sábado, maio 14, 2005

Modernidade, relativismo e ciência

Karl Popper demonstrou claramente haver aqui uma confusão entre os conceitos de “certeza” e de “verdade”, na medida em que se não há, de facto, “certezas absolutas”, pode e deve haver “verdades absolutas” desde que (e esta distinção é capital) essas verdades sejam perspectivadas num horizonte de incerteza. Se assim não fosse, quer dizer, se não se admitisse a existência de “verdades absolutas” (num horizonte de incerteza, repete-se) o espaço cognitivo seria preenchido por “verdades relativas” intermutáveis, justificando filosoficamente um mundo de “vale tudo”, sem critérios nem referências, universo nihilista sem outro princípio do que o “cada um por si”, onde todos os valores ficariam esvaziados de sentido.
Nessa senda de anomia total restaria apenas a lei dos mais fortes contra os mais fracos, a eclosão do reino da selvajaria e da injustiça, e o inevitável aparecimento de novas formas de escravatura. É num tal contexto que as “verdades absolutas”, desde que inseridas num “horizonte de incerteza”, são necessárias a uma coesão social que respeite a liberdade individual sem cair no cepticismo.*
*É igualmente por isso, que a Democracia não deve ser vista apenas – nem principalmente – como um conceito relativo consistindo numa mera “delegação de poderes do povo”, concepção variável e facilmente atraiçoada, mas como, o efectivo controlo do povo sobre o poder através de órgãos que minimizem a promiscuidade de poderes. Do mesmo modo que o princípio da “igualdade” herdado da Revolução Francesa, não corresponde à abstracção arbitrária de: “todos iguais”, mas sim – bem mais pragmaticamente – a uma igualdade de “oportunidades para todos”, o que é radicalmente diferente porque põe o acento tónico numa praxis política e económica precisa e não num conceito de escopo incognoscível e erradio.
Adelino Torres. O estudo todo aqui.

17 comentários:

Miguel Sousa disse...

Sem querer discutir o texto, porque concordo com ele, quero deixar um pouco de uma conversa que tive com um cientista de renome internacional à beira da reforma: Dizia-me ele, que estava farto de investigar, chegar a conclusões e, passados alguns tempos, essa sua descoberta estava...meia certa, meia errada. Daí que optou por investigar a única coisa que, para ele, é certa na vida....a morte. É um regalo ouvi-lo falar sobre a morte, partindo de um pressuposto cientifico.....pois é as certezas e as verdades dos nossos dias parece serem poucas ou nenhumas. Valha-nos os valores que podem enformar um quadro axiológico que nos pode servir de base a uma conduta que se quer recta.

R.Dart disse...

Verdades objectivas: teorias confirmadas pela ciência segundo critérios crítico-argumentativos e que possibilitem a experiência e verificação, bem como a confirmação da falsificabilidade da teoria. Deve usar-se o método dedutivo e não indutivo e, desta forma, Popper inova permitindo que o conhecimento seja dinâmico tendo sempre em vista que não há certezas, apenas verdades, enquanto não houver nova teoria que refute.

Verdades subjectivas: a se avaliar algo que se pretende objectivo, vão cair sempre em relativismos, são inúteis. A se procurar axiomas que nos conduzam subjectivamente, sim, são possíveis e existem.

certezas: não há, pressupondo que as verdades só o são enquanto são, mas enquanto são, são. logo, há verdades - não absolutas, mas objectivas.
Segundo Popper.
*****
Sobre a morte, a mais velha questão metafísica do mundo, qual era o "pressuposto científico" em que esse senhor assentava? A morte é o que de mais natural há, assente e aceite como inevitável.

E como medir essa conduta que se quer recta quando se acha que nos nossos dias não há certezas nem verdades?

LN disse...

Ora, nada melhor que encontrar Popper, a morte e as questões das certezas...

