segunda-feira, fevereiro 28, 2005

Porque achei importante...

... no caso de algum médico ou futuro médico passar por cá, e porque nunca é demais.
Já tinha pensado escrever sobre isto, mas o tempo nunca é muito, contudo, hoje ao folhear a Única do Expresso encontrei uma crónica de Rui Henriques Coimbra sobre o assunto, e quero acrescentar mais qualquer coisinha.
Diz-nos o mencionado senhor, que há uma panóplia de medicamentos que se obtém por receita médica e que são usados para outros fins - é o chamado «Pharming: actividade prosseguida por quem quer obter estados mentais artificiais através do consumo farmacológico. Colheita de prazeres químicos.» Por outras palavras: o netinho rouba os medicamentos do avôzinho esclerosado e apanha boleia para o mundo da felicidade em self-service.
A gravidade da coisa é que são drogas legais e receitadas com facilidade demais por parte da classe médica.
Alguns exemplos mencionados na dita crónica passam pelo Oxy-Contin que é um opiácio em forma de comprimido branco que funciona progressivamente quando é engolido inteiro e retira as dores. Se for cheirado depois de esmigalhado, a sequência científica é alterada, misturada e o Oxy-Contin passa a ser sentido como escape mental e cria logo dependência. Além deste, temos ainda o Vicodin, o Xanax, o Valium, o Lortab, o Percocet e o Adderall - também conhecido pela «cocaína dos putos» porque é usado normalmente para miúdos com défice de concentração (até no South Park já se falou dele).
O que quero acrescentar é o Subutex. Fiz algo parecido com prevenção primária, que é a fase em que se sensibiliza, através de diversas acções/formações/campanhas, o público que nunca consumiu drogas. Em sequência temos a secundária que é a fase em que se tratam os (ex)toxicodependentes, e por fim a terciária que tratará da sua (deles) reinserção social.
Então e com isto, durante o voluntariado, saliento não houve um dos ex-toxicodependentes entrevistados afim de darem a sua opinião e contributo para a prevenção primária, que não me falasse no Subutex e que não o tivesse consumido na fase de dependência.
È esta a realidade em S. Miguel, e garanto-vos que eles não foram aos medicamentos do avôzinho esclerosado, foram ao médico pedi-los, e com uma mentirinha simples lá foram para casa com uma caixa milagrosa que fazia o mesmo efeito que a heroína, e ainda por cima não dava ressaca. O Subutex é um dos possíveis medicamentos usado nos tratamentos mas é usado para consumo desenfreadamente. Deve haver uma forma de controlar isto, ou não?

domingo, fevereiro 27, 2005

Agostinho da Silva (1906-1996)

Agostinho da Silva é dos mais paradoxais pensadores portugueses do séulo XX. O tema mais candente da sua obra foi a cultura de língua portuguesa, num fraternal abraço ao Brasil e aos países lusófonos. Todavia, a questão das filosofias nacionais não é para si decisiva, parecendo-lhe antes uma questão académica: «Não sei se há filosofias nacionais, e não sei se os filósofos, exactamente porque reflectem sobre o geral, se não internacionalizam desde logo».
O problema de que parte é a procura de uma razão de ser para Portugal: «o que eu quero é que a filosofia que haja por estes lados arranque do povo português, faça que o povo português tenha confiança em si mesmo», entendendo por «povo português» não apenas os portugueses de Portugal, mas também os do Brasil, laçados de índios e negros, os portugueses de África, tribais e pretos, como também os da Índia, de Macau e de Timor.
Embarcando num sonho universalista em que os portugueses que vivem apenas para Portugal não têm razão de ser, apresentou-se aos olhos tantas vezes desconcertados dos seus leitores como um cavaleiro do Quinto Império, um reinado do Espírito Santo, respirando um misto de franciscanismo e de joaquimismo e, em todo o caso, obra mais de cigarras que de formigas como era próprio das crianças: «Restaurar a criança em nós, e em nós a coroarmos Imperador, eis aí o primeiro passo para a formação do império», o que é dizer que o primeiro passo dos impérios está sempre no espírito dos homens, aptos para servir, como os antigos templários ou os cavaleiros da Ordem de Cristo.
Partir de crenças como ponto vital e tomar como símbolo preferido que a palavra «crer» parece ter a mesma origem que a palavra «coração», fazendo depois como o Infante, abrindo-se à ciência dos seus pilotos, astrónomos e matemáticos. Tudo dito e defendido com a tranquilidade de quem sabe que até hoje ninguém desvendou os mistérios do mundo e conhece por isso os limites das soluções positivas.
Assim, seria possível valorizar aquilo que a seu ver nos distinguiria como povo e como cultura: um povo e uma cultura capazes de albergar em si «tranquilamente, variadas contradições impenetráveis, até hoje, ao racionalizar de qualquer pensamento filosófico».
Trazer por isso o mundo à Europa, como outrora levámos a Europa ao mundo, tal a missão da cultura de língua portuguesa, construindo o seu domínio com uma base espiritual e sem base em terra, porque a propriedade escraviza e só não ter nos torna livres.

José Marinho (1904-1975)

José Marinho situa-se entre os discípulos de Leonardo Coimbra, empenhado no movimento de reabilitação da «filosofia portuguesa» numa linha profundamente crítica do racionalismo moderno bem como da nossa tradição escolástica e posteriormente positivista. Neste plano de consideração, a sua preocupação marcante foi a de encontrar um espaço para a singularidade da nossa cultura filosófica sem negar a aspiração universal e universalizante da filosofia.
Para Marinho, a humanidade pensa-se necessariamente em cada um dos humanos e daí a noção de uma universalidade singular e concreta, à luz da qual se tornaria possível equacionar o problema de uma filosofia nacional. Não há pensar radicado senão no homem situado, ou seja, não há para Marinho um modelo de racionalidade que desde todo o sempre e para todo o sempre se fixasse no homem, determinando e impondo uma lógica perfeita e única, com regras de pensar que uma filosofia ou toda a filosofia nos obriguem a aceitar, para que possamos usufruir da dignidade humana. Não há por isso uma razão pura, na medida em que importa considerar aquele outro de toda a razão «que do mais fundo solicita o autêntico e real pensamento dos homens».
Por isso, fala-nos de uma «razão sublimada», chamando a atenção para as virtudes da anagogia – nomeadamente no ensino da filosofia concebido como «iniciação» - que, rompendo com o formalismo, atende essencialmente ao mito, à poesia e ao simbolismo, na comum busca da autenticidade humana, que radicando implícita na tradição portuguesa, nomeadamente na nossa poesia e literatura, se trataria de tornar explícita, fundando uma nova tradição e possibilidade de autocompreensão.
Do ponto de vista metafísico e ontológico, situa-se na continuidade da heterodoxia de Sampaio Bruno, superando o dogma cristão da criação pelo tema da misteriosa cisão, princípio lógico sem o qual se tornaria impossível inteligir a alteridade, e que desenvolve na sua mais importante obra, intitulada Teoria do Ser e da Verdade (1961). José Marinho funda ontologicamente todo o existente no que designa por «insubstancial substante», que pressupõe um fundo de enigma, supostamente continuando a nossa tradição cultural do «encoberto».
Para Marinho, o enigma «não é dado para o interrogar fora, (mas) adere radicalmente ao ser que interroga» num quadro de descoberta e encobrimento, possibilitando e desenvolvendo a partir daí o tema da «visão unívoca», ou «ver sem distância».

Leonardo Coimbra (1883-1936)

Os conteúdos doutrinários da sua obra remetem-nos para o conceito de criacionismo, que deu título à sua obra mais importante. O criacionismo afirma-se como uma filosofia da liberdade, radicando nas infinitas capacidades criadoras do pensamento, que dinamicamente se liberta dos determinismos naturais e sociais. Na sua base encontra-se a actividade científica que abordou em duas vertentes complementares.
Por um lado, a ciência representava o «espírito da cultura moderna», constituída na base do «livre acordo», tendo a razão por autoridade única, liberta do autoritarismo de princípios impostos exteriormente à actividade do pensamento. Representava um tipo de acordo que, por ser livre e responsável, considerava como a base de realização do acordo social que pela ascenção do indivíduo psico-social à pessoa, numa dialéctica criadora, geraria a comunidade solidária e livre por que sempre se bateu.
Por outro lado, o modelo de ciência a que se referia nada tinha a ver com o do positivismo. Tratava-se de uma ciência constituída na base da dialéctica nocional do pensamento, ou seja, não incide sobre coisas mas sobre noções ou representações mentais, considerando que a sensação é uma noção psicológica e não um dado e que, como noção que é, não é uma realidade completa mas um momento dialéctico de um processo, numa constante marcha para mais realidade e acréscimo de sentido. É na base deste criacionismo, que começa por afirmar-se inicialmente num plano gnosiológico, que se virá a afirmar a liberdade do homem, pois a realidade não poderá nunca ser deduzida de uma noção sintética superior se essa mesma noção não tiver sido por nós elaborada. Em última análise, a realidade não poderá nunca separar-se da dinâmica do pensamento, não é um conjunto de coisas de que o pensamento se aproprie, mas um conjunto de noções, sempre e já elaborado pela acção criadora do pensamento, num processo em si mesmo ilimitado. Se o espírito se move num conjunto de noções por si elaboradas, então ele é acto criador não se limitando a assimilar e a receber o já feito e o já pensado.
L. C. afirma assim uma dialéctica ascensional que partindo do processo de elaboração das noções científicas nelas se não detém, petrificando ou estagnando, procurando antes elevar-se à constituição da última realidade irredutível, por si definida como a «pessoa moral».
Enquadram-se neste processo dialéctico afirmações célebres de L.C., nomeadamente quando proclama que o homem é livre porque «a vida social lhe permitiu interpor entre a sensação e o acto a demora e a riqueza do pensamento», ou que, «o homem não é uma inutilidade num mundo feito, mas obreiro de um mundo a fazer».
No plano da educação, à qual dedicou a sua actividade política de ministro, compreende-se que mais importante que a «liberdade de ensino», condição sem dúvida necessária, seja a defesa da «liberdade pelo ensino», o que o fez também proclamar que mais importante que a vulgarização do saber era a elevação do vulgo à altura do homem.

Teixeira de Pascoaes (1877-1952)

Teixeira de Pascoaes produziu a partir da experiência existencial da saudade - presente de forma vaga e imprecisa nos seus primeiros textos em verso - uma reflexão, a que subjaz o princípio fundamental de que o ser manifesta uma condição saudosa. Do Ser ao ser, processa-se uma verdadeira queda ontológica, uma cisão existencial, manifestando o mundo, na sua condição decaída, um "pathos universal". Da condição saudosa de ser resulta pois uma condição dolorosa do mesmo ser. Dor de privação, dor de saudade, consciência da finitude, de imperfeição, de insuficiência ôntica.
A experiência da dor pelo homem saudoso, é simultaneamente individual e universal. Por ela o homem–poeta entende o mundo como "uma eterna recordação", percebendo a realidade como evocadora de uma outra realidade mais real que aquela.
A condição dramática da existência manifesta-se assim numa permanente tensão entre Ser e existir. O homem existe num primeiro nível de dignidade ontológica, partilhando pelo corpo o mundo da matéria, e vive pelo espírito. A vida é pois uma eterna aspiração à ultrapassagem da realidade material. A alienação é a situação que resulta da impossibilidade de o homem ser, verdadeiramente. Dividido entre assumir-se como puro espírito ou pura matéria, o homem não é nem pode ser verdadeiramente, oscilando eternamente entre uma e outra condição.
A saudade é uma via para o conhecimento: por ela abre-se uma via para uma mundividencia, uma concepção geral da existência. O "pensamento poético" de Teixeira de Pascoaes é a expressão da possibilidade de conhecimento que se abre pela via da saudade. O conhecimento poético é simultaneamente estético, metafísico e ontológico: estético porque o que lhe é próprio se conhece pelo sentimento, metafísico e ontológico porque o seu horizonte é o da verdade que manifesta um caracter transcendente.

