quinta-feira, abril 14, 2005

Educar - Uma questão de Ser

Até meados do século a educação referia-se a um período da vida, ao período escolar. Fazíamos um curso, na melhor das hipóteses um curso universitário, para "nos prepararmos para a vida". E depois de recebermos o diploma, considerávamo-nos preparados e íamos viver.
A existência humana dividia-se em duas partes, a da educação e a da vida. Hoje e a partir da evolução da segunda metade do século, sabemos que não é assim. Entendemos a educação como processo permanente da vida toda, desde que nascemos até que morremos, através das suas diferentes fases, de crianças, de jovens e de adultos.
Nesta perspectiva, o que é educar? Em primeiro lugar, não é ensinar. Ensinar é uma função importante, continua a ser importante, mas não é, de longe, a fundamental. Porque, em educação o essencial não é transmitir conhecimentos mas criar condições para que as pessoas cresçam, se desenvolvam, sejam, até se realizarem em plenitude. Educar, portanto, abarca imensamente mais do que ensinar. Não se trata de obter conhecimentos, mas de crescer em todas as dimensões da vida. Não é, portanto, uma questão de ter, de ter conhecimentos que se transmitem e se adquirem como nas transações de uma feira de trocas, que se vendem e se compram como numa grande superfície comercial, cuja propriedade se defende como acontece com os direitos de autor ou com as patentes. Não é objectivo de uma pedagogia bancária, mas de uma pegadogia problematizadora (Paulo Freire).
Educar é uma questão de Ser. E de crescer. A partir daquilo que recebemos pelo nascimento, (latim nascere, natum), do que somos por natureza, e das condições favoráveis que nos possam ser criadas, e através do desenvolvimento e do exercício de todas as nossas capacidades, crescer até atingirmos a plena realização como pessoa, como cidadão, como profissional.

José Ribeiro Dias, "A Educação na viragem do milénio: De Edgar Faure a Jacques Delors. Ensaio de enquadramento conceptual" in Educação: Caminho para o séc. XXI - Actas do I Colóquio de Filosofia da Educação.

5 comentários:

PJG disse...

Não é por acaso que na estratégia de Lisboa, iniciada pelo processo de Bolonha, se passou a falar tanto na "aprendizagem ao longo da vida" e na "Europa do conhecimento".

O sul-europeu ainda não percebeu isso. Mas havemos de chegar lá. Ora senão havemos.

P.S: Vieira para a Presidência!

R.Dart disse...

Acreditas que a educação para a cidadania, chamada "back-to-basics" começou noutros países há uns 50 anos e só agora é que nós começámos a falar nisso como se tivéssemos descoberto a pólvora?
Espero que tenhas razão e que não tenhamos que esperar mais outros 50 anos para se falar em aprendizagem ao longo da vida. Para muitos a ideia ainda é inconcebível, "não dá pão para a boca" dizem eles, e eu deixo-os a pensar profundamente sobre isso. Absurdo demais para ripostar.
Não que tenha especial predilecção sobre o tema de educar para a cidadania, a meu ver isso não é algo que se aprenda sem que se pratique e deve começar desde tenras idades por uma boa educação e respeito pelo próximo, mas isso é outra coisa, tomei apenas o caso como exemplo.*

Miguel Sousa disse...

Concordava mais com o texto se ele fizesse a separação (nem que seja académica) das várias dimensões da educação....isto tem muito que se lhe diga.....

R.Dart disse...

Miguel, isto é parte do artigo, não se ponha já com as fúrias! hehe.
O artigo em questão, completo, faz as devidas separações (académicas ou não) e está a meu ver bem conseguido. É ler e depois fico à espera do "tem que se lhe diga" okis?

Biranta disse...

Pois! Nestas coisas, os meus "senãos" situam-se sempre ao nível do "o quê, quem, como e onde". Estes textos teóricos abundam, mas as ideias exactas sobre as medidas concretas, praticáveis, (há uma infinidade delas), nunca são especificadas, ficam ao "critério" do subjectivo de cada um (incluindo responsáveis e governantes) e nunca se concretizam de forma eficiente. É verdade que a preocupação com o problema e as tentativas de o resolver, já são um avanço. Mas, a julgar por outros tão abundantes exemplos, o chegar às soluções concretas vai ser só lá para "o dia de S. Nunca". Entretanto, há uma série de actos aberrantes e contrários ao "objectivo", que se vão praticando, perante a passividade, a tolerância, de todos. Tal como na discussão em "Na Mesa do Costume", sobre educação, acho que já prestaríamos um bom serviço, ao país (e ao mundo), se conseguíssemos identificar e "listar" algumas dessas práticas obtusas, inibindo que se repitam. Se não...