terça-feira, abril 19, 2005

Henri Bergson (Paris, 1859 - idem, 1941)

Filósofo e escritor francês. Esmeradamente educado, em 1900 é nomeado professor no Colégio de França, onde as suas aulas obtêm um êxito sem precedentes. Membro do Instituto de França desde 1901, ingressa na Academia Francesa em 1914. Em 1928 obtém o Prémio Nobel de Literatura. Morre durante a ocupação alemã de França após expressar a sua adesão moral ao catolicismo, apesar da sua origem judia.

Desfruta em vida de uma popularidade e de uma aceitação insólitas num pensador. A sua filosofia está em estreita relação com o positivismo do século XIX e com o espiritualismo francês, com os quais tenta elaborar uma original simbiose. Definitivamente, o que busca é uma superação do positivismo. Num clima positivista, de aparecimento da crítica científica, de polémica espiritualista, de neokantismo, tudo isso condicionado pelo auge da ciência, Bergson aborda o problema da relação sistemática do conhecimento científico e a metafísica. Para a superação do positivismo, Bergson apoia-se no positivismo evolucionista de Spencer. Esforça-se por transferir os princípios positivos para o campo das ciências humanas e da religião, valendo-se de um princípio de explicação de toda a realidade: a evolução.
A sua ideia básica é que a realidade é duração real. E o local em que se evidencia que a realidade é duração é a consciência, onde se unem a experiência e a intuição. A intuição é a alma da verdadeira experiência, o acto que nos coloca dentro das coisas; não um acto estático, mas uma actividade viva, a própria duração da realidade.

Para Bergson, o homem é capaz de superar o domínio da inteligência e de guardar o impulso criador, superando o nível estático da moral e da religião até transcender plenamente o élan vital, o impulso vital, que definitivamente, é de Deus, se não é o próprio Deus.

9 comentários:

Vasco Macieira disse...

Grande Bergson. Na minha opinião é esse o caminho a seguir: a superação do positivismo. Senão é dizer que somos apenas uns seres puramente materialistas e que tudo se reduz a uma lei mecanicista. E o espírito, onde fica? Se fosse tudo tão linear como tentam fazer crer os positivistas, a nossa felicidade bastava-se em grande medida com a posse. E isso sucede de facto? Não me parece. Daí se calhar as inúmeras crises de identidade. Bom post Rosa. Beijinhos.

vlealbarros disse...

Não conheço a fundo a obra de Bergson, mas concordo com a direcção do teu post e do comentário do vasco, na medida em que a espiritualidade é um aspecto fundamental da construção do eu.

beijo

Kavalier Clay disse...

Ao Vasco Macieira:
"E o espírito, onde fica? Se fosse tudo tão linear como tentam fazer crer os positivistas, a nossa felicidade bastava-se em grande medida com a posse".

Assim como quem fala a tomar um café, eu digo: a massa encefálica é, de certa forma, o que permite a existência daquilo a que chama espírito. Se não acreditar, experimente perguntar a alguém que levou com uma roda de um camião de 12 toneladas na cabeça, o que é que ela acha do espírito.
O mais certo é vê-la babar-se com um olhar para o infinito, ainda que o possa ouvir perfeitamente bem.

Portanto, sim...não me choca que tudo se resuma à posse: a posse das faculdades mentais, a posse de discernimento entre o bem e o mal; a posse do bom senso; enfim...a posse das "coisas" que nos permitem pensar nessa coisa chamada "espírito", e que, segundo alguns, existe por si só.
Mas eu digo: sem essas "coisas", "caput" para o espírito.

PJG

Vítor Leal Barros disse...

sem querer meter bedelho em opiniões alheias e "como quem fala a tomar um café, eu digo": para quem acredita que a vida existe apenas num plano material, no qual a matéria é a razão da existência ou inexistência da espiritualidade, a sua opinião, Kavalier Clay, é bastante aceitável. mas recordo-lhe que felizmente nem todos têm a mesma opinião... há quem acredite numa existência onde o corpo, ou a massa encefálica esmagada por um camião de 12 toneladas, não sejam absolutamente, para não dizer completamente necessários, para que o espírito ou outra qualquer forma de existência sejam reais... seria muito triste se fossemos só isto...eu quero acreditar que somos algo mais. não acha que o tipo de existência que defende, baseado na matéria, é insatisfatório demais para andarmos todos cá durante tantos anos? se assim fosse pedia que um camião me esmagasse o crâneo assim que tivesse acesso à linguagem...
caput para a vida...

Kavalier Clay disse...

Ao Leal Barros.

Está correctíssimo. Reconheço, evidentemente, que opiniões há muitas. Agora, se me diz que devo respeitá-las, eu respondo-lhe: não, não respeito.
Não interprete estas minhas palavras como rudes ou mal educadas. Se reparar bem, o não respeito por determinadas opiniões é que faz o pensamento evoluir, ou regredir, consoante os casos. É neste sentido que afirmo que não respeito as opiniões que não me fazem sentido, mas devo respeito às pessoas que as formulam.
Quanto ao espírito, já entramos no campo da metafísica. É sempre mais fácil acreditar nas Ideias, do que nas Formas. Mas há essência sem substância?
Tudo ajuda. Tudo é bem vindo. É dos opostos que nasce o rebento.
Existencialista, agnóstico, humanista e racionalista: é neste oposto que me situo.

Cumprimentos.
PJG

R.Dart disse...

As formas são as ideias, e eu diria que a substância é a essência. Senão éramos pedras, só matéria.