Antero de Quental (1842-1891)

Do ponto de vista filosófico é o maior vulto da Geração de 70, com uma obra que se estende da poesia à prosa, passando por um rico epistolário de grande importância para a delimitação das várias fases do seu pensamento. Nos primeiros anos da sua actividade, Antero foi um pensador instável, conhecendo sucessivas fases de evolução do seu ideário, ora de entusiástico idealismo, ora de negação e descrença, vindo a culminar no final da vida, numa fase de maturidade e serenidade crítica a que correspondem os seus mais profundos textos em prosa, com destaque para A filosofia da natureza dos naturalistas (1886) e sobretudo para as Tendências gerais da filosofia na segunda metade do século XIX. (1890).
Foi também a sua visão moral do mundo que determinou a sua filosofia política, marcada pelo socialismo de Proudhon, mas também por esse dinamismo intrínseco que soube estender ao processo de emancipação dos trabalhadores. A emancipação dos trabalhadores deveria ser obra dos próprios trabalhadores, ou seja, da sua energia moral e da sua dignidade, do seu esforço individual e colectivo. Em todo o caso, o essencial a notar é que a superioridade do socialismo sobre as outras formas de organização das sociedades emanava da sua superioridade moral e não do estado: «Cousa alguma grande e duradoura se fundou ainda no mundo senão pela moral: e, se o socialismo tem de ser uma esplêndida realidade, só o será como um passo mais no caminho da evolução moral das sociedades (...), moralidade, moralidade e sempre moralidade».
Noutra vertente, Antero marcou de forma muito sensível a consciência decadentista que desde a Geração de 70 determinou a existência de uma clivagem no diálogo cultural entre os Portugueses, sobretudo através da sua conferência do Casino Lisbonense, intitulada Causas da Decadência dos Povos Peninsulares (1871), onde mitificou o ideal de uma Europa, pátria da civilização e do progresso, da qual tragicamente nos sentia arredados, tese de que mais tarde se viria a afastar.
Em todo o caso, nessa célebre conferência, identificava os erros de via da história pátria, incapaz de pelo culto das ciências, da liberdade moral e da elevação da classe média matar o beato, o fanático e o jesuíta que teimosamente cada português ocultava.

sexta-feira, fevereiro 25, 2005

Antero de Quental

Eu não conheço fisionomia mais difícil de desenhar, porque nunca vi natureza mais complexamente bem dotada. Se fosse possível desdobrar um homem, como quem desdobra os fios de um cabo, Antero de Quental dava alma para uma família inteira. É sabidamente um poeta na mais elevada expressão da palavra; mas ao mesmo tempo é a inteligência mais crítica, o instinto mais prático, a sagacidade mais lúcida, que eu conheço. É um poeta que sente, mas é um raciocínio que pensa. Pensa o que sente; sente o que pensa.

Oliveira Martins, prefácio d'As Tendências Gerais da Filosofia na Segunda Metade do Séc. XIX de Antero de Quental.

Eu acrescentaria ainda, que mais do que um poeta foi um filósofo inquietante. A sua hermenêutica vivencial está muito bem clarificada por Oliveira Martins, pensa o que sente e sente o que pensa. Nunca se atraiçoa e isso é sem dúvida o mais difícil.

domingo, fevereiro 13, 2005

A Cegueira dos Nossos Pareceres

Contra o nosso parecer, nunca achamos dúvida bastante, contra o dos outros sim. A vaidade é engenhosa em glorificar tudo o que vem de nós, e em reprovar tudo o que vem dos outros: nas produções do engenho há uma espécie de criação; daqui procede que ninguém se desdiz sem repugnância, porque a natureza é inflexível no intento de conservar aquilo que produz, e a vaidade nunca renuncia ao lustre da invenção; queremos produzir muito, e meditar pouco, por isso erramos; mas depois o erro se naturaliza em nós, já o não vemos, senão com a figura da razão.

Matias Aires, Filósofo (1705-1764)
in 'Reflexões Sobre a Vaidade dos Homens e Carta Sobre a Fortuna'

Renunciar à Sede de Poder

Quem não conheceu a tentação de ser o primeiro na cidade nada compreenderá do jogo político, da vontade de submeter os outros para deles fazer objectos, nem adivinhará os elementos de que é composta a arte do desprezo. A sede de poder, raros são os que não a tenham num grau ou noutro experimentado: é-nos natural, e contudo, se a considerarmos melhor, assume todos os carácteres de um estado mórbido do qual apenas nos curamos por acidente ou então por meio de um amadurecimento interior, aparentado com o que se operou em Carlos V quando, ao abdicar em Bruxelas, no topo da sua glória, ensinou ao mundo que o excesso de cansaço podia suscitar cenas tão admiráveis como o excesso de coragem. Mas, anomalia ou maravilha, a renúncia, desafio às nossas contantes, à nossa identidade, sobrevém somente em momentos excepcionais, caso limite que satisfaz o filósofo e perturba profundamente o historiador.

Emil Cioran, in 'História e Utopia'

sábado, fevereiro 12, 2005

A ginástica da dignidade por Carlos de Oliveira

- Dizem em voz alta, não muito alta: que porcaria, que nojo de sociedade, e em voz baixa, baixíssima: ora, o que é preciso é “triunfar”. Esta consciência elástica lembra o chewing-gum e pega-se fatalmente à esquerda e à direita. Por mais dez réis de propaganda ou al contado (também faz jeito). Por ninharias. E no entanto a dignidade cultiva-se como a beterraba ou as abóboras. Semeando-a, adubando-a, colhendo-a na altura própria. Muito rústico? Está bem, arranja-se outra coisa. Citadina. A dignidade, desenvolve-a uma ginástica vigilante e diária, que requer apenas paciência, atenção, vontade. Com uns anos de exercício torna-se instintiva, uma espécie de segunda natureza. Pouco maleável (rentável) na prática social mas esse defeito compensa-o largamente a tranquilidade interior (moral) que permite o crescimento livre de certa intranquilidade (imaginativa, criadora), ponto de partida para toda a obra literária alguns furos acima das “necessidades do mercado”. O que sucede nos casos vulgares é a falta da primeira liquidar a outra ou impedi-la dum completo desenvolvimento. E não me venham com o exemplo de alguns génios i(ou a)morais, porque posso arranjar logo uma dúzia de outros génios para contrapor a esses e, sobretudo, porque disse: nos casos vulgares.

Carlos de Oliveira in Abrupto por JPP

quarta-feira, fevereiro 09, 2005

O Terceiro Pai

No Público, de Eduardo Prado Coelho. A ler aqui e mais qualquer coisinha aqui.

domingo, fevereiro 06, 2005

A Virtude Pura não Existe nos Dias de Hoje

Numa época tão doente como esta, quem se ufana de aplicar ao serviço da sociedade uma virtude genuína e pura, ou não sabe o que ela é, já que as opiniões se corrompem com os costumes (de facto, ouvi-os retratarem-na, ouvi a maior parte glorificar-se do seu comportamento e formular as suas regras: em vez de retratarem a virtude, retratam a pura injustiça e o vício, e apresentam-na assim falsificada para educação dos príncipes), ou, se o sabe, ufana-se erradamente e, diga o que disser, faz mil coisas que a sua consciência reprova.
(...) Em tal aperto, a mais honrosa marca de bondade consiste em reconhecer o erro próprio e o alheio, empregar todas as forças a resistir e a obstar à inclinação para o mal, seguir contra a corrente dessa tendência, esperar e desejar que as coisas melhorem.

Montaigne, in 'Ensaios - Da Vaidade'

Fé No Sentimento

A razão age com lentidão, e com tantas vistas, sobre tantos princípios, os quais é mister estejam sempre presentes, que a todo o instante adormece ou perde-se, deixa de ter todos os seus princípios presentes. O sentimento não age dessa maneira; age instantaneamente, e está sempre pronto para agir. É preciso, pois, depositar a nossa fé no sentimento; de outro modo, ela será sempre vacilante.
(...) O último passo da razão é o de reconhecer que existe uma infinidade de coisas que a ultrapassam; se não chegar a isso, é porque é fraca.

Blaise Pascal, in 'Pensamentos'

O Homem É Feito Para Pensar

O homem é visivelmente feito para pensar.
Aí reside toda a sua dignidade e todo o seu mérito, e todo o seu dever é pensar com acerto. Porque a ordem do seu pensamento é começar por si, pelo seu autor e pelo seu fim. Ora em que pensa o mundo? Nunca nessas coisas; mas em dançar, em tocar alaúde, em cantar, em fazer versos, em jogar ao anel, etc., em combater, em chegar a rei, sem pensar no que é ser rei e no que é ser homem.

Blaise Pascal, in 'Pensamentos'

As Pessoas Sensatas

Platão comparava a vida a um jogo de dados, no qual devêssemos fazer um lance vantajoso e, depois, bom uso dos pontos obtidos, quaisquer que fossem. O primeiro item, o lance vantajoso, não depende do nosso arbítrio; mas receber de maneira apropriada o que a sorte nos conceder, assinalando a cada coisa um lugar, tal que o que mais apreciamos nos cause o maior bem e o que mais aborrecemos o menor mal - isso incumbe-nos, se formos sensatos. Os homens que defrontam a vida sem habilidade ou inteligência são como enfermos que não podem tolerar nem o calor nem o frio; a prosperidade exalta-os e a adversidade desalenta-os. São perturbados por uma e por outra, ou melhor, por si próprios, numa ou noutra, não menos na prosperidade que na adversidade.
Teodoro, chamado o Ateu, costumava dizer que oferecia os seus discursos com a mão direita, mas os seus ouvintes recebiam-nos com a esquerda; os ignaros frequentemente dão mostras da sua inépcia oferecendo à Fortuna uma recepção canhestra quando ela se apresenta de modo destro. Mas as pessoas sensatas agem como as abelhas, que extraem mel do tomilho, planta muito seca e azeda; similarmente, as pessoas sensatas muitas vezes obtêm para si algo de útil e aprazível das mais adversas situações.

Plutarco, in 'Do Contentamento'

segunda-feira, janeiro 31, 2005

Hannah Arendt (1906-1970)

Arendt nasceu em Hannover (Alemanha) numa família judaica. Estudou na Universidade de Koniberg, Malburg, Freiburg e Heidelberg. Foi influenciada por Husserl, Heidegger, e Karl Yaspers.
Em consequência das perseguições nazis, em 1941, parte para os EUA, onde virá escrever grande parte das suas obras. Lecciona nas principais universidades deste país (Columbia,Califórnia, Cornell, Princeton, Wesleyan, etc).
A sua filosofia assenta numa crítica à sociedade de massas e à sua tendência para atomizar os indivíduos. Proconiza um regresso à uma concepção política separada da esfera económica, tendo como modelo de inspiração a antiga cidade grega.
Algumas obras:
A Condição Humana; O Sistema Totalitário; O Homem em Tempos Sombrios; O Que é a Política?; A Crise da República; Sobre a Revolução; O Sistema Totalitário.

Henri Bergson (1859-1941)

Bergson nasceu numa família judaica, em Auteuil (Paris), em 1859, foi professor nos liceus de Angers e de Clermond - Ferrand, Henrique IV de Paris, e depois na Escola Nacional Normal Superior e no Collège de France, onde ministrou a cátedra de Filosofia Ocidental.
Em 1927 recebeu o Prémio Nobel de Literatura.
A filosofia de Bergson assenta no conceito da evolução como uma dimensão espiritual da vida humana, associada à questão da liberdade da consciência e do tempo, que considerou como uma sucessão de instantes conscientes. Na sua obra a Evolução Criadora (1907), desenvolve o problema da existência humana e define a mente como energia pura, o élan vital ou impulso vital, responsável de toda a evolução orgânica. Nas últimas décadas procurou relacionar a sua filosofia com o pensamento cristão. A sua filosofia inscreve-se na corrente intuicionista que surge em finais do século XIX como reacção ao positivismo.

