terça-feira, abril 19, 2005

Espiritualismo

Do latim spiritualis ou spiritalis: «próprio à respiração», «espiritual».
Sentido comum é uma doutrina que consiste em afirmar que o espírito não se reduz à vida e/ou que a vida não se reduz à matéria (oposto ao materialismo). Na metafísica é uma teoria filosófica segundo a qual existem duas substâncias radicalmente distintas, o espírito e a natureza. A primeira é caracterizada pelo pensamento e pela liberdade, a segunda pela extensão e pelo movimento. Na moral, o espiritualismo, é uma teoria que defende que a vida humana admite os seus próprios fins (a justiça, a liberdade, etc) que não poderiam reduzir-se aos únicos interesses do vivo, podendo até mesmo ser levados a contradizê-los.

No seu sentido metafísico, o termo espiritualismo refere-se a uma longa tradição que vem de Anaxágoras (séc. V a.C.) e que se perpetua em toda a filosofia cartesiana (Descartes, Malebranche, Espinosa, Leibniz...). Para Anaxágoras, o espírito é o noús, ou seja, «a alma» ou «o sopro» fluido e movente, que se opõe à matéria, sólida e inerte. A filosofia idealista no seu conjunto admite, também ela, esta oposição categórica entre o espírito (princípio de unificação e de conhecimento) e a matéria (estendida e inerte) assim como a supremacia do primeiro.
O dualismo cartesiano radicaliza ainda esta oposição, mas reconhece a autonomia da matéria: esta última obedece às suas próprias leis (mecanismo) e, portanto, já não é totalmente subordinada ao espírito. Além disso, na obra de Descartes, a consciência deixa de ser um «sopro» ou uma «chama» para se tornar um princípio de conhecimento e de representação do universo inteiro.
A questão que será posta a seguir diz respeito às relações (dificilmente inteligíveis) entre duas substâncias consideradas como radicalmente estranhas uma à outra. No séc. XX, um debate muito animado continua a opôr os adeptos do materialismo e os adeptos de um espiritualismo metafísico renovado. Segundo Bergson (que representa esta segunda posição), o espírito não é um efeito do corpo, e a vida no geral é irredutível à matéria. Longe de ser a chave do funcionamento do espírito, o cérebro é só o instrumento e o suporte: é apenas "o conjunto dos dispositivos que permitem ao espírito responder à acção das coisas através de reacções motrizes [...] cuja exactidão assegura a perfeita inserção do espírito na realidade"*.
*
Henri Bergson, "A Alma e o Corpo" in A Energia Espiritual.

Materialismo

No seu sentido pejorativo, materialismo é a atitude ou a doutrina caracterizada por uma ligação aos bens materiais (riqueza, etc) e por uma ausência de ideal.
Na Filosofia, é uma teoria segundo a qual, a matéria é a única realidade existente (monismo), ou a matéria é a realidade fundamental a partir da qual se explica a vida espiritual (Marx, Freud, Nietzsche - chamados filósofos da suspeita). O materialismo opõe-se a idealismo.
A palavra «materialismo» é equívoca. Por um lado, é muitas vezes utilizada numa intenção polémica: ser «materialista», é ser acusado de explicar o «superior» (o espírito) pelo «inferior» (a matéria), ou então recusar Deus, a imortalidade da alma e, no geral, a religião. Materialismo pode ser neste sentido sinónimo de ateísmo. O termo adquire um valor positivo a partir do séc XVIII, acompanhando o desenvolvimento da crítica dos dogmas religiosos. Uma outra dificuldade resulta da diversidade dos conceitos da matéria própria das diferentes filosofias materialistas, desde o antigo atomismo até ao desenvolvimento da ciência moderna. Finalmente, em história e em sociologia, principalmente no seguimento de Marx, «materialismo» pode designar, não um sistema geral do mundo, mas um método de explicação dos comportamentos sociais a partir das estruturas materiais (económicas) da sociedade (materialismo histórico).

Materialismo Dialéctico
Concebido nos anos 30 na URSS, o materialismo dialéctico é a elaboração dogmática de certos princípios gerais da filosofia de Marx num sistema metafísico, explicando a globalidade dos processos da natureza e da sociedade através de leis «dialécticas» da matéria em movimento. esta filosofia oficial apoiou-se em determinados textos de Engels, principalmente na Dialéctica da Natureza.

Materialismo Histórico
Filosofia marxista da história, segundo a qual a arquitectura completa de uma sociedade, assim como as leis que presidem às suas transformações, explica-se pela natureza e pela evolução da sua estrutura económica. Os indivíduos agem então na história em função das forças sociais que as determinam, e não dos ideais e dos objectivos que fixam conscientemente.

Positivismo

O positivismo caracteriza-se pela atitude de confiança em relação aos métodos e aos resultados da ciência experimental. Por extensão, qualquer filosofia que privilegie o conhecimento científico deve combater a metafísica.

Esta atitude científica substitui por uma lei invencível do progresso do espírito humano, as crenças teológicas ou as explicações metafísicas. Ao tornar-se científico, o espírito renuncia à questão do «porquê?», ou seja, renuncia procurar a explicação absoluta das coisas. Limita-se ao «como?», ou seja, à formulação das leis da natureza, aproveitando, por intermédio de observações e de experiências repetidas, as relações constantes que unem os fenómenos.

O positivismo criou também a escola filosófica que se desenvolveu nos anos de 1920-1930 em Viena. O seu projecto consistia em basear a ciência numa linguagem inteiramente redutível a formulações de observações directas, e denunciar na metafísica um conjunto de proposições não significantes por serem experimentalmente inverificáveis (empirismo lógico).

Henri Bergson (Paris, 1859 - idem, 1941)

Filósofo e escritor francês. Esmeradamente educado, em 1900 é nomeado professor no Colégio de França, onde as suas aulas obtêm um êxito sem precedentes. Membro do Instituto de França desde 1901, ingressa na Academia Francesa em 1914. Em 1928 obtém o Prémio Nobel de Literatura. Morre durante a ocupação alemã de França após expressar a sua adesão moral ao catolicismo, apesar da sua origem judia.

Desfruta em vida de uma popularidade e de uma aceitação insólitas num pensador. A sua filosofia está em estreita relação com o positivismo do século XIX e com o espiritualismo francês, com os quais tenta elaborar uma original simbiose. Definitivamente, o que busca é uma superação do positivismo. Num clima positivista, de aparecimento da crítica científica, de polémica espiritualista, de neokantismo, tudo isso condicionado pelo auge da ciência, Bergson aborda o problema da relação sistemática do conhecimento científico e a metafísica. Para a superação do positivismo, Bergson apoia-se no positivismo evolucionista de Spencer. Esforça-se por transferir os princípios positivos para o campo das ciências humanas e da religião, valendo-se de um princípio de explicação de toda a realidade: a evolução.
A sua ideia básica é que a realidade é duração real. E o local em que se evidencia que a realidade é duração é a consciência, onde se unem a experiência e a intuição. A intuição é a alma da verdadeira experiência, o acto que nos coloca dentro das coisas; não um acto estático, mas uma actividade viva, a própria duração da realidade.