PJG, bem sabes que eu tb tenho a minha veia racionalista apurada mas isso não invalida que não acredite na dimensão espiritual. Palo contrário, tento é explicá-la e há mesmo explicação, senão tb era mais céptica.


*Viste o texto acima que era private joke nossa? :) BJ*

alvesPEDRO disse...

Rosita!

É preciso ter alguma calma quando entramos no teu Marketing, pois conteudo não falta e á preciso absovê-lo. Como eu ando sempre a correr, nunca tenho mais de meia hora para todos os meus Blogs favoritos, incluindo o meu.

Hoje vou tirar pelo menos umas horas para
me actualizar um bocado.

Aqui tenho uma boa professora. O conteudo deixa-me absorto.

Penso que o Positivismo tinha razão de ser na época de Kant mas será possivel evoluir um bocado? O Bergson veio fazer essa transição. Nunca fui radical e penso que se bem que conheço o Bergson, também ele não o foi ao ponto de sobrevalorizar o espirito sobre a matéria. Estamos nesta dimensão, a terceira em que não existe espirito sem matéria mas também um corpo é apenas corpo quando o espirito o abandona. É assim tão dificil de entender? Não peço que venham concordar, apenas exponho a minha visão. Assim como o espirito só é espirito quando deixa de ter fome. Não vale a pena filosofar sobre isto quando não se tém de comer. Não sei se deu para me perceberem.

Rosa, obrigada por partilhares o teus conhecimentos. O teu blog é um verdadeiro serviço publico.

Bjufas deste Atlantis.

R.Dart disse...

Pedro meu querido, ainda bem que deste cá um pulinho e me trouxeste palavrinhas que me ajudarão a esclarecer algumas coisas.
Sim, o positivismo, como aliás qualquer teoria, vem sempre em sequência de outras para dar resposta aos problemas das épocas.
Nunca podemos atirar aos cães palavras sem conhecermos um mínimo das coisas. Nem faria sentido que assim fosse. As coisas tem um enquadramento natural que deve ser entendido, argumentar-se desconexadamente é um perigo enorme.
Assim sendo tento chatear-vos com estes textos já por isso mesmo, para que se saibam causas e reconheçam efeitos.
O positivismo foi de facto uma resposta à crise da razão. Depois de Kant surgiram muitos pensadores que levantaram questões lícitas, como o lugar da emoção e o reflexo disso no conhecimento foi um descrédito total. Ninguém admitia verdades absolutas e isso nas ciências resvalou o caos. Muitas caíram em descrédito. Comte surge com o positivismo depois destas crises todas que Kant originou. Originou mas o desenvolvimento da crise passa por um Hegel, Schelling, Kiekegaard, Nietzsche, Freud, Marx, Feuerbach entre outros. O objectivo do positivismo era clarificar o conhecimento e dar o nome de ciência apenas àquelas que usassem um método rigoroso que pudesse dar certeza, validade ao conhecimento, tudo o que não obedecesse a estes parâmetros seria uma falha à "Ordem e Progresso" de Comte. Foi extremamente importante! Não nos vamos iludir, o positivismo apesar de radical surge em boa hora e houve de facto avanços mas também retrocessos. Está ultrapassado claro, o reconhecimento da inconsciência e da consciência como factores de conhecimento provam-no. Há de facto «porquês» que se não fossem explorados, a própria ciência teria estagnado há muito tempo.
Bergson reagiu bem ao positivismo bem como outras correntes mas para ele, o corpo e a alma ainda eram pensados como separados - triunfo este que os existencialistas unificaram. Não há distinção entre um e outro para estes pensadores, corpo e espírito são o mesmo. Novo post sobre isto brevemente.
Um grande beijinho para ti Pedro, vai aparecendo.*

Vítor Leal Barros disse...

PJG

não considero que tenha sido mal educado e penso que é do confronto de ideias, por vezes opostas, que nos vamos enriquecendo e construindo uma rede de conhecimentos mais vasta. não sou obrigado a concordar com a sua opinião, assim como não o é no sentido contrário, de qualquer forma, não considero que neste assunto específico as nossas posições sejam antípodas. não o conheço e portanto, não imagino como vai equacionando os seus raciocínios, quanto a mim, digo-lhe que se existe alguma verdade na vida, é a sua própria inexistência. quero com isto dizer que não há um único caminho para a percepção do que quer que seja, existem vários e boa parte deles totalmente válidos... eu esforço-me por optar pelo caminho menos preconceituoso, tentando perceber, na medida do que me é permitido, as possíveis verdades e os seus fundamentos sobre determinado assunto. dito isto, e ao contrário de si que deixou claro onde se situa, “Existencialista, agnóstico, humanista e racionalista”, eu prefiro não me catalogar e continuar o meu caminho construindo-me na busca e na procura daquilo que considero essencial. Invejo a sua capacidade de identificação com as correntes de pensamento que enumerou, eu sou incapaz, quer com essas quer com outras. É-me extremamente difícil construir-me num terreno de certezas, talvez porque se a face da lua que vemos iluminada é real, a outra também o é. Não interprete as minhas palavras como uma fuga à tomada de posição, mas antes como uma busca por vezes extraordinariamente feliz, outras vezes extraordinariamente penosa, da única coisa em que realmente acredito, a liberdade.

Um abraço e bem haja por me proporcionar este momento, digo-o honestamente…

Um dia, se tiver tempo e vontade, gostaria que lesse um texto que está publicado no nosso blogue (acho que sabe qual é) chamado Reflexos, talvez lendo-o perceberá melhor aquilo que lhe escrevi…. Está publicado no arquivo de Dezembro.