Obras:
Ensaios Sobre os Dados Imediatos da Consciência: Matéria e Memória (1896); Tempo e Livre Arbítrio (tese de doutoramento,1889), O Riso (1900), A Evolução Criadora (1907); As Duas Fontes da Moral e da Religião (1932) .

quinta-feira, janeiro 27, 2005

Aletheia #1

«(...) Quando os leaders de Esparta foram visitar o Oráculo de Delfos, uma das perguntas que lhe fizeram foi quando acabaria o mundo. E a resposta do Oráculo foi: "Quando o ignorante fala sobre conhecimento, a prostituta fala sobre honra, e o tirano fala sobre justiça". »

Orientar Filosoficamente a Vida

A ânsia de uma orientação filosófica da vida nasce da obscuridade em que cada um se encontra, do desamparo que sente quando, em carência de amor, fica o vazio, do esquecimento de si quando, devorado pelo afadigamento, súbito acorda assustado e pergunta: que sou eu, que estou descurando, que deverei fazer?
O auto-esquecimento é fomentado pelo mundo da técnica. Pautado pelo cronómetro, dividido em trabalhos absorventes ou esgotantes que cada vez menos satisfazem o homem enquanto homem, leva-o ao extremo de se sentir peça imóvel e insubstituivel de um maquinismo de tal modo que, liberto da engrenagem, nada é e não sabe o que há-de fazer de si. E, mal começa a tomar consciência, logo esse colosso o arrasta novamente para a voragem do trabalho inane e da inane distracção das horas de ócio.
Porém, o pendor para o auto-esquecimento é inerente à condição humana. O homem precisa de se arrancar a si próprio para não se perder no mundo e em hábitos, em irreflectidas trivialidades e rotinas fixas.
Filosofar é decidirmo-nos a despertar em nós a origem, é reencontrarmo-nos e agir, ajudando-nos a nós próprios com todas as forças.
Na verdade a existência é o que palpavelmente está em primeiro lugar: as tarefas materiais que nos submetem às exigências do dia-a-dia. Não se satisfazer com elas, porém, e entender essa diluição nos fins como via para o auto-esquecimento, e, portanto, como negligência e culpa, eis o anelo de uma vida filosóficamente orientada. E, além disso, tomar a sério a experiência do convívio com os homens: a alegria e a ofensa, o êxito e o revés, a obscuridade e a confusão. Orientar filosoficamente a vida não é esquecer, é assimilar, não é desviar-se, é recriar intimamente, não é julgar tudo resolvido, é clarificar.
São dois os seus caminhos: a meditação solitária por todos os meios de consciencialização e a comunicação com o semelhante por todos os meios da recíproca compreensão, no convívio da acção, do colóquio ou do silêncio.
Karl Jaspers, in 'Iniciação Filosófica'

Para Que Serve a Filosofia?

O leitor ocupado perguntará para que serve a filosofia. Pergunta vergonhosa, que não fazemos à poética, essa outra construção imaginativa de um mundo mal conhecido. Se a poesia nos revela a beleza que os nossos olhos ineducados não vêem, e se a filosofia nos dá os meios de compreender e perdoar, não lhes peçamos mais - isso vale todas as riquezas da Terra. A filosofia não enche a nossa carteira, não nos ergue às dignidades do Estado; é até bastante descuidosa destas coisas. Mas de que vale engordar a carteira, subir a altos postos e permanecer na ignorância ingénua, desapetrechado de espírito, brutal na conduta, instável no carácter, caótico nos desejos e cegamente infeliz? A maturidade é tudo. Talvez que a filosofia nos dê, se lhe formos fiéis, uma sadia unidade de alma. Somos negligentes e contraditórios no nosso pensar; talvez ela possa classificar-nos, dar-nos coerência, libertar-nos da fé e dos desejos contraditórios. Da unidade de espírito pode vir essa unidade de carácter e propósitos que faz a personalidade e dá ordem e dignidade à vida. Filosofia é conhecimento harmónico, criador da vida harmónica; é disciplina que nos leva à serenidade e à liberdade. Saber é poder, mas só a sabedoria é liberdade.

Will Durant, in 'Filosofia da Vida'

Só Chegamos a Ser uma Parte Mínima do que Poderíamos Ser

A actividade de comprar conclui em decidir-se por um objecto; mas é também antes uma eleição, e a eleição começa por perceber as possibilidades que oferece o mercado. De onde resulta que a vida, no seu modo «comprar», consiste primeiramente em viver as possibilidades de compra como tais. Quando se fala da nossa vida só se esquece disto, que me parece essencialíssimo: a nossa vida é em todo o instante e antes que nada consciência do que nos é possível. Se em cada momento não tivéssemos à nossa frente mais que uma só possibilidade, careceria de sentido chamá-la assim. Seria apenas pura necessidade. Mas ai está: esse estranhíssimo facto da nossa vida possui a condição radical de que sempre encontra ante si várias saídas, que por serem várias adquirem o carácter de possibilidades entre as quais havemos de decidir. Tanto vale dizer que vivemos como dizer que nos encontramos num ambiente de determinadas possibilidades. A este âmbito costuma chamar-se «as circunstâncias».
Toda a vida é achar-se dentro da «circunstância» ou mundo. Porque este é o sentido originário da idéia (mundo). Mundo é o repertório das nossas possibilidades vitais. Não é, pois, algo à parte e alheio à nossa vida, mas que é a sua autêntica periferia. Representa o que podemos ser; portanto, a nossa potencialidade vital. Esta tem de se concretizar para se realizar, ou, dito de outra maneira, chegamos a ser só uma parte mínima do que poderíamos ser. Daí que nos parece o mundo uma coisa tão enorme, e nós, dentro dele, uma coisa tão pequena. O mundo ou a nossa vida possível é sempre mais que o nosso destino ou vida efectiva. Eu sou eu e a minha circunstância.

Ortega y Gasset, in 'A Rebelião das Massas'

quarta-feira, janeiro 26, 2005

Opinar sem Conhecer

"Porque é que os corpos dentro dos seus caixões são tão pesados ? Ele dizem que é devido a algum tipo de inércia, que o corpo já não é mais dirigido pelo seu dono... ou alguma tolice desse tipo, em oposição às leis da mecânica e do senso comum. Eu não gosto de ouvir pessoas que não têm mais que uma educação geral aventurarem-se a resolver problemas que requerem um conhecimento especial; e connosco isso acontece continuamente. Os cidadãos gostam muito de dar opiniões sobre assuntos que são do foro do soldado ou até mesmo do marechal de campo; enquanto homens que foram educados como engenheiros preferem discutir filosofia e economia política."

Fiodor Dostoievski, in 'Bobok'

sábado, janeiro 22, 2005

Acerca da Tolerância

Filosofia na UAC.

Para quem quiser saber mais um pouco sobre a aplicação da Tolerância a casos contemporâneos, tais como o Aborto, Prostituição e Despenalização das Drogas Leves. Temas que merecem a nossa reflexão e exigem muita informação para que se saiba o que se está a dizer.

sexta-feira, janeiro 21, 2005

Imbecilidade

Apetece-me essencialmente criticar. Não que tenha a pretensão de que saiba fazê-lo melhor e de que ao criticar não caia no que critico, mas tenho já pelo menos consciência disso, o que já não é mau. Não é mau e é o grande primeiro passo para não se cair na imbecilidade rotineira.
O nível de exigência que as pessoas têm consigo mesmas é lamentavelmente vergonhoso, estão todos mais preocupados em mostrar e provar a outros o que parece que sabem (e diga-se que não é nada difícil) do que propriamente preocupados em Saber e prová-lo a si mesmos.
Depois caímos nisto da cultura da doxa. Ninguém sabe muito, mas tem sempre opinião. É fantástico. É um desfile de vaidades quando o rei vai nu.

quarta-feira, janeiro 12, 2005

Louquícias

Não posso de deixar de comentar este novo programa da RTP Açores.
Sou a primeira a dizer que deve haver iniciativas. Não sou daquelas pessoas que dizem que não há nada e que quando as há, só sabe é criticar, mas este é um caso diferente. De facto o programa é um horror, é medonho demais para que hajam palavras que o definam.
Há tempos, um amigo meu que participa no programa, contou-me que o programa iria para o ar - fiquei maravilhada, achei imensa piada à coisa, na verdade, muita falta nos fazia quem tivesse um humor sarcástico, caricaturial e neutro que soubesse colocar os políticos no seu lugar, baixar-lhes a crista para que entendessem os ridículos a que se prestam por vezes. Pensei mesmo que fosse resultar.
Quando vejo o horror que saiu do projecto até fiquei nervosa. Nem os "macacos" são apelativos! Dos diálogos nem falo. Além de fracos de espírito e banais mesmo, não se entendem. Será que esta gente não entende que as "private jokes" dum grupo de jornalistas não se estendem ao grande público? Será que não entendem que nem todos acham piada aos disparates deles? E anda assim a nossa sociedade.
Tenho sinceramente vergonha que alguém de fora veja este programa, bela imagem que vão levar da nossa televisão. E depois queixam-se das audiências. Pudera...
O nosso maior problema, cá nos Açores, é a falta de mérito e de préstimo para se fazer algo bem feito.
Como dizia alguém ontem (sobre a nossa política) no Choque de Gerações "as expectativas são tão baixas que quando se faz alguma coisa, faz-se para contentar o povo" - subscrevo na íntegra e estendo à TV.
Pois meus amigos, uma novidade: Não basta sermos os melhores, temos que ser bons! (E melhores neste caso, não se aplica).
Bolas, mais valia que tivessem estado quietinhos!
Pelo contrário, este novo programa, o Choque de Gerações, está a ser uma boa tentativa de mostrar aos Açorianos, que existe quem se preocupe com as coisas. Nos primeiros programas estava um pouco céptica, confesso. Pareceu-me haver umas lacunas que se não fossem corrigidas, caíriamos em só mais um programa novo, com alguma novidade mas contudo sem grande qualidade.
Dou os meus parabéns ao Joel, o moderador, que se corrigiu na perfeição. Está mais sereno, modera melhor, tem excelentes convidados e assuntos pertinentes. Agora já tenho pena que seja um programa curto, mais uma meia hora e os assuntos seriam discutidos de uma forma mais profunda.
Fazia-nos falta um programa do género, aliás, diria até que um projecto a roçar os Prós e Contras seria viável cá para a nossa realidade. Sobre generalidades somos dos melhores... é que nós, os Açorianos, temos a mania que sabemos um bocadinho de tudo, mas por vezes para se chegar a consenso sobre assuntos sérios, bloqueamos. E quando nos aparece alguém que realmente sabe fundamentar, não reconhecemos legitimidade.
Se queremos chegar a uma maturidade de raciocínio, temos que ser mais humildes na aprendizagem, aprender com quem sabe e não ficar pelo superficial que acaba sempre por ser detectado entremeio de conversas.

segunda-feira, janeiro 10, 2005

Política

Ando tão chateada com esta nossa política em Portugal. Ou seja lá o que isso for. Política já não é certamente, deveríamos trabalhar o sentido á coisa, redefinir o termo/conceito para o que é, porque continuar a chamar-se política ao que se faz é uma ofensa a quem o fez realmente. Isto aplica-se a qualquer partido, nem há necessidade de definir algum.
Suponho que o problema esteja na qualidade da formação dos políticos, sei qual é o processo natural a percorrer, e chega sempre o momento do aliciamento em que se fazem escolhas, em que se escolhe alguém adequado ao perfil para se poder manipular dentro dos partidos. É aí que as pessoas acham que vão dar o salto para a glória e abdicam dos ideais que tem.
Frente a um futuro promissor, raros são aqueles que hesitam e continuam a dormir bem. Os que continuam em frente a pensar que não se estão a trair, a maior parte das vezes sofreram a lavagem do pragmatismo da utilidade, da cegueira de Saramago.
Também é verdade que ainda os há sãos e de boa vontade, pena que esses não tem a retórica sofista aliada ao verdadeiro saber, e perdem estrelato sendo enviados para um trabalho de background pouco ou nada reconhecido. Não interessa, ao menos fazem bem o que se propuseram fazer.
Seja como for, dever-se-ia ensinar política nos secundários, é uma disciplina com tanta, ou mais importância que outras, bem como a filosofia, que ensina a ser-se crítico e no entanto nada! Não se entendem as prioridades no nosso país.
Esta não é só mais uma humilde opinião sobre educação, é mais do que isso, é o "por favor abram os olhos!" e entendam que sem educação não vale a pena discutirmos outros assuntos. Sejam quais forem. Não interessa nada falar-se sobre o que quer que seja, porque não haverão soluções possíveis quando não se podem pô-las em prática! Não já vimos todos que as práticas falham? Está em boa hora de se parar de varrer para baixo do tapete... é que quando alguém ainda não sabe, pode fazer sentido, mas já quando todos deram por isso...! Estamos já apenas a enganar-nos a nós próprios. Que absurdo. E ninguém faz nada, talvez porque não haja nem competência para entender isso.