Para Bergson, o homem é capaz de superar o domínio da inteligência e de guardar o impulso criador, superando o nível estático da moral e da religião até transcender plenamente o élan vital, o impulso vital, que definitivamente, é de Deus, se não é o próprio Deus.

sábado, abril 16, 2005

Crash

Amigos, tive daqueles pequenos grandes problemas com o portátil.
Como sou uma criatura organizadíssima, não tinha nada, ou quase nada gravado em cd's. Sim, perdi tudo menos a dignidade (o amor próprio ainda está a voltar ao lugar), portanto àqueles com quem já troquei emails, só posso aguardar que tenham a bondade em fazê-lo novamente. Teria muito gosto em manter o contacto. :)

sexta-feira, abril 15, 2005

Escola Cultural

(..) O olhar original do Homem sobre si próprio – ao abrir, pela consciência, o desdobramento que faz dele dois – é axiológico. O eu vê-se e desgosta-se de si, por incoincidência de si com-sigo, pela desvalia de si que essa incoincidência manifesta e é. Escreveu Ortega, em Unas Lecciones de Metafisica: “Lo que hace más falta es ser”. O que ao Homem faz falta, e isso se revela no olhar de si para si, é ser: é ser ele próprio. Isso é o que o eu experiencia, ao ver-se no eu visto. O poeta-filósofo português Fernando Pessoa escreveu assim, numa quadra simples e quase popular:

“Brincava o menino
Com o carro de bois.
Sentiu-se brincando
E disse: eu sou dois”

Pois sou. Só que o segundo põe a nu que eu afinal não sou eu, que eu é algo, é alguém que tenho para ser e que tenho, no fim de contas, de ser, mas que não estou (ainda) a ser. Este é o imperativo categórico axiológico que retumba na consciência do Homem: tens de ser tu mesmo, plenamente; tenho de ser eu mesmo, plenamente; essa plenitude é a plenitude do valor que eu sou.
Assim, a actividade de aproximação a si mesmo que o eu desde logo empreende e é a Educação, é também o culto e a cultura de si mesmo, é também o crescimento de si em valor. E assim vão emergindo e crescendo os valores. Vão emergindo como os frutos nas árvores do pomar. Vão emergindo plurais e diversos, provindo todos da fonte de vida única que alimenta o pomar inteiro, árvore por árvore, como na humanidade acontece pessoa por pessoa, sendo aí a humanidade o pomar. (...)

Manuel Ferreira Patrício, Presidente da Direcção da AEPEC
(Se tiver mais tempo, leia o artigo todo sff.)

quinta-feira, abril 14, 2005

Educar - Uma questão de Ser

Até meados do século a educação referia-se a um período da vida, ao período escolar. Fazíamos um curso, na melhor das hipóteses um curso universitário, para "nos prepararmos para a vida". E depois de recebermos o diploma, considerávamo-nos preparados e íamos viver.
A existência humana dividia-se em duas partes, a da educação e a da vida. Hoje e a partir da evolução da segunda metade do século, sabemos que não é assim. Entendemos a educação como processo permanente da vida toda, desde que nascemos até que morremos, através das suas diferentes fases, de crianças, de jovens e de adultos.
Nesta perspectiva, o que é educar? Em primeiro lugar, não é ensinar. Ensinar é uma função importante, continua a ser importante, mas não é, de longe, a fundamental. Porque, em educação o essencial não é transmitir conhecimentos mas criar condições para que as pessoas cresçam, se desenvolvam, sejam, até se realizarem em plenitude. Educar, portanto, abarca imensamente mais do que ensinar. Não se trata de obter conhecimentos, mas de crescer em todas as dimensões da vida. Não é, portanto, uma questão de ter, de ter conhecimentos que se transmitem e se adquirem como nas transações de uma feira de trocas, que se vendem e se compram como numa grande superfície comercial, cuja propriedade se defende como acontece com os direitos de autor ou com as patentes. Não é objectivo de uma pedagogia bancária, mas de uma pegadogia problematizadora (Paulo Freire).
Educar é uma questão de Ser. E de crescer. A partir daquilo que recebemos pelo nascimento, (latim nascere, natum), do que somos por natureza, e das condições favoráveis que nos possam ser criadas, e através do desenvolvimento e do exercício de todas as nossas capacidades, crescer até atingirmos a plena realização como pessoa, como cidadão, como profissional.

José Ribeiro Dias, "A Educação na viragem do milénio: De Edgar Faure a Jacques Delors. Ensaio de enquadramento conceptual" in Educação: Caminho para o séc. XXI - Actas do I Colóquio de Filosofia da Educação.

quarta-feira, abril 13, 2005

What is the meaning of the rise in popularity of philosophy?

Where's Stephen?" asks Michael Lacewing, scouring the emptying hall. "Ah," he says, spotting his star speaker, "surrounded by six girls - as usual." It's six schoolgirls to be precise, but Lacewing is not trying to be sardonic.
Stephen Law may have huge teen appeal, but he has children of his own and the stage he has just vacated was used for nothing more lascivious than a talk to sixth formers, for Law is a university lecturer and author of two successful books of philosophy for younger readers, The Philosophy Files and The Outer Limits.
Law is but one public face of a remarkable increase in the popularity of philosophy among 16- to 18-year-olds. At the last sitting, 23% more students were answering questions about the theory of knowledge, Plato's Republic or Marx and Engels's The German Ideology in the intermediate philosophy AS examination than in the year be fore. At the same time, 19% more than in 2003 were writing about the philosophy of mind, Aristotle's Nichomachean Ethics or Nietzsche's Beyond Good and Evil for the final A2 exam.
What explains philosophy's increasing popularity? Lacewing is a university lecturer whose company, A-level Philosophy, organises conferences (which I sometimes speak at) for the growing number of students and teachers taking the subject. He thinks it's just a matter of supply catching up with demand. "The meaningful questions of life have always exercised the adolescent mind," he says. "What has changed is the opportunity to express that curiosity."
Graveney, a multi-ethnic comprehensive in Tooting, south London, is a case in point. Until three years ago, when the first 14 teenagers took the new AS course, philosophy wasn't even available. Now, the school has 56 students taking the subject, plus a further 52 taking a philosophy A-level by another name by studying critical thinking or by taking the philosophy of religion and ethics options in religious studies.
The head of philosophy at Graveney, Rebecca Woodhall, says that the subject is "seen as being intellectually macho". Her students confirm this. Sam Watson, who was first turned on to philosophy by The Matrix films, says, "I thought I wasn't being challenged enough before I took philosophy." Lisa Mellany enjoys it because "I really like arguing" and, as her friend Ruth Taylor says, "in philosophy your opinion's worth something".
The subject also has the unusual merit of being interesting for its own sake. "With some subjects you're learning things to write down in exams," says another Graveney student, Alex Crede. "But in philosophy what you're learning you actually find interesting, which makes a change." So
interesting that, as Jim Turner says, "you can leave a philosophy lesson talking about what you did".
These reactions would not surprise Anthony O'Hear, director of the Royal Institute of Philosophy. "I would be inclined to say that philosophy is perennially interesting to young people because it deals with questions many puzzle about in their youth, but which most forget about in the hubbub of adult life." The institute has helped to meet this demand by supplying visiting lecturers to schools, offering grants for conferences, and publishing a journal, Think, aimed at both school students and general readers, which Stephen Law edits.
The philosophy A-level is very different from the philosophy for children (P4C) programmes that have periodically grabbed the attention of the media. P4C is aimed at younger children, from primary school upwards, and centres on a process called "Socratic dialogue" rather than the texts and arguments of the western philosophical tradition. The aim of P4C is to develop critical thinking skills and the ability to discuss issues in groups. While the A-level shares these aims, it is also a pretty heavyweight introduction to the arguments of the greats, from Plato to John Rawls. There is no messing with gentler introductions such as Sophie's World or Alain de Botton.
For the AS examination, theory of knowledge, which deals with the fundamental questions of what knowledge is and whether we know anything at all, is compulsory. This is real, in-at-the-deep-end stuff. You may have no clue what the difference is between foundationalism and reliabilism, or what it means to say knowledge is justified true belief, but plenty of 17-year-olds are perfectly conversant with these ideas, even if it is the part of the course they tend to enjoy the least.
In addition, students choose between moral philosophy and the philosophy of religion, options that tend to fire their enthusiasm because they relate to questions every curious and intelligent teenager asks: Is there a God? Why should I be good? Should I eat meat? They also study a classic text by Plato, Descartes, Marx and Engels, or Sartre.
At A2 level, they will move on to the philosophy of mind, political philosophy or the philosophy of science; study another text by Aristotle, Hume, Mill, Nietzsche, Russell or Ayer; and undertake an extended synoptic essay, in which they draw together related threads of the course according to their own interests.
For those hidden philosophy students who are nominally taking religious studies but in reality are focusing entirely on studying ethics and the philosophy of religion, the syllabus is just as demanding, though perhaps more accessible, due to the absence of the set texts and the theory of knowledge. Issues such as the ethics of abortion, euthanasia and animal rights are guaranteed to spark interest among the students. They also grapple with the arguments for the existence of God and the problem of how a benevolent deity could allow needless suffering, such as that caused by the Asian tsunami.
The interest of sixth formers is being sustained through to the point at which they apply to university. Data from the Universities and Colleges Admissions Service shows that overall applications to philosophy degrees rose by 20% between 2000 and 2003, the last year for which admissions data is available, compared with a 7.8% rise for applications in general. Between 2002 and 2003, philosophy applications went up by 15.5%, compared with 3.3% for all subjects.
Brendan Larvor, head of philosophy at the University of Hertfordshire, says he is seeing "more and more students who have done philosophy A-level" among applicants. He sees this as a welcome development, because "most other philosophy undergraduates spend the first year wondering what philosophy is and whether they like it".