R.Dart, "medir a conduta"???
de regua, esquadro (ou seja, normas) ou de amplitude de visão?

sorriso, pela provocação.

rosa disse...

Já era provocação em cima, hehhe. :)*

rosa disse...

faltaram as aspas diacho. sorry's

carlos disse...

Prima,

Crashei e perdi o seu contacto. Se fizer o favor de me enviar um email agradecia, que é para falarmos do tal texto do "espaço público".

caiê disse...

A morte é certa, verdade trivial...
Mas não sei se percebi a questão do "regalo de falar" com esse cinetista quase reformado sobre a Morte. Gostaria que o Miguel pormenorizasse, se possível, os argumentos científicos com que o senhor o tranquilizou. Curiosidade pessoal, inteiramente.

Quanto ao texto, concordo. A verdade é relativa, caso fuja à lógica pura ou ao determinismo natural.

caiê disse...

*cientista.

lapsus linguae

R.Dart disse...

Amiga, pressupondo que estejamos a falar de conhecimento científico, a verdade para Popper não é relativa, é sim objectiva - não é absoluta, mas é objectiva.
Relativa será a verdade subjectiva, a nossa verdade, que é sempre móvel, em constante devir e se comparada ou comparável à situação, atitude exterior, espaço e tempo.
Quando se trata de conhecimento científico, as teorias devem ser refutáveis/falsificadas através do método crítico - o método lógico-racional que Popper adopta na sua epistemologia. Sendo assim, Popper defende que não há certezas absolutas mas há certezas objectivas. Contudo o que não há são certezas (são coisas diferentes), visto que qualquer teoria sendo dada por absoluta cairá em dogamatismos - o que o autor critica e, humildemente, eu também.
Os dogmatismos matam o conhecimento crítico, não permitem abertura à discussão racional fundamentada pela argumentação lógica.
Popper não rejeita qualquer outro tipo de conhecimento, critica apenas a indução como método adoptado no caminho das ciências, já que pela indução nada se pode provar e esta tende aos dogmatismos e aos relativismos.

Um exemplo: Devem lembrar-se de Parménides, o maluquinho que falava do ser e do nada e do movimento como se processava. Sim? É pré-socrático, do séc 9 ou 10 a.C. já não me lembro bem... bom, foi através desta metafísica de Parménides que chegámos á primeira teoria científica da matéria, tratada pela física. Com isto, Popper considera todas as ciências, não rejeita nenhuma, apenas acha que é pela crítica que se evolui e quem não a adopta (ex:astrologia) não se desenvolve, não há cientificidade porque quanto menos "provável" (de provar) empíricamente ou pela experiência, for a ciência, menos possibilidade de se refutá-la.
Se assim não fosse estavamos todos na fogueira por dizermos disparates (que muitas vezes não o são). ;)

Ui que já vou longe...

R.Dart disse...

Ah! Importante.
Popper também é bastante influenciado pelo darwinismo mas refuta o determinismo natural, porque diz que este se altera com o aparecimento da linguagem humana. A linguagem humana é o que permite a razão e a razão é o que permite a crítica (bem vemos o que acontece quando as discussões não vão na senda da razão, a crítica acaba por ser patética, mal fundamentada e cai normalmente em relativismos subjectivos), e com a crítica saudável a evolução natural deixa de ser violenta, o defensor da teoria já não é segregado mas sim refutado com teorias contrárias.
Este determinismo pós-moderno deixa de fazer sentido, na medida em que o que tinhamos em mente anteriormente seria a "lei do mais forte", e agora com o uso da razão, há possibilidade de evoluirmos para uma paz comum através do uso da nossa razão. Não deve vencer o mais forte mas o mais competente. É mais ou menos isto. :)

O Micróbio disse...
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O Micróbio disse...

O que o Karl Popper nunca disse foi que a CERTEZA de ser é já na VERDADE um privilégio... e digo-o com uma convicção ABSOLUTA!

R.Dart disse...