sábado, janeiro 08, 2005

Esperança

Tenho vagueado pelo universo da blogosfera, depreocupadamente e sem rumos estabelecidos. Encontrei blogs ricos em conteúdo e a maior parte, anónimos. Recuso-me a adicionar, só por adicionar, ou para parecer que os leio, blogs de gente conhecida. É incrível, como também aqui, já se veem manobras de marketing. Os mais lidos, tem todos os mesmos blogs adicionados... Porquê e para quê? Para aumentarem o seu número de visitas? Como se isso interessasse. São os mais secretos os mais puros, sabe-se lá porquê. Talvez porque não haja exposição, talvez porque passar um pouco de si seja a prioridade, talvez porque esta também seja uma forma de escape, talvez porque seja recompensa por si só, talvez porque se goste de ler um comentário anónimo ou quase anónimo de alguém que nos julgue apenas pelas nossas palavras.
Caindo na rotina de se ler o Sr. X ou o Sr. Y porque são conceituados (não o querendo dizer que não o façamos de x em quando), acabamos por fazer "disto" dos blogs, jornais diários com notícias e opiniões corriqueiras que podemos encontrar em todo o lado.
As minhas preferências vão para a procura/encontro da verdadeira diferença, a pura, a descomprometida, a que provém do mais intimo do ser. E há. É isto que no fundo quis dizer desde o início, há essa diferença por aqui, há um pluralismo interessante que nos acrescenta algo se o soubermos retirar. A mim dá-me esperança. Dá-me aquela esperança de entender que afinal existe gente que gosta de pensar a fundo nas coisas, que se preocupa, que quer saber e ser mais.
Isto ainda numa fase embrionária, claro, que surge como que um grito de socorro entremeio duma sociedade torpe, sem eira nem beira, sem valores em comum. Sabe-me bem ler quem tenta ultrapassar o individualismo irresponsável dominante, porque são esses que já se começam a sentir incomodados e tem necessidade de dar mais, de se tornarem responsáveis para se sentirem finalmente livres, autónomos.
Além da literatura, é por aqui também, que temos possibilidade de trocar conhecimentos, ideias, ideiais, inquietações, de "conhecer" o verdadeiro "outro" tal como ele é. Façamo-lo com a mais pura das intenções e de boa fé.

terça-feira, janeiro 04, 2005

O POVO É BOM TIPO

O POVO É BOM TIPO

Texto retirado do Blog acima mencionado. Se puder, ajude por favor. Obrigado por ter lido.

"Umas palavras rápidas para exortar toda a população a passar dos choros de café para ajudar quem faz algo para atenuar toda a dor provocada pela maior catástrofe humana de sempre. Todos nós passamos por dificuldades económicas, mas ninguém deixa de tomar café e ninguém, graças a deus, sabe o que é PASSAR FOME. Portanto, contem connosco para vos chatear. Chateiem os vossos amigos e pensem o que seria de nós se estes TSUNAMIS tivessem feito uma visitinha ao nosso nobre e desprotegido cantinho? Seria assim tão improvável de acontecer?


Deixemo-nos de chorinhos inúteis e FAÇAMOS ALGO!!!


Aqui vão os NIB de organizações que fazem algo no nosso e vosso lugar, por quem tanto sofre.


AMI Missão Ásia
NIB: 0035 0001 0003 0003 8306 2


UNICEF SOS Crianças da Ásia
NIB: 0035 0127 0002 8241 2305 4


CARITAS Ajuda Vítimas da Ásia
NIB: 0035 0697 0063 0917 9308 2

posted by O POVO É BOM TIPO @ 11:14 PM"

sábado, dezembro 04, 2004

Conceito # 8 - Mérito

Mérito

Mérito, é um valor moral, considerado em função dos esforços desenvolvidos pelo próprio sujeito para superar as dificuldades ou vencer os obstáculos. Estes esforços tornam a pessoa estimável perante os outros e transmitem ao próprio auto-estima, diferente da honra, e contrariamente ao que o senso comum diz, esta não é mais que um atributo que depende da avaliação dos outros, especificando, somos honrados se nos acharem como tal, não querendo dizer que o sejamos na realidade. Concluindo, uma pessoa poderá ser considerada honrada sem ter mérito.

Conceito # 7 - Altruísmo

Altruísmo

Termo criado por A. Comte, para designar o sentimento desinteressado e o amor aos outros (atitude oposta ao egoísmo). Disposição voluntária, portanto, de se dedicar aos outros.

Conceito # 6 - Solidariedade

Solidariedade

Solidariedade designa uma assistência mútua em circunstâncias difíceis. Há irredutivelmente, dependência recíproca entre elementos de uma sociedade, o que acaba por designar o carácter de uma obrigação se tivermos em conta o dever moral ou mesmo apenas a consciência moral social, e enquanto seja comum a diversas pessoas, respondem cada qual por tudo.

Conceito # 5 - Liberdade

Liberdade

Liberdade, do latim libertas, é marca específica do homem, quer isto dizer que só o homem, enquanto ser espiritual, de razão e de vontade é capaz de liberdade, só ele é capaz de ser princípio da sua acção e de propor fins para o seu agir, pois os demais seres não agem, reagem.
A liberdade surge em sequência da autonomia da vontade humana e do carácter personalista vincado na afirmação de que só a pessoa constitui um fim em si mesmo e só ela possui um valor incondicionado.
É através da consciência moral que o homem reconhece o sentido do bem, através da liberdade que reconhece o poder que tem de o realizar e através da responsabilidade que reconhece o dever que tem de o promover.

Conceito # 4 - Autonomia

Autonomia

Autonomia, de auto – ‘próprio’ e nomos – ‘leis’, sendo assim a lei do próprio. A autonomia exige para além do acordo interno consigo mesmo no agir, o poder de se orientar e eleger os fins da acção por si próprio, apoiando-se no exercício crítico da razão.

Conceito # 3 - Democracia

Democracia

Sobre a Democracia, no seu sentido etimológico vem do grego démos, ‘povo’ e cratein, ‘governar’. É portanto uma soberania, segundo tipo de organização política na qual é o povo, isto é, o conjunto dos cidadãos sem distinção de classe, riqueza ou competência, que detém ou que controla o poder político.
A democracia é, em primeiro lugar, uma forma de governo. Pode distinguir-se a democracia directa (como em Atenas no séc. V a.C.) e a democracia representativa, onde o povo governa pela interposição de representantes, eleitos ou designados (caso das democracias parlamentares modernas).
A palavra democracia pode referir-se também a uma teoria segundo a qual, a autoridade política se fundamenta no poder que cada homem tem de se governar a si mesmo (não confundir com autonomia).
Assim para Rousseau, a sociedade política nasce de um contrato social em nome do qual o único soberano possível é o povo, isto é, o conjunto de cidadãos que votam as leis (expressão da vontade maioritária) e aceitando submeter-se a elas.
A democracia pressupõe a lei da maioria, a liberdade dos indivíduos (respeitando os direitos do homem) e a igualdade dos cidadãos, que o liberalismo limita à igualdade de direitos e que o pensamento socialista quer estender à igualdade de condições sociais. Pode assim distinguir-se uma democracia política, que respeita as liberdades cívicas e políticas (liberdade de expressão, de imprensa…), e uma liberdade económica e social que garante os direitos sociais (direito ao trabalho, à habitação, etc.)

Conceito # 2 - Personalismo

Personalismo

Personalismo, é um neologismo formado pelo filósofo Charles Renouvier e que é um conjunto de doutrinas morais e políticas que fazem da pessoa o mais alto de todos os valores. São os seus principais representantes: Max Scheler, Martin Buber, Emmanuel Mounier e Paul Ricoeur.
O personalismo, cujo representante francês mais importante foi Emmanuel Mounier (1905-1950), assenta sobre um certo número de postulados:
1.A pessoa é a origem de todos os valores
2.A comunidade (ou pessoa comum) é tão originária como a pessoa: a reciprocidade das consciências é primeira em relação ao sentimento da individualidade
3.O respeito e a valorização da pessoa constituem o melhor escudo contra qualquer «irracionalismo» mortífero e contra qualquer tentação totalitária.
O personalismo não é um sistema; é mais uma corrente de pensamento reunindo personalidades com diversas sensibilidades.

Conceito # 1 - Pessoa

Pessoa

A pessoa é uma noção simultaneamente jurídica e moral. Designa o homem enquanto sujeito consciente e racional, capaz de distinguir o bem do mal, o correcto do errado, o verdadeiro do falso, e podendo responder pelos seus actos ou pelas suas opções. A ideia de pessoa é-nos hoje familiar. O respeito e a dignidade da pessoa humana são universalmente admitidos e constantemente reafirmados, ao nível dos princípios. Portanto, a ideia de pessoa é complexa, tal como testemunham os debates éticos contemporâneos. Este conceito elaborou-se, progressivamente, a partir de diversas fontes históricas; simultaneamente religiosas, jurídicas e filosóficas.

As fontes históricas:
Na sua origem, a palavra persona (do latim personare, «soar através») designava a máscara por detrás da qual o actor desaparecia para desempenhar um papel, uma personagem. Ora, a personagem refere-se logo a uma função e a uma dimensão pública. É talvez por isso que o termo de pessoa tomou depois um sentido jurídico e serviu para designar, em direito romano, aquele que tem uma existência civil e direitos, em oposição ao escravo que nada tem.

Pessoa e identidade:
A identidade pessoal é simultaneamente certa e impenhorável. A pessoa não é uma substância mas, sim, um princípio de coesão e de coerência. Apesar da diversidade dos seus pensamentos e dos seus actos, cada um pode, porque a consciência os acompanha sempre, reconhecer-se como autor e julgá-los. Ser uma pessoa, é ser dotado de consciência e de razão.

A pessoa como valor:
É porque é uma pessoa que o homem é sujeito de direitos, ou seja, capaz de tomar decisões que o comprometam. Foi preciso esperar pela Declaração dos Direitos do Homem, em 1789, para que o estatuto jurídico fosse reconhecido a todos os homens. Se os homens são iguais em direito, é porque eles também têm o mesmo valor. A Declaração dos Direitos do Homem não tem apenas um significado jurídico, como também tem um significado moral. Mas é com Kant que a pessoa se torna uma categoria moral. A pessoa é de facto não só um sujeito de direitos, mas também um objecto do dever. A pessoa tem, segundo Kant, um valor absoluto, e existe como fim em si, em oposição às coisas que têm um valor relativo e as quais podemos usar como simples meios. O princípio do respeito absoluto da pessoa exprime-se através do imperativo categórico que pode formular-se assim: “Age de tal forma com a humanidade para que a trates, tanto na tua pessoa como na pessoa de qualquer outro, sempre como fim, nunca simplesmente como um meio”, ou seja, faz aos outros o que queres que te façam a ti.
Reconhecer à pessoa um valor e uma dignidade absolutos, é ultrapassar a simples afirmação dos seus direitos. É dizer que ela deve ser protegida e respeitada, mesmo quando é impedida ou incapaz de agir livremente.
É uma afirmação à qual não podemos negar a legitimidade, mas que acarreta tremendos problemas éticos, como podemos constatar nas discussões actuais sobre a eutanásia ou o estatuto do embrião humano. É por isso que é mais do que nunca necessário continuar um trabalho de reflexão e de elucidação que permita clarificar um debate, onde as fontes religiosas, jurídicas e filosóficas da noção de pessoa continuam por vezes a exercer a sua influência despercebida e talvez contraditória.

Breve história das ideias morais

A história das ideias morais é muito mais antiga do que a formação da ética como disciplina.
Com o processo de hominização, o homem foi-se libertando dos instintos naturais e sendo cada vez mais dono das suas acções. O meio deixa de o condicionar e ele próprio pondera as suas escolhas, a natureza já não determina a sua forma de agir.
Isto significa que o homem sempre pensou sobre a sua acção e o que seria melhor ou pior para si. A acção é irredutível e a história das ideias morais é tão antiga quanto o próprio homem, mas a ética só se constituiu como disciplina com Aristóteles, porque uma ciência precisa de objecto e método. O objecto da ética é a praxis – acção imanente do agir humano, uma acção cujo resultado é interior e constitui o carácter do agente.
O método filosófico é analítico e crítico e aplica-se à praxis.
Estudo da racionalidade do agir, do encadeamento lógico das nossas acções, a nível de fundamentação e normatividade.
A racionalidade da acção é um processo interno que origina um encadeamento de acções pela qual nos damos a conhecer e nos forma o carácter. Existem várias lógicas da acção consoante a ética da virtude ou ética do dever. Há quem aja de acordo com o dever, que pondere as suas acções enquanto que pela ética das virtudes, o carácter responde naturalmente pelo bem.

A constituição da ordem ética é saber como ordenamos os actos na nossa vida, a ordem das coisas altera o fim que se quer. Não basta ter determinados ingredientes, há que saber misturá-los.