Julian Baggini, editor of The Philosopher's Magazine
Tuesday April 5, 2005 in The Guardian

terça-feira, abril 12, 2005

De Olhos Abertos...

"Contudo, nem sempre as coisas são tão más como aparentam ser e não é justo catalogar as pessoas com determinadas instabilidades emocionais como sendo não normais e necessitarem automaticamente de tratamento psicológico, psiquiátrico (...) Às vezes uma conversa ajustada, (...) podem ser mais eficazes do que horas e horas a remexer num passado enterrado. É para isso que serve o Aconselhamento Filosófico."

Amândio Fontoura e Conceição Sampaio
são os autores do 1º Livro em Português sobre
Aconselhamento Filosófico, intitulado De olhos abertos... para uma Filosofia de Bem-Estar, Editora Hugin, 2004.

sábado, abril 09, 2005

Investigação

Parece assim que as nossas convicções ou «opiniões filosóficas» não têm tempo para entrar longamente em diálogo com os grandes génios da tradição filosófica, em virtude da urgência das decisões concretas que a vida nos impõe. Mas o dilema que resulta desta situação volta a colocar-nos perante novos problemas. Ou temos que atrasar indefinidamente, por assim dizer até ao fim da vida, a tomada de posição sobre as grandes ideias que não só nos fazem compreender a existência, mas nos permitem orientá-la e vivê-la, ou devemos a seu respeito decidir-nos numa meia obscuridade, sem verdadeiro conhecimento de causa e sem um processo suficientemente instruído.
No primeiro caso, transforma-nos-íamos pouco a pouco em boas cabeças pensantes, mas paralelamente a nossa existência vivida desenvolver-se-ía muitas vezes de modo não filosófico, como que à margem do trabalho filosófico. No segundo caso, a exigência do filósofo aproximar-se-ía da do homem comum, para o qual as opiniões existenciais - isto é, as convicções em função das quais a vida concreta se orienta diariamente - se formam sob o impacto de elementos menos racionais do que afectivos ou empíricos.
O prolongamento destas considerações de ordem geral leva-nos a compreender que esta alternativa, que não tem nada de fictício apresenta uma saída aceitável. É o devir temporal e progressivo do homem, do filósofo, no seu vaivém entre a existência vivida e o pensamento. Um verdadeiro caminho de pensamento nunca se traça de modo puramente solitário, sem o diálogo com o pensamento de outros, nem nunca totalmente à maneira de fiel copista e comentador. Quanto a este diálogo com as filosofias que nos precederam ou que nos acompanham, é preciso acrescentar que cada um de nós entra nele na medida das suas possibilidades. É precisamente aqui que é válido o adágio escolástico «quidquid recipitur ad modum recipientis recipitur». Diremos que esta resposta é a do bom senso, em função da qual aparece a dupla conotação utópica dos dois modos da alternativa apresentada. É efectivamente utópico pensar que se possa filosoficamente esperar até ao fim da sua vida para tomar uma decisão acerca dos valores em causa na própria existência. Mas também é utópico julgar que, no caso da filosofia, esta decisão possa ser tomada irracionalmente ou pseudo-racionalmente, sem um sério confronto com o pensamento filosófico anterior.

Michel Renaud in "O Ponto de Partida das Meditações Cartesianas de Husserl", Revista Portuguesa de Filosofia, tomo 40, Actas do II Colóquio Português de Fenomenologia, 1985 [4], 198 pp.

sexta-feira, abril 08, 2005

Inteligência Espiritual

O QEs é uma capacidade tão antiga como a Humanidade, mas o conceito só foi totalmente desenvolvido pela primeira vez neste livro. Até agora a ciência e a psicologia científica têm tido dificuldades em discutir o sentido e o seu papel nas nossas vidas. A inteligência espiritual tem sido uma coisa estranha para os académicos porque a ciência existente não está equipada para estudar coisas que não possam ser medidas objectivamente.

Existem na verdade provas cientificas do QEs nos recentes estudos neurológicos, psicológicos e antropológicos da inteligência humana. Os cientistas já fizeram a maior parte da investigação básica que revela as fundações neurais do QEs, mas o paradigma do QI dominante obscureceu as investigações posteriores. Este livro irá reunir quatro correntes de investigação especifica que até agora permaneceram separadas devido à natureza altamente especializada da ciência existente.

Primeiro, no início dos anos 90, a investigação levada a cabo pelo neuropsicólogo Michael Persinger, e mais recentemente, em 1997, pelo neurologista V.S.Ramachadran e a sua equipa da Universidade da Califórnia, sobre a existência de uma "área de deus" no cerebro humano. Este centro espiritual incorporado situa-se entre as ligações neurais nos lobos temporais do cérebro. Em scans tirados com topografia através da emissão de positrões, essas áreas neurais iluminam-se sempre que os sujeitos a investigação são expostos a discussões sobre temas espirituais ou religiosos.