Certeza de ser=Ser? Certo? :)
Absolutamente. Eu também o afirmo com convicção!
...mas não deixa de ser uma verdade subjectiva e relativa, considerando que a definição de Ser é ambígua ontologicamente e portanto não é objectiva, e além disso, nem todos concordam (ex:os suicidas). hehe.
Mas ele diz isso entrelinhas Micróbio. A mensagem de Popper é mesmo essa, que vale a pena estar-se por cá. ;)
Gracias pela visitinha!!

Miguel Sousa disse...

Cara Caiê o meu "amigo" cientista quase reformado deu em filósofo..eh ehe..e não me descansou...acontece que gosto de ouvir quem sabe mais do que eu, falando de temas que são pouco abordados de forma científica...olhe um dia destes vi no Canal da Cabo geografic magazine, uma explicação da ciencia para os acontecimentos biblicos e achei muito interessante..pois afinal até pode ter havido uma explicação pela abertura do mar..na fuga do egipto....e gostei...confesso que não sei onde anda a charlatice..aliás sou péssimo a avaliar pessoas (se não o fosse hoje era um tipo bem sucedido e ganhava muito mais do que ordenado de professor)...pura e simplesmente gosto de ouvir quem sabe.....desculpe não ter resolvido a sua inquietação....´quanto a Popper sabe tão bem quanto eu que há uma granda parte da cmunidade que não lhe passa cartão...não é o meu caso...gosto dele....ás vezes

R.Dart disse...

Caro Miguel não pude deixar de esboçar um sorriso.
Quase todos os temas são abordados de forma científica, sejam pela experiência ou pela argumentação racional, as pessoas é que não tem conhecimento deles (e não me refiro ao Miguel, mas a nós todos), porque se ficam pelas suas áreas. Não damos para tudo.
Aliás, esse é daqueles dogmas que convém afastar para não turvar o conhecimento quando não se sabe explicar nem se procura saber mais. Em Hermenêutica estudam-se todos os fenómenos biblícos e analisam-se problemas a fundo da religião, inclusivé temas da física. Com isto quero apenas dizer que até a religião tem interpretações racionais, parecendo que não.
Quanto a Popper, é por isso que deixo os textos aqui e o próprio Popper teria muito gosto em que o refutassem.
O Miguel não quer partilhar connosco as suas críticas fundamentadas? ;)

Caiê disse...

Miguel:
a explicação científica para os acontecimentos bíblicos não me surpreende. Ou mesmo questões puramente sociais que foram eclipsadas pela religião que se professa. De facto, há culturas menos austeras, que incentivam e sempre incentivaram a procura do saber, ainda que com isso se corresse o risco de ir contra algum "ensinamento". No entanto, isto já nos afastava consideravelmente do texto inicial... :)

A inquietação - a minha - de que fala é um traço de personalidade. Creio bem que não desaparecia por melhor resposta que eu recebesse... Obrigada pela sua paciência e disponibilidade. ;)

rosa disse...

bem, os textos biblícos a mim dizem pouco no que toca a questões do fantástico. basta pensarmos que estávamos numa época em que não havia qualquer explicação científica para os fenómenos e tudo só poderia ser explicado por mitos. é natural, nao podemos nos desligar da época quando lemos um autor. muitas coisas são apenas reflexos do entendimento de então.
vai daí que ache o que a Caiê em parte disse, referindo-se a que hajam "culturas menos austeras", eu digo que interessa a mensagem principal e não essas explicações coladas. todo o livre de espírito chega onde quer sem limitações de dogmas. ainda hoje lemos textos míticos e não consideramos sequer se há deuses ou monstros, se há formigas com 10 cabeças ou elefantes com 3 pernas, mas sim a mensagem que esses autores deixaram. parece-me surreal que se acredite em adão e eva como personagens reais e não como fruto duma mensagem - pura ficção! mas há. acreditem. um must. ;)