1) A ética na Antiguidade
Era uma ética da felicidade cujo fim era o bem. Toda a acção estava dirigida para a felicidade.
Toda a moral de Aristóteles está virada para a felicidade, não pode haver ou pensar-se moralidade sem qualquer um destes elementos.
O homem é perfectível e não nasce já feito, constrói-se, faz-se.

2) Na Idade Média
Juntamos aos ingredientes de cima – Deus
Deus passa a ser o bem, o fim, a virtude e a felicidade. Deus é o caminho moral supremo, é o elemento para o qual tudo se dirige.
Para o Cristão da idade média, ser moral é aproximar-se de Deus.
Cada momento histórico trouxe diferentes ingredientes que assimilamos e perpetuamos ao longo dos tempos.
Há somas de moralismos que herdamos e os critérios a que nos recorremos estão fundamentados ainda por essa história das ideias.

3) Modernidade
Advento da razão, valorização da razão.
Necessidade de nos conduzirmos moralmente de acordo com a razão.
Já com Aristóteles encontramos a exigência da racionalidade mas com Kant intensifica-se.
Surge a noção de liberdade. Surge com a causalidade do sujeito que age. A liberdade do homem é a causa do seu agir.
É uma noção nova, antes com Aristóteles havia a deliberação, com a medievalidade temos a valorização da vontade relacionada com o livre-arbítrio. Agora a liberdade é que é a indeterminação do agir e princípio e causa da acção do homem.
O sujeito é causa e princípio da sua acção se for livre. Em Sartre, a liberdade é condição do homem, não pode deixar de ser livre nunca.
Em Kant, a liberdade é condição da vida moral, não é ontológica mas uma realidade ética.
Não há moralidade sem liberdade, é condição da moralidade.
Em Aristóteles o homem só podia dizer se a sua acção seria virtuosa (boa) ou não, não tinha elementos para falar em liberdade, condição da moralidade.

4) Contemporaneidade
Na contemporaneidade, os críticos de Kant falam numa liberdade-moralidade situada no espaço e no tempo. A realidade é dinâmica e situa-se no espaço, os padrões morais não são sempre os mesmos, variam de povo para povo e ao universalismo ético de Kant sucede-se o relativismo moral.

Conclusão:
- Bem, universal grego
- Deus, universal medieval
- Razão, universal moderno
- Várias morais, relativismo contemporâneo

“A ética é o repouso do pensamento” Kierkegaard

Sendo a ética o estudo ou a procura da fundamentação do agir humano, consciente e racional, não será ela também tranquilizadora da nossa existência? Como explicar a angústia da escolha ética em contraposição às nossas paixões?
Essa escolha, sendo sempre ética, e portanto consciente, age por vezes contra nós mesmo sendo a curto prazo apenas. Será, por sabermos que é o melhor que fazemos na altura, mesmo que nos cause angústia na escolha e desespero na consequência?
Dando importância à nossa ética pessoal, não acabaremos por viver num constante passado, imaginando um futuro, que não passa por um presente espontâneo? Sem considerarmos os acasos e as paixões presentes, caímos num viver predefinido e adquirido por outras verdades, que podem já não ser as nossas. A nossa transcendência transcende-nos? É como se, por vezes, nos víssemos de fora, como uma alma a pairar sobre o corpo, a agir friamente (no sentido mecânico), só porque sabemos que é bem assim. Não é um acto moral de acordo com o que nos é “devido”, é um agir profundamente enraizado, que nos “impele” a tomar decisões boas, porque o sabemos pela experiência ou simplesmente pelos sentidos. Ética das virtudes vs ética do dever…
Sendo nós próprios o resultado das nossas escolhas e acções e considerando um devir contínuo, será possível cairmos em escolhas éticas tão profundas e intrínsecas à nossa personalidade que não nos possibilitem uma adaptação a mudanças exteriores?
Assim sendo, a médio/longo prazo, obteremos a recompensa pessoal pelo ter agido bem de acordo com os nossos padrões de valores, mas o facto, é que a curto prazo, qualquer escolha que “pise” ou não vá de encontro à nossa ética, nos leve a um estado de confusão e talvez angústia que nos faça repensar toda a nossa estrutura e em que base de valores está assente.
No nosso mundo de hoje, há uma grande crise de valores com que nos temos que deparar constantemente e interrogarmo-nos se agimos bem (porque já não sabemos o que é sequer o bem), quais os nossos fundamentos, ponderá-los e integrá-los na nossa realidade, em prol de um bem comum, porque no fundo, o bem pessoal implica o bem comum e vice-versa.
Toda uma globalização a que se tem vindo a assistir, não pode ser mais a desculpa contínua para o homem se sentir perdido, quando é ele próprio o seu construtor e responsável por si e respectivamente responsável pelos outros.
Mesmo sabendo que a angústia da escolha pertence à condição humana, ela não é mais do que uma passagem ao descobrir-se e ao fazer-se do homem, ao seu pro-jecto. Diria ainda, que necessária, como forma de interiorização e união do seu ser-agir com a sua essência, só assim se pode chegar a uma coerência e congruência que dê descanso e vá de encontro à realização do homem.
Assim, arrisco ter a presunção de acreditar que poderemos encontrar na pessoa, a fonte de salvação para a verdadeira humanidade, entretanto perdida ou desacreditada. Só a fé em nós próprios, consegue dar respostas para um novo começo que traga conforto.

Inquietações

A época em que vivemos não foi por nós escolhida, todo o mal do mundo não é culpa nossa, tudo nos foge ao controle… limitamo-nos a desenvencilharmo-nos da melhor maneira possível e a amenizar o sofrimento normal da vida. Será mesmo nisto que acreditamos? Ou deixámos de ter fé nas nossas acções e somos todos uns comodistas hipócritas com névoa nos olhos?
Cada vez mais é preciso parar para pensar, pensar a sério e não chegar a uma conclusão e passar à frente, é preciso pô-la em prática, cumprir o dever para connosco.
Apontar problemas parece ser o mais fácil hoje em dia, apesar de ainda haver quem nem deles tenha consciência… contudo, não é ainda suficiente, é preciso encontrar soluções e pô-las em prática. É preciso que nos responsabilizemos todos pela vida que temos e fazer dela qualquer coisa melhor.
Cada escolha que fazemos provoca mudanças ao rumo da nossa vida, e consequentemente à vida dos outros, do nosso próximo. Não pode haver mais desculpas atribuídas ao destino, a causas exteriores, a terceiros.
Mesmo quando escolhemos não escolher estamos a escolher, e mesmo que ninguém saiba disso sabemos nós, porque quer queiramos quer não, vivemos connosco, de nós não podemos fugir. Somos seres racionais e conscientes das nossas acções e temos o dever de tentar ser cada vez melhores humanos, devemo-lo ao próximo e a nós próprios senão não ganharemos o direito à felicidade. Só o inconsciente pode ser feliz sem cumprir o seu dever porque não carrega culpas.
O problema da sociedade contemporânea, de que tanto se fala, é a chamada crise de valores. Esta crise de valores dá-se em diferentes áreas, mas é importante que se diga, que os maiores valores em crise são os humanos e não sem razão. Vive-se na chamada globalização, vemos de tudo, fazemos de tudo, apanhamos com tudo e dizem-nos para sermos tolerantes, para aceitar a diferença porque é aí que está o respeito. Ora, aceitando e tolerando tudo caímos na indiferença, deixamos de nos importar porque não é da nossa conta, porque é mais fácil assim sem perguntas nem respostas, e lá vamos nós caminhando aos solavancos, cegos como morcegos com medo da luz.
É preciso ser tolerante sim e aceitar as diferenças, mas pensá-las e não imitá-las desajustadamente, e em vez de se seguir padrões, construir os nossos próprios trilhos, aqueles que fazem de nós o que somos. Uma unidade numa diversidade.
O bom exemplo da época é o recorrer a todo o tipo de comprimidos, ansiolíticos, anti-depressivos e drogas de toda a espécie. Em suma, tapar o sol com uma peneira. Porquê? Porque não se soube o que fazer, não se soube como pensar bem para resolver qualquer situação, porque a realidade não respondia às exigências interiores? Basta de culpar a vida e a nossa condição nela. Já há muito que se diz que quem está mal que se mude. Está em tempo disso, somos criaturas dotadas de razão, mas sem conhecimento correcto não vamos a lado nenhum. Não basta sermos os melhores, temos que ser bons. Somos os únicos seres que tem possibilidade de adaptação completa e não a exploramos. Culpamos tudo o que podemos menos a nossa fraca vontade de mudança. Queremos um futuro melhor para os nossos filhos e porque não para nós também? Se não mudarmos para melhor, os nossos filhos tomam-nos como exemplo e tornamos a ver a banda passar… a tocar a mesma música desafinada. Cultura mal transmitida no presente é ver crescer o problema no futuro.
O conhecimento está em todo o lado, é preciso é filtrá-lo. Temos bibliotecas cheias de obras intemporais com todo o tipo de assuntos, nomeadamente destas questões do conhecimento, da razão, dos sentidos, da dimensão espiritual do homem. Há que ler mais filosofia, participar mais na sociedade, em eventos culturais, fazer desporto, actividades ao ar livre, etc. Enfim, dar alimento à alma, ao espírito, em vez de se ficar a noite toda em frente à televisão a ver as notícias e a se pensar que o mundo já não é um lugar bom para se viver.
Porque não aproveitar esta crise de valores que toda a gente sente e procurar respostas e crescer interiormente? Precisamos de nos conhecer melhor, fazer melhor. A nossa razão prática, a da acção, a da ética, tem que começar a obedecer à razão teórica que é o pensamento. Exige-se congruência para se ver resultados e nem para tudo é preciso subsídios, podemos começar por nós primeiramente, e depois pela nossa família e amigos. Tem que se vencer a má fé que nos derrota todos os dias, que é essa consciência das coisas que vamos deixando passar e que acaba por nos prejudicar. É ela que nos provoca conflitos com nós próprios, remorsos e culpas por não se ter feito o que se sabia que se devia ter feito. Tudo depende de nós e não da sorte, a sorte favorece os audazes apenas, como uma espécie de recompensa ou incentivo para mais. Temos que ser activos, aprender, perceber, conhecer e ser humildes o suficiente para saber que nunca iremos saber tudo mas que queremos saber o máximo possível, só assim teremos credibilidade para interagir e fazer melhor. Repito: basta de saber apontar problemas, é preciso soluções e começar por nós próprios é fundamental. De boas intenções e de treinadores de bancada está o inferno cheio.
Tanto se fez pela democracia e agora que a temos ninguém lhe liga. Todos temos os mesmos direitos, como cidadãos livres que somos, acesso à educação, aos serviços públicos, à participação na vida política e a tudo mais, no entanto, para muitos continua a ser pouco, esperam que o estado lhes leve a água à boca... Não se paga pelo saber, pela perfectibilização do ser humano. Não nos devemos limitar a estar cá neste mundo apenas de passagem e a deixar que o vento determine o nosso rumo, urge apostar na educação, no refinar do pensamento para que se viva e não se sobreviva.
A educação traz novos horizontes, quanto mais sabemos, melhor vivemos, porque as escolhas são diferentes e as acções melhores e mais correctas. Temos que ser os primeiros juízes de nós próprios, avaliar os nossos meios que tem um fim em comum – a felicidade (independentemente do que ela seja para cada qual, caminha para o bem), e só a atingimos cumprindo o nosso dever pela acção, que nos deixa por fim, descansados de consciência.
Faz sentido ajustar a utopia com o pragmatismo, precisamos de sonhar sempre com um mundo melhor e ser chamados a agir, não podemos aceitar os factos como inevitáveis, este é um imperativo ético que se coloca a cada ser humano. Já que a acção é irredutível, ao menos tentemos agir correctamente. O passo não é longo, pelo contrário, está dependente de cada um, ser um ser humano melhor, educando-se e perfectibilizando-se.