Segundo, o trabalho do neurologista austríaco Wolf Singer, nos anos 90, sobre o "problema da ligação", mostra que há no cérebro um processo neural com vista a unificar e dar sentido à nossa experiência - um processo neural que literalmente "liga" as nossas experiências. Antes do trabalho de Singer sobre a unificação e oscilações neurais síncronas em todo o cérebro, os neurologistas e cientistas cognitivos só reconheciam duas formas de organização cerebral neural.
Uma destas formas, as ligações neurais em série, é a base do nosso QI. Os tractos neurais ligados em série permitem que o cérebro siga regras, que pense lógica e racionalmete, passo a passo. Na segunda forma, a rede de organização neural, feixes de mais de cem mil neurónios estão ligados de uma forma acidental a outros feixes maciços. Estas redes são a base do QE, a nossa inteligência ligada à emoção, que reconhece padrões e constrói hábitos.....O trabalho de Singer sobre as oscilações neurais unificadoras oferece a primeira sugestão de uma terceira espécie de pensamento, de um pensamento unificador, acompanhado de um terceiro modo de inteligência, o QEs, que pode lidar com estas questões.

Terceiro, na sequência do trabalho de Singer, o trabalho de Rodolfo Llinas, em meados de 90, sobre o sono e a consciência desperta e a ligação dos factos cognitivos no cérebro, foi muito favorecido pela nova tecnologia MEG (magno-encefalográfica), permitindo estudos em todo o crânio dos campos eléctricos oscilantes do cérebro e dos seus campos magnéticos associados.

Quarto, o neurologista e biólogo antropólogo Terrance Deacon publicou recentemente novos trabalhos sobre as origens da linguagem humana (The Symbolic Species, 1997). Deacon mostra que a linguagem é uma actividade unicamente humana, essencialmente simbólica e centrado no sentido que co-evoluiu com rápido desenvolvimento nos lobos frontais do cérebro. Nem os computadores existentes, nem sequer os macacos mais evoluídos (com raras e limitadas excepções) conseguem usar a linguagem, porque lhes falta a capacidade do lobo frontal para lidar com o sentido. Este livro irá mostrar que todo o programa de investigação de Deacon para a evolução da imaginação simbólica e o seu consequente papel no cérebro e evolução social corrobora a faculdade da inteligência a que chamamos QEs.

Danah Zohar e Ian Marshall in Inteligência Espiritual

Leitura sugerida pela Beatriz, à qual agradeço muito :)

quinta-feira, abril 07, 2005

«Fundamentos para uma Reflexão Ética em Merleau-Ponty»

Para quem goste de Merleau-Ponty e de António Damásio, deve consultar um excelente artigo do Dr. Jorge Dias aqui e ler outros igualmente interessantes na Metacrítica.

"A distinção entre doenças do cérebro e da mente, entre problemas neurológicos e psicológicos ou psiquiátricos, é uma herança cultural infeliz que penetra na sociedade e na medicina e reflecte uma ignorância básica entre o cérebro e a mente. As doenças do cérebro são vistas como tragédias a quem não se pode atribuir culpas, enquanto que as doenças da mente, no comportamento e nas emoções, são vistas como inconveniências sociais nas quais os doentes têm muitas responsabilidades. Aqui, a falta de força de vontade é o problema primário".
Cfr. António Damásio, O Erro de Descartes, p.60.

segunda-feira, abril 04, 2005

Psitacismo

1. Perturbação psiquíca que consiste em repetir as palavras sem ter em mente as idéias por elas representadas.
2. Palavreado inútil verborréia
3. Processo de aprendizagem por memorização apenas.

quinta-feira, março 31, 2005

Ciências Cognitivas

Do latim cognitio, de cognoscere, «conhecer».
A expressão está no plural porque se refere a saberes recentes, diversos e, ainda agora, mais ou menos fechados. Se agruparmos, apesar de tudo, esses saberes sob uma certa denominação, é porque têm um objecto comum: a cognição, ou seja, a função psíquica que assegura a recolha, o armazenamento, a transformação e o tratamento das informações que recebemos do mundo exterior, e a partir das quais elaboramos o conhecimento do real. Perceber, raciocinar, aprender, lembrar, falar… são actividades que suscitam interrogações e análises desde a Antiguidade.
Durante muito tempo objectos privilegiados da reflexão filosófica, estas actividades deram origem progressivamente a saberes especializados na investigação de uma ou outra de entre elas, ou de uma ou outra das faculdades humanas das quais depende a sua possibilidade: as neurociências (neurologia, neurofisiologia…), a psicologia, a linguística, às quais se acrescenta hoje a informática, que fornece ao estudo dos mecanismos do pensamento o modelo da «inteligência artificial». O projecto de unificação que leva a qualificar de ciências cognitivas o conjunto dos discursos que tentam descobrir as características e condições de possibilidade da faculdade de conhecer, só se baseia no postulado até certo ponto. Novas ligações poderiam ser evidenciadas entre os diferentes suportes e características dessa faculdade, principalmente no que diz respeito à parte de mistério – que continua a cercar a passagem do cerebral ao mental – que poderia ser reduzida. Como é que o cérebro pode produzir pensamento e conhecimento? Eis, no fundo, a questão para a qual as ciências cognitivas ambicionam encontrar um dia uma resposta única. É a amplitude desta ambição que motiva o procedimento unificador de alguns, ao passo que outros duvidam que o conhecimento do cérebro possa alguma vez reunir-se ao das actividades mentais tais como as entendem a filosofia e as ciências humanas.

quarta-feira, março 30, 2005

As Ciências

Do latim «scietia», derivado de scire, «saber». No seu sentido lato é sinónimo de saber em geral e mesmo de habilidade técnica. Nos gregos epistemé, é um conhecimento simultaneamente eminente (um saber superior), universal (opõe-se ás particularidades) e teórico (difere das aptidões práticas); para os gregos a Filosofia é essa ciência suprema. Para os modernos é um conhecimento científico positivo (a «ciência experimental»), que se apoia nos critérios precisos de verificação permitindo uma objectividade dos resultados.

A filosofia das ciências (ou epistemologia) enuncia alguns problemas:

1. O problema da demarcação. Como é que reconhecemos que um conhecimento é científico? A resposta mais simples é: na possibilidade de o controlar através de factos pela experimentação. Dispomos então de um critério de distinção entre ciência e não ciência. Por exemplo, a filosofia não seria uma ciência, contrariamente ao que pensavam os Gregos, porque os seus argumentos, mesmo racionais, escapam ao conteúdo experimental.
2. A unidade da ciência. Devemos falar da ciência ou das ciências? Existem várias especialidades científicas, a ciência é portanto múltipla nos seus objectos. Mas possui uma unidade de método, sem a qual não poderíamos definir um critério geral que distinga a ciência da não ciência.
3. A classificação das ciências. A unidade do método não impede de classificar as ciências segundo o seu objecto; ex: o quadro enciclopédico de August Comte (positivismo). Por outro lado, essa unidade, apenas diz respeito às ciências experimentais. Não existirão outros tipos de ciências?
Podemos efectivamente distinguir 3 tipos de ciências:
a) As ciências experimentais ou empíricas. Referem-se a um dado objecto na experiência e validam-se através de controlos experimentais.
b) As ciências «formais». São a Matemática e a Lógica, baseadas na dedução a partir de axiomas. Nesta área, não há qualquer necessidade de verificação experimental. Podemos até mesmo discutir aqui o nome de «ciência» visto que, puramente formal, a Matemática e a Lógica não tem objecto exterior à sua construção.
c) As ciências humanas (Filosofia, História, Sociologia, psicologia, etc.). O seu estatuto é bastante controverso. Ou consideramos, com o positivismo que, se merecem o nome de ciências, podemos aplicar-lhes os métodos e a linguagem da ciência experimental: reduzem-se então a um caso especial desta última, ao lado das ciências da natureza. Ou pensamos, ao contrário, com o filósofo alemão Dilthey (1833-1911), que há motivos para distinguir entre «ciências da natureza» e «ciências do espírito» e portanto que, em virtude da particularidade do seu objecto (o homem), as ciências humanas dependem de um outro tipo de processo, fundado não sobre a verificação experimental, mas sobre a interpretação das intenções humanas (hermenêutica).

