domingo, fevereiro 27, 2005

José Marinho (1904-1975)

José Marinho situa-se entre os discípulos de Leonardo Coimbra, empenhado no movimento de reabilitação da «filosofia portuguesa» numa linha profundamente crítica do racionalismo moderno bem como da nossa tradição escolástica e posteriormente positivista. Neste plano de consideração, a sua preocupação marcante foi a de encontrar um espaço para a singularidade da nossa cultura filosófica sem negar a aspiração universal e universalizante da filosofia.
Para Marinho, a humanidade pensa-se necessariamente em cada um dos humanos e daí a noção de uma universalidade singular e concreta, à luz da qual se tornaria possível equacionar o problema de uma filosofia nacional. Não há pensar radicado senão no homem situado, ou seja, não há para Marinho um modelo de racionalidade que desde todo o sempre e para todo o sempre se fixasse no homem, determinando e impondo uma lógica perfeita e única, com regras de pensar que uma filosofia ou toda a filosofia nos obriguem a aceitar, para que possamos usufruir da dignidade humana. Não há por isso uma razão pura, na medida em que importa considerar aquele outro de toda a razão «que do mais fundo solicita o autêntico e real pensamento dos homens».
Por isso, fala-nos de uma «razão sublimada», chamando a atenção para as virtudes da anagogia – nomeadamente no ensino da filosofia concebido como «iniciação» - que, rompendo com o formalismo, atende essencialmente ao mito, à poesia e ao simbolismo, na comum busca da autenticidade humana, que radicando implícita na tradição portuguesa, nomeadamente na nossa poesia e literatura, se trataria de tornar explícita, fundando uma nova tradição e possibilidade de autocompreensão.
Do ponto de vista metafísico e ontológico, situa-se na continuidade da heterodoxia de Sampaio Bruno, superando o dogma cristão da criação pelo tema da misteriosa cisão, princípio lógico sem o qual se tornaria impossível inteligir a alteridade, e que desenvolve na sua mais importante obra, intitulada Teoria do Ser e da Verdade (1961). José Marinho funda ontologicamente todo o existente no que designa por «insubstancial substante», que pressupõe um fundo de enigma, supostamente continuando a nossa tradição cultural do «encoberto».
Para Marinho, o enigma «não é dado para o interrogar fora, (mas) adere radicalmente ao ser que interroga» num quadro de descoberta e encobrimento, possibilitando e desenvolvendo a partir daí o tema da «visão unívoca», ou «ver sem distância».

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