Educação e democracia

Os problemas pedagógicos têm, também uma dimensão política, ou seja, há uma relação entre o regime político de uma sociedade e a pedagogia que ela utiliza no ensino. Esta relação não é unívoca, pois se o ensino é determinado pela sociedade global, ele, por seu turno também a determina.
Mas, importa levantar a seguinte questão: como deve ser o ensino numa sociedade que se pretende democrática? A palavra democracia está longe de ser unívoca. Alguns traduzem-na por: dar mais liberdade, mais responsabilidades aos próprios alunos; aqui o conteúdo da democratização é, essencialmente pedagógico. Por outro lado, outros interpretam esta palavra de um modo totalmente diferente: tornar todas as crianças iguais perante o ensino, quer dando a todas as mesmas oportunidades, quer dar mais oportunidades às mais desfavorecidas. No primeiro caso, podemos constatar que o ensino pode permanecer inigualitário, pois nada impede a pedagogia democrática de confirmar as diferenças. Para os segundos, o ensino pode permanecer autoritário, pois o essencial é que ninguém seja desfavorecido. Mas uma democracia não pode sacrificar nem a liberdade nem a igualdade.
Deste modo, é necessário estabelecer três princípios. Em primeiro lugar, e como demonstrou John Dewey, uma sociedade só é realmente democrática se a escola formar realmente democratas. Uma pedagogia autoritária corre o risco de gerar revolta é uma pedagogia de irresponsáveis. De qualquer forma, a democracia exige que os alunos adquiram, se possível, a autodisciplina, o sentido da cooperação, o respeito do outro que estão no seu próprio princípio do seu funcionamento.
O segundo princípio é que o ensino fundamental dure tanto quanto possível. Uma sociedade não é democrática se obrigar a maior parte dos jovens a entrar demasiado cedo no mundo do trabalho ou da formação profissional. É necessário que todos recebam uma cultura de base tão completa quanto possível.
A aplicação deste princípio não é evidente. Efectivamente o que ele em rigor exige é que se dê o mesmo ensino (primário e secundário) para todos e que esta solução acaba por reforçar e confirmar as desigualdades ou, então, trata-se de um ensino exigente; se existir alunos que têm necessidade de mais ajuda, ou de mais tempo para assimilar, não continuarão e estarão em fracasso permanente. Ou então, trata-se de um ensino fácil como nos países em que quase todos os jovens no fim dos estudos secundários já se encontram diplomados. Assim, todos terão êxito mas de nível muito baixo, e os alunos verdadeiramente fortes seguirão outro rumo, como por exemplo cursos privados mais selectivos e mais ambiciosos. Em suma, se se reconhece que as crianças, para serem iguais, não são semelhantes, concluir-se-á que não podem receber o mesmo ensino, sem se tornarem realmente desiguais.
Então, urge um ensino diferenciado que estabeleça, embora o mesmo objectivo fundamental para todos, e que permita às diversas categorias de alunos alcançá-lo por vias diferentes e segundo o seu próprio ritmo. Resta saber se a pedagogia diferenciada suprime as desigualdades com que inicialmente se deparou, ou se pelo contrário, as consagra. Estamos perante um grave problema, simultaneamente político e pedagógico, que uma democracia não se pode resignar a deixar sem solução.
Para finalizar, temos o terceiro princípio. Destinado a todos, o ensino democrático deve ser objectivo. Por outras palavras, o professor está para ensinar os saberes e os valores que não dependem da sua subjectividade, que o transcendem.
Alguns dizem que a democracia exige pouco do seu ensino e que se revela incapaz de inculcar os valores que entusiasmam os jovens e que dão sentido à vida. Mas não se trata de uma carência de democracia, mas sim da sua própria essência. Uma sociedade verdadeiramente democrática reconhece-se, em primeiro lugar, por estar dedicada a valores que podem ser ou parecer incompatíveis, mas que de qualquer modo não dependem do poder. O papel de um Estado democrático é, pelo contrário, permitir a cada um encontrar por si mesmo o sentido da sua vida, como adulto.
Numa sociedade moderna, o ensino é, no essencial, público. Mesmo quando é juridicamente privado, depende do Estado que em parte o financia. Em democracia, o poder do Estado detém-se no limiar das convicções, porque a sua função é protegê-las e não proibi-las. Em democracia o Estado deve controlar o ensino para evitar o endoutrinamento. Este endoutrinamento reconhece-se primeiro quando reprime o pensamento, quando, sejam quais forem os seus objectivos, os seus conteúdos, ou os seus métodos, obriga as pessoas a crer, levando-as a julgar que pensam. Em seguida, um ensino endoutrina quando inculca o ódio, ou seja, o desejo de prejudicar pessoas e ao ensinar o ódio legitima-se a violência destruindo-se, assim, a democracia.
Em suma: a educação só assume sentido por valores que se opõem ao fanatismo, à violência e ao ódio, valores estes que facultam ao homem a maioridade.

A educação entre a natureza e a cultura

Educação é uma palavra que encontra a sua raiz etimológica no latim, em educere que significa conduzir “fora de” mas vem também de outro verbo educare que quer dizer “alimentar”, “cuidar”. Educar é pois acompanhar um percurso que implica uma dinâmica transitiva.
Educar possui uma pluralidade de sinónimos, mas os três principais são criar, ensinar e formar.
Criar refere-se à educação em sentido restrito; no essencial, coincide com a família. Trata-se de uma educação espontânea; uma mãe que acaricia o seu bebé educa-o e desenvolve aptidão para o bebé comunicar. No entanto, a ternura de mãe é educativa sem o saber. Ensinar, designa, pelo contrário, uma educação intencional; é uma actividade que se exerce numa instituição assegurada por profissionais.
Deste modo, podemos constatar que criar e ensinar são actividades diferentes e, por vezes, exclusivas. Podemos dar o exemplo dos pais que mesmo instruídos, são pouco capazes de instruir os filhos, porque são sempre demasiado impacientes e ansiosos. Por outro lado, um professor não é um pai, o seu papel é apenas fazer aprender algo.
Formar é um termo por vezes polémico. Seja ela técnica, militar, profissional, desportiva é sempre a preparação do indivíduo para tal função social. O objecto da formação é a função social, é o futuro empregado ou o futuro médico que importa.
De qualquer forma, criar, ensinar, formar que são aparentemente sinónimos, têm entre si relações de exclusão. Aprende-se a mesma coisa nos três casos, mas não da mesma forma. Por exemplo, uma língua estrangeira na família aprende-se espontânea e globalmente, pela conversação. Na escola ensina-se recorrendo a um programa, métodos, técnicas e professores. Na formação também mas de espírito inteiramente diverso: não se formam intérpretes ou se ensina o inglês comercial como se ensina inglês no liceu. Assim, um professor que ensina a traduzir o melhor e o mais depressa possível faz formação profissional e, por outro lado, professor que mostra que há várias traduções possíveis e que leva o tempo que for necessário para encontrar a melhor, ensina.
Assim, é necessário unir estes três tipos de ideais: criar, ensinar e formar.
A educação é um processo de integração de um indivíduo no seio de uma cultura. A cultura exige um ideal de transmissão, de continuidade. A educação é essa transmissão de um património cultural. É um ensinar e um receber de um modo de estar no mundo, um conjunto de crenças, de saberes, de valores, de técnicas, de preceitos morais e jurídicos, de costumes.
Deste modo, tudo o que o homem conquistou é cultural, ou seja, transmite-se pela educação. Tudo o que torna o homem humano, tal como a linguagem, o pensamento, os sentimentos, o homem tem-no porque aprendeu.
A antropologia afirma que o homem é um ser inacabado. Deve, portanto, ao contrário dos outros animais aprender tudo. Mas, este inacabamento do homem é também a sua grandeza; enquanto que o animal é o que é desde o seu nascimento ou se forma naturalmente pela maturação, a criança deve tornar-se o que deve ser. A criança vai infinitamente mais longe que o animal. Importa aqui falar no caso das «crianças selvagens» que ignoram o uso das mãos, o sorrir, não distinguem uma imagem em relevo de um objecto, não se reconhecem ao espelho, etc. Mas é possível educar, mais ou menos, as crianças selvagens ao passo que ninguém poderia ensinar a linguagem, as técnicas ou a moralidade a um animal. Deste modo, podemos dizer que há uma natureza humana universal, que consiste na possibilidade de aprender. O conceito de natureza humana é muito importante pois pretende mostrar que em educação nem tudo é possível, que o educador encontra uma resistência que não pode ignorar nem forçar sem arruinar a educação.
Esta resistência é, em primeiro lugar, a da natureza psicológica da criança. Vários autores como Piaget, Freud, Wallon mostram que a criança passa necessariamente por estádios, e que o educador não pode omitir. Daí que Rousseau preconizava, até à idade dos doze anos, uma «educação negativa» cujo papel não é apressar o crescimento mas preservá-lo, não instruir a criança, mas prepará-la para se instruir.
A natureza é também o carácter próprio de cada criança, a sua maneira de agir, de sentir e de aprender. Educar não é fabricar adultos segundo um modelo, é libertar em cada homem o que o impede de ser ele mesmo.
Educa-se e forma-se o homem de acordo com a concepção que se tem da sua natureza e dos valores que o devem orientar. A educação é, assim, o conjunto dos processos e de procedimentos que permitam a qualquer criança aceder progressivamente à cultura, pois o acesso à cultura é que permite distinguir o homem do animal.
Em suma: A necessidade de ser educado é universal porque ela é inerente ao homem. A natureza humana é o que exige ser educado.

A Filosofia como forma de Educação

A filosofia começa onde as coisas já não são claras, onde o que para todos era evidente e deixa de o ser.
A filosofia é no fundo a interrogação, o pôr em causa o que sabemos ou julgamos saber.
Como se caracteriza o questionar? Em primeiro lugar, é total, pode-se filosofar sobre tudo. Em rigor, nenhum domínio escapa à interrogação filosófica e é isso que legitima a filosofia e lhe dá a vertente de verdadeira educação.
Depois é radical, no sentido de que vai ao fundo das coisas. Assim, cada um se interroga e a filosofia responde sobre o que mereça ser questionado. Não busca os meios mais seguros e mais eficazes, interroga-se sobre quais são os fins da educação. Interessa saber quais são os fins da educação, quais os seus objectivos e quais as suas vantagens e é por isso que o questionamento filosófico também é vital, no sentido de que aquilo que o suscita não é um interesse puramente especulativo.
Para filosofar é preciso ir à escola dos filósofos, recordando, todavia, que uma escola é um lugar de onde se deve sair, uma instituição cujo fim verdadeiro não é apenas aprender tal ou tal verdade, mas aprender a pensar.
“Não se aprende a filosofia, aprende-se unicamente a filosofar” – diz Kant, e num contexto kantiano, nitidamente perceptível em diferentes escritos seus, o sentido da máxima é muito claro e não vai propriamente na direcção em que alguns subsequentemente o trataram de interpretar. Para Kant, não se pode ensinar filosofia, mas a filosofar, por um lado, porque ainda ninguém está integralmente de posse dela; daí a pergunta que a seu respeito se faz na Crítica da Razão Pura: “Onde está ela, quem a tem na sua posse e em que se faz ela conhecer?”
A filosofia como sistema de conhecimentos filosóficos, é ainda, segundo Kant, “uma ideia a realizar”.
Por outro lado, não se pode ensinar filosofia mas a filosofar, fundamentalmente porque há que incrementar o pensar por si próprio. Há que fazer um uso próprio da razão, e não meramente histórico ou mecânico.
Em primeiro lugar, trata-se de lembrar que, sem ensino, não há filosofia como instituição cultural. Em segundo, de sublinhar que a filosofia é por constituição e tendencionalidade, comunicável. Em terceiro, que o ensino, da filosofia não é (nem nunca foi, nas suas diferentes figuras) magistério em abstracto; origina-se e desenvolve-se num concreto histórico-social de tradições, existências e de esperanças. Sem ensino, não há filosofia como instituição cultural.