terça-feira, março 29, 2005

Fenomenologia

Do grego phainomenom, «o que se mostra», e logos «discurso»,«ciência» - Ciência dos Fenómenos.
O termo fenomenologia aparece na obra de Jean Lambert em 1734, com o sentido de «doutrina da aparência». É em seguida retomado por Kant e sobretudo por Hegel que publica a Fenomenologia do Espírito em 1807. Esta última é a história do desenvolvimento progressivo da consciência, desde a simples sensação até à razão universal ou «saber absoluto». Mas foi com Husserl, à beira do séc. XX, que a fenomenologia nasceu verdadeiramente, não tanto como uma escola ligada a uma doutrina ou a um sistema, mas mais como um movimento de pensamento impondo a si próprio a tarefa, sempre renovada, de descrever o que aparece enquanto aparece, graças a um método: o «método fenomenológico».
Quando a consciência está absorvida na crença das coisas, ingenuamente, ignora a essência do fenómeno (do que nos aparece e não do que se "vê"), e então o método fenomenológico consiste num colocar entre parêntesis, numa suspensão de qualquer crença imediata e ingénua na existência das coisas - a chamada epoké - que é uma redução ou recondução desse mesmo fenómeno à consciência como à sua fonte de constituição.
A consciência deve desde logo ser compreendida como um puro acto de «se lançar na direcção de», que Husserl nomeia de intencionalidade: "Qualquer consciência é consciente de alguma coisa". A redução é dita transcendental (do latim transcendere «passar para além», e que independentemente de qualquer experiência torna possível qualquer conhecimento), porque desvela a consciência, e sem isso os fenómenos não teriam qualquer sentido nem qualquer ser.
Husserl (1859 -1938), deixou como discípulos Heidegger, Merleau-Ponty e Max Scheler.

Ideias

Num debate ou explanação como é que se devem trocar ideias, pressupondo que não hajam verdades absolutas, mas sim algumas certezas científicas bem como outras teorias explicativas a considerar?

No caso do assunto ser rotineiro, fútil ou mesmo banal, a opinião (doxa) serve sempre para percebermos que somos todos diferentes, ou seja, não passando da mera opinião o máximo que podemos conseguir é a simpatia de alguns e a antipatia de outros, o que ultrapassando o plano pessoal não leva a mais nada sem ser o prazer duma conversa leve. A doxata só serve para marcar ponto e fazer conversa. Aqui não há grande exigência ou rigor na conversa. "Ganha" em caso de disputa, claro, o melhor orador. Quando não há disputa, "ganha" o mais simpático.
No caso do assunto ser sério e merecer mais esforço de reflexão, deveremos, se queremos esclarecer alguém, elevar o tom do discurso apelando e recorrendo a teorias explicativas e/ou científicas, como "bengalas" (como já vi chamarem)? Ou manter a opinião (doxa) esperando credibilidade sem argumentos?

É preciso não confundir o respeito que se deve ter pelo outro em toda a sua igualdade e individualidade - enquanto ser humano e pessoa com direitos - com as suas opiniões.

Todos erramos, mas nem todos sabemos reconhecê-lo.

sábado, março 26, 2005

O Espaço Público

Vê-se que o espaço público falta cruelmente em Portugal. Quando há diálogo, nunca ou raramente ultrapassa as «opiniões» dos dois sujeitos bem personalizados (cara, nome, estatuto social) que se criticam mutuamente através das crónicas nos jornais respectivos (ou no mesmo jornal).
O «debate» é necessariamente «fulanizado», o que significa que a personalidade social dos interlocutores entra como uma mais-valia de sentido e de verdade no seu discurso. É uma espécie de argumento de autoridade invisível que pesa na discussão: se é X que o diz, com a sua inteligência, a sua cultura, o seu prestígio (de economista, de sociólogo, de catedrático, etc.), então as suas palavras enchem-se de uma força que não teriam se tivessem sido escritas por um x qualquer, desconhecido de todos. Mais: a condição de legitimação de um discurso é a sua passagem pelo plano do prestígio mediático - que, longe de dissolver o sujeito, o reforça e o enquista numa imagem «em carne e osso», subjectivando-o como o melhor, o mais competente, o que realmente merece estar no palco do mundo.
José Gil, in 'Portugal Hoje - O Medo de Existir'

quinta-feira, março 24, 2005

A Culpa dos Males que nos Acontecem

Em todos os males que nos acontecem, olhamos mais para a intenção do que para o efeito. Uma telha que cai de um telhado pode ferir-nos mais, mas não nos desola tanto como uma pedra atirada de propósito por uma mão maldosa. O golpe, por vezes, falha mas a intenção nunca erra o alvo. A dor física é a que menos se sente nos ataques da sorte e, quando os infortunados não sabem a quem culpar pelas suas infelicidades, culpam o destino, que personificam e ao qual atribuem olhos e uma inteligência disposta a atormentá-los intencionalmente.
É o caso de um jogador que, irritado com as suas perdas, se enfurece sem saber contra quem. Imagina que a sorte se encarniça intencionalmente para o atormentar e, encontrando alimento para a sua cólera, excita-se e enfurece-se contra um inimigo que ele próprio criou. O homem sábio, que em todas as infelicidades que lhe acontecem só vê golpes da fatalidade cega, não tem essas agitações insensatas; grita na sua dor, mas sem exaltação, sem cólera; do mal que o atinge só sente os ataques materiais, e os golpes que recebe podem ferir a sua pessoa, mas nenhum atinge o seu coração.
Jean-Jacques Rousseau, in 'Os Devaneios do Caminhante Solitário'

terça-feira, março 22, 2005

Picadelas

Mente-se por tudo e por nada. Mente-se para não incomodar nem afligir, para não se ser demasiado agressivo ou brutal, para não se dar má impressão, para não humilhar o outro; mente-se até para se ser simpático e corresponder ao que o outro ou a situação propiciam.
Notícias Magazine (DN) 2005.01.02
Continuamos a depositar no que se passa fora de nós expectativas enormes e a depreciar o que, bem instruídos e dentro de nós, podemos fazer com o que nos incomoda. Esta externalização excessiva, este quase vício de culpar alguém, penhora o futuro, obedece a uma trama, criteriosa e deliberada, de nos sentirmos sempre pequenos e desamparados, dependentes dos outros.
Notícias Magazine (DN) 2005.01.16

sábado, março 19, 2005

A Moralidade que Liberta

A evolução da humanidade produz a substituição dos instintos e dos impulsos por uma vontade que procura a justiça, por uma vontade que se quer livre e que procura o bem. Por isso é que o direito, fruto da razão, só existe na sociedade humana.
O progresso e o desenvolvimento das sociedades e da vida humana, são fruto do espírito que, consciente do seu próprio fim, procura a justiça e o bem. A evolução mede-se pela virtude moral, porém, a existência, por si só, do direito é algo meramente formal, pois o seu valor reside no grau de aprofundamento das consciências individuais.
À medida que a consciência moral se aprofunda, as acções não são feitas por mero dever mas são guiadas por um querer profundo e íntimo da própria vontade. Não se trata de um mero respeito pela lei, nem de estar apenas em conformidade com ela, mas do querer fazer íntimo que resulta da sua vontade própria. Deste modo, a lei moral perde o carácter de obrigação e transforma-se em puro querer, pura liberdade.

