentário sinto que a resposta vem como a arrogancia do mestre aquele que sabe tudo e isso chateia-me, porque apesar de tb saber umas coisas tenho a preocupação que isso não aconteça. De facto a minha area de formação não +é a filosofia e a Rosa já sabe que utilização quero dar ao que vou lendo acerca do assunto. Mas devo-lhe dizer que quanto mais sei da minha area mais tolerante soucom quem menos sabe. Gostava que me dissesse de que coment+ario tirou a brilhante conclusão de que só li esse texto sobre a ética...ó melhor não dê porque não vale a pena...não se preocupe continuo visitar o gado..sempre tem uma atitude menos carregada

R.Dart disse...

Miguel, nem lhe respondo. Não porque me chateie com os seus azeites, mas porque sei que não me vai interpretar bem.
Fico com a minha "arrogância" e você fica com o que achar que tem. Bem haja.

LN disse...

Ainda que com atraso, comento os comentários:

1) "Nada mais prático que uma boa teoria" é uma afirmação de Kurt Lewin, um homem da psicologia e da teoria do campo.

2) face à definição (da R. Dart) de que a "ética é portanto, o estudo da racionalidade do agir, do encadeamento lógico das nossas acções, a nível de fundamentação e normatividade" diria que discordo.
Amavelmente, claro.
Mas discordo sobretudo da normatividade colocada na frase. Entendo melhor a ética como reflexão filosófica (porque há reflexões com outras características) sobre o agir humano. A regra (normatividade) é mais da moral que da ética...

3) "Com que direito poderíamos nós julgar o Islamismo e toda a sua controvérsia? (...) Afinal, a religião deles é tão legítima como a nossa. Ou não?"
Julgar supõe que eu explicite qual é a luz a partir da qual enuncio juízo.
Se pensarmos nos direitos humanos, é uma coisa.
Se pensarmos nos limites das liberdas individuais e colectivas, provavelmente é outra.
Já agora, o que é a legitimidade pensada na aplicação a uma religião?

terei resposta aos comentários? sem zangas?
:)

R.Dart disse...

ln, nunca virá com atraso e terá sempre resposta, a ideia é trocarmos ideias :)
Aliás, devo dizer-lhe que esteve muito bem no seu comentário, principalmente para eu ter oportunidade de fazer duas pequenas distinções.
...
2.a) Há realmente na ética normatividade e não lei. Não usei a palavra em vão.
Norma é um critério ou um princípio que rege a conduta, ou ao qual nos referimos para fazer um juízo de valor, é normativo qualquer juízo ou discurso que enuncie tais princípios (ética e moral; pessoal ou social). Ainda hoje li uma entrevista da Dra Paula Martinho da Comissão Nacional de Ética (http://www.cnecv.gov.pt/CNECV/pt/default.htm) que dizia: "Quando não há limites, tudo é permitido" e como bem sabemos, nem tudo é permitido, e não falo de lei, mas dos nossos códigos éticos em comum na sociedade, da norma ou do que é normal portanto (tenhamos os exemplos dos códigos deontológicos em mente que apesar de estarem mais perto do direito subdividem-se pelas regras administrativas e normas morais)
Não deixo de lhe dar razão quando me diz que a ética é uma reflexão filosófica, é sim - antes de mais e acima de tudo - e as comissões mundiais e nacionais, são uma extensão dela, existem para dar pareceres (porque não são leis)após reflexões. Torna-se prática.
...
2.b) Sou de opinião que há uma diferença entre ética e moral, alguns autores defendem essa diferença, outros não, mas são constantemente tidas como sinónimos. Surge essencialmente com Heidegger e a sua mania (que gosto tb) de ir ao radical das palavras, ao seu étimo. Depois essa diferença é continuada por Michel e Isabel Renauld entre outros.
Ética vem do grego pré-clássico êthos que significa "lugar de onde brotam os actos" - entenda-se como causa e anterior ao agir, ou do éthos aristotélico que significa "hábito; modo de ser; carácter" aqui com Aristóteles, apesar da razão prática estar submitida ainda á teórica (acção ao pensamento), já se invoca a acção pelo hábito, e que repetida por nós várias vezes altera o nosso carácter.
Do ponto de vista epistemológico podemos fazer a distinção entre ética e moral (do latim mores e que adoptou o sentido do segundo éthos, acentuado diferentemente). Vejamos: ética - exigência de fundamentação do agir à determinação dos princípios que estão na base da acção humana, do lugar da origem dos actos, reportanto-se à "pêgê".principio dos actos.
Moral -Conjunto de regras que orientam a acção humana cuja prática continuada (hábito) deverá moldar o carácter dos homens, reportando-se esta, ao resultado dos actos, "héxis, habitats".
...
3."Julgar supõe que eu explicite qual é a luz a partir da qual enuncio juízo" Estamos de acordo, sem dúvida, é o que tento chamar a atenção sempre que se argumenta. Dá mais estabilidade ao assunto e não se diverge para outros campos. Vou é ter que discordar do exemplo, "Se pensarmos nos direitos humanos, é uma coisa.
Se pensarmos nos limites das liberdades individuais e colectivas, provavelmente é outra." Não me parece que sejam coisas diferentes.
...
"o que é a legitimidade pensada na aplicação a uma religião?" Bom, teríamos pano para mangas! Eventualmente não a há. Teremos que aqui apelar ao princípio da tolerância. www.filosofianauac.blogspot.com
...
Acho que este comentário foi dos maiores que já fiz! hehe.
Se errei não hesite em corrigir-me ln, nunca me zango, pelo contrário, dá-me enorme prazer este tipo de raciocínios.
Abraço*
Rosa

PJG disse...

De facto errei na citação.

Apostava que era um aforisma de Kant, mas não. Kant, Kurt enfim... nominativamente são muito semelhantes. Substancialmente não sei pois não conheço aquele último.

Obrigado pela correcção In.