O Renascimento

O Renascimento ou Renascença, foi um período de renovação científica, literária e artística, vulgarmente considerado como iniciado no séc. XIV e prolongado através dos sécs. XV e XVI e portanto, não è fácil de definir o termo Renascimento, porque è uma época histórica caracterizada por várias mudanças em variados planos. Tentar caracterizar este movimento histórico seria perdermo-nos em opiniões, visto que entre historiadores e filósofos as opiniões ou abordagens são tão variáveis quanto extensas.
O Renascimento, tem que ser entendido e analisado, tendo-se em conta todas as mudanças que surgiram nesta época separadamente, e tentar, por sua vez, incluir num todo a variedade ou abundância dos aspectos intelectuais de um dado problema, com a força interior e energética que tem esta nova visão e que integra esta variedade sem a reduzir à semelhança.
Encontramos estas características da época, já acima mencionada, na grandeza das apresentações diferentes de manifestações de pensamentos, principalmente nos diálogos, que eram a forma de expressão literária privilegiada durante o Renascimento.
A observação da Natureza atribuída ao Renascimento não é correcta, apesar de ser frequente encontrar-se esta ideia nos manuais de História. Esta reflexão explicativa da Natureza, que consequentemente deu origem ao método experimental, não teve o seu início em época exacta. Desde sempre o Homem e a Natureza estiveram em constante trato ou relação.
A verdade è que, o Homem do Renascimento, ‘mergulhado’ no princípio do pensamento inspirado pelos textos tradicionais de Aristóteles, das obras de Platão que começam a assomar, e dos documentos falsamente atribuídos aos Pitagóricos ou a Hermes Trimegisto, “começou por falar demais, sem escutar suficientemente a resposta das coisas”, ou seja, os homens do Renascimento viraram-se para a Natureza amando-a, mas sem nunca a conhecerem verdadeiramente.
A Hermética è um discurso fechado, de forma consistente e bem guardado, mas obscuro e ininteligível, que diz respeito às artes esotéricas, como a magia e o ocultismo. É também nesse domínio invisível que o Homem pode descobrir o mundo. Para alguns autores da época, a magia era mesmo a verdadeira ciência e só ela poderia estabelecer a relação entre o visível e o invisível.
O Homem pode descobrir as características mais intímas e relações entre as coisas do macro-cosmos, de descobrir os segredos do Universo. Este Homem do Renascimento afirmava-se como micro-cosmos dentro do macro-cosmos.
Havia no Renascimento oposição à Escolástica, procurava-se uma verdade total e todas as formas de conhecimento eram consideradas.
A Antiguidade era vista como uma perfeição absoluta e reencontrar a perfeição das coisas è a prioridade do Renascimento, a procura da natureza mais intíma e mais autêntica do Homem, queriam no fundo ser movidos pelas mesmas intenções dos gregos e a melhor influência foi a de Platão com o seu Humanismo.
A verdade no Renascimento era uma mistura de vários sistemas mas que se complementavam e nem por isso se excluíam, a verdade sincrética è uma união de teorias ou sistemas, que portanto se complementavam e para se falar de uma realidade eram necessários todos estes sistemas.
A forma Cristã de olhar para a Natureza cai por terra. A Natureza aparece no seu esplendor, por si mesma, vale por si e não porque Deus a criou para os homens.
Como a Natureza se tornou imprevisível, não pode ser estudada pelas leis ou regras, seria uma contradição.
Há um naturalismo estético e mágico e não científico ou racional. A Natureza nunca è reduzida ao esquema de leis e regras. O seu dinamismo è uma força mágica de produção e transformação e ela pode ser comunicável aos magos e mágicos que a podem desvendar.
É então por tal, que o Homem do Renascimento começou por falar demais, sem escutar a resposta das coisas, porque o Homem do Renascimento recusou inicialmente a experimentação ficando-se pela observação, mas nunca de uma forma pioneira, apenas de outra forma, pelo sincretismo. È, uma ilusão que tenha sido o Renascimento a tomar contacto directo com a Natureza, o Renascimento simplesmente elimina a representação da Natureza que era tradicional há vários séculos e constrói outra representação da Natureza deixando a marca do seu génio, próprio da época.

Blaise Pascal - Pensamentos (Fragmentos)

Pascal discorre sobre a importância de caminhar para Deus ou escolhê-Lo. Defende que a vida terrena não tem importância nenhuma comparada com a infinitude ou vida além da morte e, que é no entanto, para nós desconhecida.
Faz um paralelismo entre o infinito matemático e o infinito teológico para provar que apesar de sabermos da existência do infinito nos números, não podemos saber se este seja par ou ímpar e, consequentemente sabemos que existe Deus, mas que Ele não pode ser conhecido pela razão, apenas pela crença, pela fé. Acreditava que o conhecimento científico fosse necessário e universal mas que nem tudo pudesse ser conhecido pela matemática. Há determinados factos na natureza que são distintos dos domínios racionais, estes não deixam de ser compreendidos mas podem ser conhecidos por outras formas, nomeadamente pela experiência e pela crença.
O limite da razão deve consistir em termos noção que há uma infinidade de coisas que não podemos conhecer e que só podemos é reconhecer isso mesmo, os nossos limites racionais.
Não pode ser provada a existência de Deus pela razão, pois esta nada pode determinar por ser insuficiente, por ser apenas metade da natureza do homem, e assim temos que fazer uma escolha pela melhor probabilidade, para superar o facto da vida ser incerta, de estarmos perdidos, e então devemos arriscar e apostar em Deus para ganhar a vida eterna.
Pascal diz que temos sempre que apostar porque já estamos ‘embarcados’ na aventura da vida, e uma vez que é preciso escolher e mediando as hipóteses, temos duas coisas a perder: a verdade e o bem, e duas coisas a empenhar: a razão e a vontade e o conhecimento e bem-aventurança.
Como temos que evitar o erro e a miséria, a razão não fica penalizada porque teria que escolher na mesma, e não escolhendo Deus ou escolhendo não escolher, não perde nada, enquanto que considerando a possibilidade de Deus existir e escolhendo-O, escolhemos a felicidade eterna.
Diz Pascal que “todo o jogador arrisca com certeza para ganhar com incerteza”, querendo isto dizer que é mais do que certo termos que escolher, por já estarmos ‘embarcados’, e ganhamos na vida terrena porque esta opção será a que nos fará viver melhor e em conformidade com Deus, mas nunca saberemos se será certo para além da morte porque Deus é no fundo, uma incerteza.
O homem para Pascal tem que se transcender, sair de si depois de se conhecer e assim caminhar para Cristo, para Deus. Cristo é a única forma de comunhão com Deus. Como a morte é um enigma e a vida após a morte também, há que jogar com isso e é neste texto que Pascal nos coloca a questão de decidirmos se acreditamos em Deus ou não.
Como atrás é referido, no caso de não acreditarmos podemos viver como nos aprouver, e pelo contrário, se acreditarmos deveremos viver da melhor forma conforme Deus para nos aproximarmos d’Ele na morte que é eterna.
Há em Pascal uma grande procura pelo sentido da vida, pelo destino e pela eternidade e o homem precisa de mais do que apenas espírito, corpo e razão, é necessário que haja os três em harmonia para que o homem se cumpra e cumpra o seu destino que é a entrega a Deus.
No final do fragmento, o autor realça o facto de devermos fazer o esforço de diminuir as nossas paixões porque estas enebriam a nossa capacidade de usar a razão e de apostar, diz-nos que devemos sempre apostar porque não temos nada a perder e que a aposta no caminho de Deus é a melhor, porque é o caminho mais correcto para ter uma vida que nos aproxime de ganhar a eternidade.
A eternidade é no fundo apenas o que interessa, visto que a vida terrena é apenas um trilho para a verdadeira estrada.

Edmund Husserl (1859-1938)

A Filosofia como ciência rigorosa

A obra filosófica de Husserl é uma das obras fundamentais do séc. XX, testemunhada pela sua posteridade por muitos outros seus seguidores ou mesmo apenas por muitos outros que a vários níveis se inspiraram nele. É que a filosofia de Husserl retoma o desafio que a ciência triunfante do início do séc. XX lança à filosofia e restitui a esta última um lugar ameaçado e contestado. Com efeito, o projecto de Husserl é, segundo as suas próprias palavras, instituir a filosofia como “ciência rigorosa”, num contexto de crise. Esta crise é simultaneamente a do fundamento das matemáticas e a da filosofia. Na viragem do séc. XX, o psicologismo e o positivismo dominam e, através deles, por um lado a convicção de que as leis lógicas se reduzem ás leis psicológicas que regem a natureza particular do espírito humano e que, por outro lado, a verdade só pode ser encontrada no campo das ciências.
Existe aí um duplo perigo: o de reduzir ao silêncio a filosofia, cuja ambição sempre foi o de conhecer o conjunto das produções – científicas, mas também culturais – do espírito, e do relativismo que recusa conceder à verdade um carácter absoluto. A tarefa da filosofia será reabilitar o vivido, o concreto, sem com isso renunciar ao vigor racional.

O regresso às próprias coisas

Esta palavra de ordem formulada por Husserl manifesta a vontade de descrever simplesmente – antes de qualquer tentativa de explicação – a forma como uma coisa se apresenta à consciência, o modo como as coisas se manifestam. Isto é, elas existem como fenómenos. É por isto que Husserl designa o seu método como “fenomenologia”.
Todavia, é necessário precavermo-nos do contra-senso que consistiria em interpretar os fenómenos como meras aparências, cuja essência seria necessário captar. Pelo contrário, a fenomenologia é uma descrição das essências. Ela descreve o que se passa quando a consciência visa um objecto. Para isso, utiliza aquilo a que Husserl chama a “variação eidética” (do grego eidos, ideia) que consiste em fazer variar imaginariamente as percepções da essência de forma a fazer surgir a invariante.
Por exemplo, o triângulo não seria um triângulo se tivesse mais que três lados, etc., mas a essência do triângulo não existe independentemente do acto de consciência que o visa. Se a visão da essência (neste caso do triângulo) é bem originária, e não derivada – como pretende o empirismo ou o psicologismo – a essência não é separável do acto que a visa, como afirma o platonismo ou os defensores de um realismo das essências. Para acentuar a correlação entre o acto de consciência que visa um objecto – isto é, a intencionalidade – e o objecto visado, Husserl utiliza, aliás, os termos de “noese” para o primeiro e de “noema” para o segundo. Não há transcendência do objecto visado em relação ao sujeito que o visa.

A redução fenomenológica

Nada é mais certo do que a existência de um mundo que ultrapassa e extravasa a simples visão que dele eu possa ter, ou a simples consciência que dele tenho. A questão será então compreender essa certeza, apoiando-me não nesse primeiro nível de evidência simplesmente factual ou empírica: o mundo existe fora de mim, mas numa evidencia mais originária e apodíctica que a fundamenta.
Retomando explicitamente a tese de Descartes, Husserl, nas suas Meditações Cartesianas suspende todo o juízo de existência acerca do mundo e pratica a epoché ou epokhé (do grego, “suspensão de juízo”), a existência do mundo objectivo é colocada entre parênteses e suspende-se qualquer adesão ingénua a seu respeito, de maneira a facilitar o acesso ao eu transcendental. Através desta redução fenomenológica, Husserl alcança a certeza apodíctica da existência do sujeito ou do eu transcendental. Ora, mesmo suspendendo toda a crença no mundo, o sujeito visa um objecto que não se esgota nessa visão. É o que demonstra a sua análise da percepção. Esta casa, na percepção, revela-me uma superfície, mas, enquanto objecto visado, ela tem também uma profundidade, por exemplo, é a forma ou “essência” da casa que é captada pela consciência, e esta excede em todos os sentidos o que é percebido como simples facto, ou conjunto de sensações. Do mesmo modo, nas suas Lições sobre uma Fenomenologia da Consciência Interior do Tempo, Husserl mostrava já como a temporalidade só é possível nesse duplo movimento de presença-ausência, de imanência e de transcendência.