quarta-feira, março 16, 2005

Filosofia Prática

Ser filósofo não é apenas ter ideias subtis, nem mesmo fundar uma escola... É resolver alguns dos problemas da vida, mas em termos práticos.
Henry David Thoureau

Praticar a Filosofia é sondar o temperamento pessoal mas é também, e simultaneamente, uma tentativa de descoberta da verdade.
Iris Murdoch

segunda-feira, março 14, 2005

Insiste Em Ti Mesmo

Insiste em ti mesmo; nunca imites. A todo o momento, podes exibir o teu próprio dom com a força cumulativa de toda uma vida de estudo; mas do talento imitado de outro tens apenas posse parcial e momentânea. Aquilo que cada um sabe fazer de melhor só pode ser ensinado por quem o faz. Ninguém sabe ainda o que seja, nem o pode saber, enquanto essa pessoa não o demonstrar. Onde está o mestre que pudesse ter ensinado Shakespeare? Onde está o mestre que pudesse ter instruído Franklin, ou Washington, ou Bacon, ou Newton? Todo o grande homem é único.

Ralph Waldo Emerson, in 'Essays'

Tornamo-nos Mais Objetivos Depois de Reconhecermos a Nossa Subjectividade

Toda a arte da psicologia ou da ciência da psicologia, se lhe quisermos chamar assim, é baseada numa inversão do processo de objectividade. Não que não possamos tornar-nos objectivos, mas que apenas possamos tornar-nos objectivos depois de termos confrontado as nossas atitudes não objectivas, as nossas atitudes não racionais. Atingir uma objectividade honesta significa termos de saber quais os pontos da nossa natureza que são propensos a determinado preconceito, que parte de nós é defensiva, que parte de nós distorce o que ouvimos. E é necessária uma tremenda auto-honestidade para começar a remover essas distorções e a clarificar a nossa visão. De modo que só podemos atingir a objectividade depois de termos descoberto quais as áreas da nossa psique que não são objectivas.
Além disso, o reconhecimento básico da psicologia é que, lá bem no íntimo, a maior parte da nossa vida é desconhecida da mente consciente e que, quanto mais nos tornamos consciente dela, mais honestos e mais objectivos nos podemos tornar. Nós não vemos os outros com clareza, e o que obscurece a nossa visão são os preconceitos que a pessoa supostamente objectiva se recusa a reconhecer. Uma pessoa objectiva diria que não é responsável pela guerra, mas uma pessoa que sabe psicologia sabe que cada um de nós é responsável porque cada um de nós tem sempre uma área de hostilidade, que depois é projectada para hostilidades colectivas mais vastas.

Anais Nin, in 'Fala Uma Mulher'

domingo, março 13, 2005

Abrangência Literária

Lembremo-nos que a literatura, porque se dirige ao coração, à inteligência, à imaginação e até aos sentidos, toma o homem por todos os lados; toca por isso em todos os interesses, todas as ideias, todos os sentimentos; influi no indivíduo como na sociedade, na família como na praça pública; dispõe os espíritos; determina certas correntes de opinião; combate ou abre caminho a certas tendências; e não é muito dizer que é ela quem prepara o berço aonde se há-de receber esse misterioso filho do tempo - o futuro.

Antero de Quental
in 'Prosas da Época de Coimbra'

Influências

O ambiente e as pessoas que nos cercam são, definitivamente, aquilo que mais influencia o optimismo ou o pessimismo.

Inês Menezes, in Xis (Público)

sexta-feira, março 11, 2005

J. B. Schneewind on the Importance of Context


Context is indeed vital if we are to be historically careful about the meanings of the assertions of past philosophers. For undergraduates, context has an additional kind of importance. Explaining the different sorts of practical problems in which philosophers hoped to make a difference helps students see that what they are reading was not intended to be of merely academic interest. Philosophy nowadays does not have a large appeal to the public, not even to the undergraduate public. If we are to make the history of moral philosophy significant now for students, we need to show them that it mattered in its own time for reasons that went beyond the classroom. What that suggests is that moral philosophy might be as important now as it was then.
(J. B. Schneewind, “Teaching the History of Moral Philosophy,” in Teaching New Histories of Philosophy, ed. J. B. Schneewind [Princeton: The University Center for Human Values, 2004], 177-96, at 191)
Retirado de: Anal Philosopher (só pelo nome vão lá todos... vale mesmo a pena! :)

quarta-feira, março 09, 2005

Comunicação

Muitas vezes não entendemos o significado profundo das coisas porque as retiramos do seu contexto e não percebemos o simbolismo da linguagem.
Isabel Stilwell
in Notícias Magazine (2005.02.27)

Educação

A educação não gera o desenvolvimento. Só a boa educação o faz. A má, aqui como em tudo, é apenas um desperdício de tempo e recursos. A principal diferença entre a boa e a má educação é o bom senso.
João César das Neves
in Diário de Notícias (2005.03.07)

sábado, março 05, 2005

Pensamentos roubados II

Quando se abusa da máscara e ela se cola à pele é uma segunda cara que surge, falsa, a baralhar o espelho e a vida.
Do Jorge.

estou [eu] em máscara [disfarce]
e que dizem dela [escrita] ressalta
ilusão, [sei] talvez ficção [ou orgia]
de tons e toques, de cara em guerra
que se põe [disfarça]… nesta escrita
realça [bela] como só tu [essência]
mas[cara]
© de[mente]

sexta-feira, março 04, 2005

Manuel de Arriaga (n.08.07.1840-f.05.03.1917)

