domingo, fevereiro 27, 2005

Antero de Quental (1842-1891)

Do ponto de vista filosófico é o maior vulto da Geração de 70, com uma obra que se estende da poesia à prosa, passando por um rico epistolário de grande importância para a delimitação das várias fases do seu pensamento. Nos primeiros anos da sua actividade, Antero foi um pensador instável, conhecendo sucessivas fases de evolução do seu ideário, ora de entusiástico idealismo, ora de negação e descrença, vindo a culminar no final da vida, numa fase de maturidade e serenidade crítica a que correspondem os seus mais profundos textos em prosa, com destaque para A filosofia da natureza dos naturalistas (1886) e sobretudo para as Tendências gerais da filosofia na segunda metade do século XIX. (1890).
Foi também a sua visão moral do mundo que determinou a sua filosofia política, marcada pelo socialismo de Proudhon, mas também por esse dinamismo intrínseco que soube estender ao processo de emancipação dos trabalhadores. A emancipação dos trabalhadores deveria ser obra dos próprios trabalhadores, ou seja, da sua energia moral e da sua dignidade, do seu esforço individual e colectivo. Em todo o caso, o essencial a notar é que a superioridade do socialismo sobre as outras formas de organização das sociedades emanava da sua superioridade moral e não do estado: «Cousa alguma grande e duradoura se fundou ainda no mundo senão pela moral: e, se o socialismo tem de ser uma esplêndida realidade, só o será como um passo mais no caminho da evolução moral das sociedades (...), moralidade, moralidade e sempre moralidade».
Noutra vertente, Antero marcou de forma muito sensível a consciência decadentista que desde a Geração de 70 determinou a existência de uma clivagem no diálogo cultural entre os Portugueses, sobretudo através da sua conferência do Casino Lisbonense, intitulada Causas da Decadência dos Povos Peninsulares (1871), onde mitificou o ideal de uma Europa, pátria da civilização e do progresso, da qual tragicamente nos sentia arredados, tese de que mais tarde se viria a afastar.
Em todo o caso, nessa célebre conferência, identificava os erros de via da história pátria, incapaz de pelo culto das ciências, da liberdade moral e da elevação da classe média matar o beato, o fanático e o jesuíta que teimosamente cada português ocultava.

2 comentários:

Vasco Macieira disse...

Vulto fantástico da poesia e filosofia portuguesa! Tinha rasgos de génio. Sem dúvida, a figura mais importante da sua geração. Este homem sempre me fascinou. Parecia que trazia o assombro no olhar... É hilariante aquele episódio conhecido do duelo nos tempos da Universidade de Coimbra. Tão triste porém, a despedida dele deste mundo... Valete Fratres!

R.Dart disse...

Ele só agora começa a ser bem estudado. Sempre se tem falado, mas começam a haver bons comentadores de Antero. É fascinante sim. Principalmente porque Antero tem além do pessimismo aparente, uma mensagem de optimismo. Um homem dividido. :)