A Intersubjectividade

Sucintamente, se a redução fenomenológica faz aparecer o sujeito transcendental como aquilo a partir do qual se podem manifestar significações e um mundo apreendido através delas, ela todavia não desemboca nem num relativismo, nem num solipsismo. Ou seja, a redução fenomenológica não isola o sujeito ou o eu transcendental num mundo á sua medida. Pelo contrário, é outrém que aí ocupa um lugar primordial. A constituição do mundo, na sua espessura e transcendência, isto é, na sua dimensão simplesmente humana, pressupõe de facto outrém, como Husserl procurará demonstrar na sua Quinta Meditação. Porque outrém não é um simples objecto; é também um sujeito, um alter ego. Outrém apreende um mundo a partir de uma perspectiva e de um ponto de vista diferentes dos meus. No entanto, é o mesmo mundo que é assim constituído e apreendido. Outrém completa e enriquece a minha percepção do mundo. A consciência é intencionalidade objectiva de uma outra coisa que vem a ser ela mesma, constituída pela e na intersubjectividade, isto é, todo o ser humano é um alter ego para ele mesmo. Sem essa partilha e essa troca, isto é, sem a intersubjectividade, como apreensão de um mundo comum, nenhuma cultura artística, histórica ou política seria possível. É através da intersubjectividade que se elabora aquilo a que Husserl irá designar por “o mundo da vida”, esse mundo constituído, que toda a consciência encontra na sua presença originária e no qual ela se inscreve.
Melhor explicando, a redução fenomenológica, não isola o sujeito ou o eu transcendental num mundo à sua medida. A redução une-me aos estados de consciência puros e ás unidades constituídas, essas são inerentes ao meu ego, ou seja, fazem parte do seu próprio ser concreto.
O mundo objectivo pertence à esfera da intersubjectividade, na condição de transcendência “imanente” deixando de ser transcendente. Deste modo dá-se a apreensão de um corpo semelhante ao meu na minha esfera primordial. Então o fenómeno aparece pois esse corpo tem a significação do corpo orgânico. Está bem patente a importância do outro para a minha percepção do mundo.
O meu corpo apresenta um ego que é na realidade um alter ego e consequentemente este é apresentado mas não de uma maneira directa, o que há é uma transposição aperceptiva e ontológica do que se passa com o meu corpo.
Nessa união baseia-se a possibilidade de uma elaboração doutrinal da coexistência humana, uma teoria do mundo objectivamente válida, intersubjectividade, e ainda uma concepção “científica” e rigorosa da história e da cultura (intersubjectividade monadológica).
O objecto intencional não só está presente na consciência de um modo apodíctico como se constitui igualmente através de uma operação do eu, pela qual os elementos orientados à designação e formação do objecto consciente se unificam.
Segundo diferentes perspectivas, o tempo realiza uma primeira síntese unificadora que através da durabilidade do “eu puro” unifica o “presente vivo”, no qual se manifesta a identidade do objecto, mas para a realização desta manifestação junta-se o elemento formal, a intencionalidade, pela qual a consciência pura torna consciência do objecto.
Esta intencionalidade parte do eu e forma os dados materiais em ordem à constituição do objecto, esta, enquanto informa os dados realiza a “noese” e enquanto projecta os dados para a designação dos objectos constitui a “noema”. Esta “noema” ainda não é o objecto intencional, este objecto intencional aparece no prolongamento do seu sentido noemático como pólo oposto ao “eu puro”.
É o fruto da redução transcendental à consciência pura, não negando o objecto da atitude natural nem coincidindo com ele. Para que este apareça válido para além do sujeito individual, deve manifestar-se como intersubjectivo, ou seja, constituído para uma multidão de sujeitos cognoscentes.
Na atitude natural, Husserl mantém-se realista como o homem vulgar, na atitude transcendental sem negar a realidade exterior, fixa-se na realidade enquanto concebida, porque esta posição apresenta-se-lhe como necessária a fim de começar por aquilo que oferece a garantia segura de evidência apodíctica.
Husserl vai apresentar a ciência do “mundo da vida”, reconhecendo o carácter específico desse mundo, apresentando-o na experiência imediata da vida pré-científica. Para Husserl, a primeira operação a realizar é, a já acima mencionada, redução da ciência objectiva, não pondo em causa a sua existência e sem a intenção de viver no mundo sem esta ciência, apenas colocá-la entre parênteses mas continuando a ser um facto cultural, assim atinge-se um plano em que o mundo é considerado tal como é, como o experimentamos na nossa realidade.
O mundo será aquilo para qual remete todo o ente e a partir do qual este se compreende. O individual não nos é dado definitivamente mas como um horizonte que se mantém sempre aberto. É pelo mundo que o ente recebe sentido, este “mundo da vida” é transcendência no aspecto de uma horizontalidade aberta, fundamenta todo o ente e dá orientação ao campo do eu.

Espinosa (1632/1677) - Tratado teológico-político

Espinosa perseguia os princípios da verdadeira religião e pretendia substituir a revelação pelas luzes naturais da razão, neste seu Tratado teológico-político esforçou-se por interpretar a Bíblia segundo as luzes da razão, o que lhe trouxe críticas violentas e injustas.
Espinosa na sua obra, fala-nos da interpretação da Escritura, obra esta como sabemos, de uma leitura peculiar devido às características que a compõem e fazem dela a obra única que é.
Sublinha então algumas características que nos permitem interpretar a Escritura. Para este, o método de interpretar a Escritura não difere muito ou em nada mesmo no método de interpretação da natureza.
O método de interpretação da natureza consiste em descrever a história da natureza e concluir daí, com base em dados certos, as definições das coisas naturais. Também para interpretar a Escritura é necessário elaborar a sua história autêntica e depois com base em dados e princípios certos deduzir como legítima consequência o pensamento dos seus autores. Por outras palavras, é a partir desta interpretação, apenas da obra, que se pode compreendê-la. Não se devem admitir outros princípios nem outros dados além dos que se podem extrair da obra e da sua história, só assim podemos interpretar sem tanto perigo de errar e discutir com segurança as coisas que ultrapassam a nossa compreensão como aquelas que conhecemos pela luz natural. Esta, para o autor, é a única e correcta via de interpretação além de estar em conformidade com o método de interpretação da natureza.
A Escritura trata também de coisas que não se podem interpretar pelos princípios conhecidos pela luz natural, daí que há factos que ultrapassam a compreensão humana como os milagres e as revelações. Com isto, Espinosa diz-nos que é apenas na Escritura que se deve procurar respostas e não fora desta. Quanto aos ensinamentos morais há que ver que não podemos julgar a Escritura pelos nossos preconceitos mas sim a partir da própria Escritura, só lá podemos perceber a inclinação e certeza dos profetas para a justiça e bondade, e para quem não sejam evidentes estes factos terá dificuldade em perceber a obra. Temos que partir do princípio da veracidade, e também para Espinosa, a Escritura é uma obra sem definições, só a compreendemos a partir de deduções nossas.
Para que tudo isto seja possível existem vários factores a ter em conta, um deles será o perceber a língua em que o texto foi escrito, pois embora a Escritura seja divulgada em outras línguas, aparecem-nos sempre hebraísmos. Um segundo ponto será tentar perceber o sentido das ideias, não a verdade. Não nos podemos deixar influenciar pelo nosso raciocínio ou preconceitos, temos que manter a mente aberta e ter em conta interpretações metafóricas que nos surgem e que para nós até podem parecer não as ser, mas no sentido em que está no texto, por causa até da língua usada (por exemplo), serem metáforas.
Cada interpretação tem que ser feita de acordo com o texto ou obra em questão e nunca através das nossas ideias pré-concebidas. Outro ponto será ainda, ter em conta e investigar se as fontes são fidedignas ou não, com efeito, para sabermos quais as opiniões que são enunciadas como leis e quais as que são ensinamentos morais, importa conhecer a vida, os costumes e os estudos do autor. Este aspecto torna mais fácil explicar as palavras de alguém mais facilmente e ainda podemos conhecer melhor o seu talento e maneira de ser. Importa saber a época, lugar e para quem foram escritas as obras e também se com os tempos a obra foi adulterada ou não por outras pessoas afim de entendermos ou adquirirmos ensinamentos apenas verdadeiros.
Na história da Escritura é necessário, antes de tudo, procurar o que é mais universal e que constitui a base e fundamento de toda a obra, há que encontrar os pontos ou assuntos principais. Depois destes é que passamos a assuntos mais particulares, práticos e diferentes em várias situações, tem que haver adequação à interpretação.
Na vida prática para se analizarem textos será desta forma acima referida, mas numa forma especulativa já não será assim tão fácil. Temos que partir também de princípios universais averiguando através de frases que sejam claras o que são as profecias e revelações, em que consistem e depois o que será um milagre e assim por diante até chegarmos às coisas mais comuns.
Sobre isto Espinosa diz-nos que podemos apenas conjecturar mas nunca concluir com certeza e com fundamento na Escritura. Para este autor, este seu modo será o mais correcto de interpretação da Escritura e até o único que permite encontrar o verdadeiro sentido.
Acontece frequentemente corromper-se o pensamento de um autor, alterando-se-lhe as frases ou interpretando-as mal conforme a sua obra vai sendo transcrita ou interpretada ao longo do tempo. O conhecimento da Escritura é extraído apenas da própria.
No entanto, como o autor refere, podemos observar que este método apresenta várias dificuldades sendo uma delas o conhecimento da língua hebraica. Não temos em que nos basear, visto que o povo hebraico pouco ou nada nos legou, há apenas fragmentos da língua e um pouco de literatura. Assim sendo torna-se impossível determinar com segurança o verdadeiro sentido de todos os textos da Escritura, nem mesmo através de comparações de frases ou textos dá para termos esclarecimento límpido, o que venha a coincidir terá sido mero acaso.
Aprofundando o que já foi mencionado sobre os autores ou fontes fidedignas, surge a necessidade de saber se a história contada é a correcta, pois como já constámos várias vezes na nossa vida, existe por vezes a mesma história contada de formas muito diferentes. Temos com isto, que descobrir quais as autênticas e se não terá havido outras versões apresentadas por autores de maior autoridade ou mesmo credibilidade.
A forma como o texto é escrito também é de uma importância significante, há quem escreva de uma forma clara, simples e inteligível para que todos entendam sem dificuldades, e quem escreva de uma forma obscura que só nos trás dificuldades ao entendimento. Assim, Espinosa, é da opinião de que com um ensinamento claro adquirimos logo o verdadeiro sentido, sendo quase desnecessário investigar as fontes, o autor ou a língua, um texto claro é perceptível até ao nível de conhecimento de uma criança.
O ensinamento da verdadeira piedade exprime-se por palavras mais correntes porque são mais simples e fáceis de entender. Desta forma, podemos perceber com clareza o conteúdo da Escritura no que diz respeito às coisas salutares e necessárias e não temos que nos inquietar com o resto já que na maioria das vezes não podemos abraçar a razão e pelo intelecto todo o resto.
Espinosa é um defensor da luz natural como princípio do conhecimento da Escritura, para o autor a luz natural é o que é humano, meditado durante muito tempo e só com muito trabalho encontrado, a luz sobrenatural é para ele um dom divino concedido unicamente aos fieis e não é necessário para o conhecimento ou interpretação da Escritura, diz até que quem precisasse da luz sobrenatural para entender os profetas seria porque estava carenciado de uma luz natural.
Espinosa contesta a opinião de Maimónides mostrando-nos de que nada valia o seu método de interpretação e que este era de todo inútil.
Em suma, cada homem com o direito de liberdade que tem, tem também o direito de julgar o que bem entenda, mesmo em matéria religiosa este tem o seu voto a dar. Sendo assim, através de uma educação bem conduzida, da sua livre decisão e advertência piedosa e fraterna qualquer homem tem autoridade de julgar qualquer assunto como bem entender.
É então que para Espinosa, mais uma vez o seu método de interpretação é o correcto pois a norma para essa interpretação só pode ser a luz natural comum a todos os homens e não uma qualquer luz superior á natureza ou uma qualquer autoridade externa. Este é um método em consonância com a índole e a capacidade natural do comum dos homens.
Todas as dificuldades apresentadas não resultam da sua natureza mas sim da negligência do homem.
Espinosa diz que o remédio está na luz natural a que chamamos razão e que se encontra em cada um de nós. Os homens procuram Deus nos livros sagrados e nas palavras dos profetas, não vêem que nos livros e nos discursos apenas há letras e sons, que é somente pela sua razão que dão um sentido a tudo isto e que, numa palavra, só podem encontrar Deus nos livros porque já o tem em si mesmos. A revelação pelos livros supõe, portanto a revelação interior, para atingir a verdadeira religião e verdadeira felicidade, temos apenas de utilizar como convém a nossa razão.
Este conhecimento da natureza de Deus, sendo realmente comum a todas as ideias de todas as coisas, está compreendido também na ideia do nosso corpo, isto é, da nossa alma. Para falar de outro modo, no nosso conhecimento devem estar compreendidas as condições sem as quais o nosso conhecimento não seria possível; deve ser possível dar conta do facto de que pensamos, porque de facto pensamos; e, uma vez que o nosso pensamento é real, contém realmente em si as condições que o tornam possível; ora nada se pode conceber sem Deus; pelo próprio facto de termos ideias, pensamos, portanto, implicitamente a ideia de Deus em cada uma delas. O que acontece por acaso a quem usa da sua razão, e sem que disso se aperceba claramente, é que aquele que reflectiu sobre a ideia verdadeira dada o faz para cada verdade particular e, cada vez que o faz, descobre em si uma parte de uma alma eterna; com verdades particulares assim directamente apreendidas, ele constrói-se realmente uma alma, a sua alma; toma consciência e identidade da sua verdadeira natureza com a natureza absoluta do pensamento, com Deus.