Amanhã comemora-se os 88 anos da morte de Manuel de Arriaga.
Manuel José de Arriaga Brum da Silveira é o 1.º presidente constitucional da República Portuguesa (de 1911 a 1915);
Advogado distinto, poeta, escritor e antigo deputado.
N. na cidade da Horta, na ilha do Faial; era filho de D. Sebastião de Arriaga Brum da Silveira e de D. Maria Cristina de Arriaga Caldeira.
Matriculado no Universidade de Coimbra, na faculdade de direito, fez um curso brilhantíssimo, afirmando-se logo nas lições dos primeiros anos como tribuno, revelando as mais distintas qualidades oratórias a par de não menores qualidades de talento. Esta afirmação parte do segundo ano do curso, quando uma vez, como premiado, deu uma lição a respeito dos direitos do infante D. Miguel de Bragança, direitos que o jovem estudante, valendo-se de todos quantos argumentos pôde, combateu fortemente. Desde os primeiros anos da sua mocidade, habituou-se a um incessante e aturado trabalho, leccionando em Coimbra, conseguindo assim a muito custo, não só fazer a sua formatura, como ainda auxiliar seu irmão mais novo até ao 3.º ou 4.º ano. Terminando o curso, o Dr. Manuel de Arriaga veio para Lisboa e abriu banca de advogado, e, com a fama que já o acompanhava, facilmente se tornou bem conhecido pelas causas de que se encarregava com a maior felicidade, sendo considerado como um dos melhores advogados de Lisboa. A sua fama de tribuno também se tinha acentuado de forma que a cidade do Porto o mandou convidar para orar num comício, ao que ele acedeu, sendo na cidade invicta o alvo das mais vivas demonstrações de simpatia. O Dr. Manuel de Arriaga apresentou-se num concurso para a 10.ª cadeira da Escola Politécnica, e publicou em 1866 a sua dissertação: Sobre a unidade da familia humana debaixo do ponto de vista economico. Fez concurso também para uma cadeira de história no actual Curso Superior de Letras, mas foi preterido por outro candidato. Durante alguns anos regeu a cadeira de inglês no Liceu de Lisboa, onde exerceu com distinção várias comissões; foi um dos vogais da comissão criada por decreto de 26 de Agosto de 1876, para a reformada instrução secundária, e o seu projecto ficou aprovado na generalidade pelo conselho do liceu; está inserto na colecção de respostas mandada publicar pelo governo no ano de 1877.
Ao congresso jurídico reunido em 1889, celebrando as suas sessões plenárias na sala da biblioteca da Academia Real das Ciências, apresentou o relatório de que fora relator: These – O systema penitenciario, quando exclusivo e unico, abrangerá os phenomenos mais importantes da criminalidade, e não os abrangendo, converter-se-ha, numa instituição contraproducente e nefasta? O relatório foi publicado nesse referido ano.
O Dr. Manuel de Arriaga pertenceu ao partido republicano, a que prestou os mais relevantes serviços. Foi um dos seus propagandistas mais entusiastas e eloquentes, e por diversas vezes tendo sido eleito deputado. Os seus discursos foram notáveis, não só pelo brilho e elegância da forma, como pela grande elevação das ideias. Sendo eleito pela ilha da Madeira, advogou tão acertadamente os interesses daquele círculo, que os madeirenses declararam que havia muitos anos não tinham tido em cortes representante mais desinteressado e dedicado. Escreveu muitas poesias apreciáveis, estando umas publicadas e outras ainda inéditas. Também escreveu uma dissertação sobre a necessidade da intervenção das ciências naturais na história universal dos povos para assentá-la em bases positivas e dar-lhe um carácter verdadeiramente científico, a qual foi publicada em 1878.
A política e a advocacia distraíram-no da sua grande vocação para as letras. Não houve um só clube, uma só associação democrática, em que o Dr. Manuel de Arriaga não tenha orado nas suas sessões, sendo sempre escutado com o maior interesse. Também está publicado o discurso que o distinto orador proferiu na câmara dos deputados, na sessão de 23 de Junho de 1890, sobre a questão inglesa.

Obras Principais:
Distinguiu-se principalmente como advogado e orador. Alguns dos discursos políticos ficaram célebres, nomeadamente "O Partido Republicano e o Congresso", pronunciado no Clube Henriques Nogueira em 11 de Dezembro de 1887, "A Questão da Lunda", na Câmara dos Deputados em 1891, "Descaracterização da Nacionalidade Portuguesa no regime monárquico", em 1892, na mesma Câmara, "Começo de liquidação final", "A irresponsabilidade do poder executivo no regime monárquico liberal", e tantos outros. Contos Sagrados, Irradiações e Harmonia Social, constituem exemplos da sua obra como filósofo e poeta.
A experiência como Presidente da República é-nos contada na sua última obra, escrita após a experiência presidencial, intitulada Na Primeira Presidência da República Portuguesa.

quinta-feira, março 03, 2005

Limites

Tal como a tolerância encontra o seu meio termo entre o indiferentismo e o absolutismo, arriscaria defender que também a melhor forma de um professor educar/formar/ensinar, oscila entre estes dois princípios.
Digo a melhor forma - num plano ideal, porque há limites (num plano real) que um professor sabe que não deve, nem pode passar. Este meio termo que deveria ser procurado, muito poucas vezes o é. Poucos professores têm uma verdadeira preocupação pelos alunos e se entregam à causa dispendendo do seu próprio tempo. Mesmo dentro das aulas, e é aqui que quero chegar, poucos se preocupam em fazer mais do que desbobinar matéria. A verdade é que não se pede mais do que isso, mas se se quer formar verdadeiramente jovens para uma profissão e para a vida, a atitude a tomar não pode ser esta.
Tempos em que as pessoas vinham bem preparadas de casa já fazem parte do passado, fruto dos condicionalismos da época - agora o processo actual é outro, de constante informação e de pouca base.

quarta-feira, março 02, 2005

Jean-Paul Sartre (1905-1980)

Sartre foi um dos filósofos mais emblemáticos da 2ª. metade do século XX. Foi professor de Filosofia, em pequenos liceus de província, em França. Logo a seguir à 2ª Guerra Mundial aparece como um dos principais criadores do existencialismo ateu, destacando-se também como romancista, dramaturgo e activista político. Após uma aproximação aos países comunistas, afastou-se das suas posições em 1956, aquando da revolta na Hungria. A sua acção política torna-se então mais individualista. Em 1967 preside ao "Tribunal Russel" e em 1970, assume em França a direcção de algumas publicações de extrema-esquerda. Ao longo da sua vida, foi acusado inúmeras vezes de assumir posições contraditórias com as suas próprias ideias.

Dostoievsky escreve: "Se Deus não existisse, tudo seria permitido".
Aí se situa o ponto de partida do existencialismo. Com efeito, tudo é permitido se deus [qualquer deus] não existe, fica o homem, por conseguinte, abandonado, já que não encontra em si, nem fora de si, uma possibilidade a que se apegue. Antes de mais nada não há desculpas para ele. não há determinismo, o homem é livre, o homem é liberdade.Se deus não existe, não encontramos diante de nós valores ou imposições que nos legitimem o comportamento. Assim, não temos nem atrás de nós, nem diante de nós, no domínio luminoso dos valores, justificações ou desculpas. Estamos sós e sem desculpas.
Jean-Paul Sartre, in O Existencialismo é um Humanismo

Ler mais qualquer coisinha aqui e aqui, sob a orientação da professora Magda Carvalho, actualmente docente da Universidade dos Açores. Mais sobre o existencialismo ali.

Sartre nasceu há 100 anos

Os seus amigos ainda vivos recordam a sua capacidade de dialogar de forma brilhante sobre qualquer assunto, à mesa do Café de Flore, o célebre poiso dos existencialistas que ainda hoje é visitado. Um galã, Sartre era capaz de seduzir as suas interlocutoras (alunas, colegas de faculdade, jornalistas, escritoras) ao fim de poucos minutos de conversa. Apesar de alguns defeitos físicos visíveis, Sartre tinha à sua volta uma corte permanente de admiradoras e nunca escondeu de que forma o fascinava o «continente feminino».

terça-feira, março 01, 2005

Pensamentos roubados

Hoje cheguei à conclusão de que sou milionária nestas quatro paredes do meu quarto. Milionária de ar puro, de sossego, de amor. É muito importante, pelo menos para mim, ser milionária disto tudo. Não me interessam os prédios, as notas ou as moedas. Apenas isto que acabo de dizer.

É bonito, não é?

Da menina que gosta de chocolates e que não gosta que olhem para ela.

segunda-feira, fevereiro 28, 2005

Porque achei importante...

... no caso de algum médico ou futuro médico passar por cá, e porque nunca é demais.
Já tinha pensado escrever sobre isto, mas o tempo nunca é muito, contudo, hoje ao folhear a Única do Expresso encontrei uma crónica de Rui Henriques Coimbra sobre o assunto, e quero acrescentar mais qualquer coisinha.
Diz-nos o mencionado senhor, que há uma panóplia de medicamentos que se obtém por receita médica e que são usados para outros fins - é o chamado «Pharming: actividade prosseguida por quem quer obter estados mentais artificiais através do consumo farmacológico. Colheita de prazeres químicos.» Por outras palavras: o netinho rouba os medicamentos do avôzinho esclerosado e apanha boleia para o mundo da felicidade em self-service.
A gravidade da coisa é que são drogas legais e receitadas com facilidade demais por parte da classe médica.
Alguns exemplos mencionados na dita crónica passam pelo Oxy-Contin que é um opiácio em forma de comprimido branco que funciona progressivamente quando é engolido inteiro e retira as dores. Se for cheirado depois de esmigalhado, a sequência científica é alterada, misturada e o Oxy-Contin passa a ser sentido como escape mental e cria logo dependência. Além deste, temos ainda o Vicodin, o Xanax, o Valium, o Lortab, o Percocet e o Adderall - também conhecido pela «cocaína dos putos» porque é usado normalmente para miúdos com défice de concentração (até no South Park já se falou dele).
O que quero acrescentar é o Subutex. Fiz algo parecido com prevenção primária, que é a fase em que se sensibiliza, através de diversas acções/formações/campanhas, o público que nunca consumiu drogas. Em sequência temos a secundária que é a fase em que se tratam os (ex)toxicodependentes, e por fim a terciária que tratará da sua (deles) reinserção social.
Então e com isto, durante o voluntariado, saliento não houve um dos ex-toxicodependentes entrevistados afim de darem a sua opinião e contributo para a prevenção primária, que não me falasse no Subutex e que não o tivesse consumido na fase de dependência.
È esta a realidade em S. Miguel, e garanto-vos que eles não foram aos medicamentos do avôzinho esclerosado, foram ao médico pedi-los, e com uma mentirinha simples lá foram para casa com uma caixa milagrosa que fazia o mesmo efeito que a heroína, e ainda por cima não dava ressaca. O Subutex é um dos possíveis medicamentos usado nos tratamentos mas é usado para consumo desenfreadamente. Deve haver uma forma de controlar isto, ou não?

domingo, fevereiro 27, 2005

Agostinho da Silva (1906-1996)

Agostinho da Silva é dos mais paradoxais pensadores portugueses do séulo XX. O tema mais candente da sua obra foi a cultura de língua portuguesa, num fraternal abraço ao Brasil e aos países lusófonos. Todavia, a questão das filosofias nacionais não é para si decisiva, parecendo-lhe antes uma questão académica: «Não sei se há filosofias nacionais, e não sei se os filósofos, exactamente porque reflectem sobre o geral, se não internacionalizam desde logo».
O problema de que parte é a procura de uma razão de ser para Portugal: «o que eu quero é que a filosofia que haja por estes lados arranque do povo português, faça que o povo português tenha confiança em si mesmo», entendendo por «povo português» não apenas os portugueses de Portugal, mas também os do Brasil, laçados de índios e negros, os portugueses de África, tribais e pretos, como também os da Índia, de Macau e de Timor.
Embarcando num sonho universalista em que os portugueses que vivem apenas para Portugal não têm razão de ser, apresentou-se aos olhos tantas vezes desconcertados dos seus leitores como um cavaleiro do Quinto Império, um reinado do Espírito Santo, respirando um misto de franciscanismo e de joaquimismo e, em todo o caso, obra mais de cigarras que de formigas como era próprio das crianças: «Restaurar a criança em nós, e em nós a coroarmos Imperador, eis aí o primeiro passo para a formação do império», o que é dizer que o primeiro passo dos impérios está sempre no espírito dos homens, aptos para servir, como os antigos templários ou os cavaleiros da Ordem de Cristo.
Partir de crenças como ponto vital e tomar como símbolo preferido que a palavra «crer» parece ter a mesma origem que a palavra «coração», fazendo depois como o Infante, abrindo-se à ciência dos seus pilotos, astrónomos e matemáticos. Tudo dito e defendido com a tranquilidade de quem sabe que até hoje ninguém desvendou os mistérios do mundo e conhece por isso os limites das soluções positivas.
Assim, seria possível valorizar aquilo que a seu ver nos distinguiria como povo e como cultura: um povo e uma cultura capazes de albergar em si «tranquilamente, variadas contradições impenetráveis, até hoje, ao racionalizar de qualquer pensamento filosófico».
Trazer por isso o mundo à Europa, como outrora levámos a Europa ao mundo, tal a missão da cultura de língua portuguesa, construindo o seu domínio com uma base espiritual e sem base em terra, porque a propriedade escraviza e só não ter nos torna livres.

José Marinho (1904-1975)

José Marinho situa-se entre os discípulos de Leonardo Coimbra, empenhado no movimento de reabilitação da «filosofia portuguesa» numa linha profundamente crítica do racionalismo moderno bem como da nossa tradição escolástica e posteriormente positivista. Neste plano de consideração, a sua preocupação marcante foi a de encontrar um espaço para a singularidade da nossa cultura filosófica sem negar a aspiração universal e universalizante da filosofia.
Para Marinho, a humanidade pensa-se necessariamente em cada um dos humanos e daí a noção de uma universalidade singular e concreta, à luz da qual se tornaria possível equacionar o problema de uma filosofia nacional. Não há pensar radicado senão no homem situado, ou seja, não há para Marinho um modelo de racionalidade que desde todo o sempre e para todo o sempre se fixasse no homem, determinando e impondo uma lógica perfeita e única, com regras de pensar que uma filosofia ou toda a filosofia nos obriguem a aceitar, para que possamos usufruir da dignidade humana. Não há por isso uma razão pura, na medida em que importa considerar aquele outro de toda a razão «que do mais fundo solicita o autêntico e real pensamento dos homens».
Por isso, fala-nos de uma «razão sublimada», chamando a atenção para as virtudes da anagogia – nomeadamente no ensino da filosofia concebido como «iniciação» - que, rompendo com o formalismo, atende essencialmente ao mito, à poesia e ao simbolismo, na comum busca da autenticidade humana, que radicando implícita na tradição portuguesa, nomeadamente na nossa poesia e literatura, se trataria de tornar explícita, fundando uma nova tradição e possibilidade de autocompreensão.
Do ponto de vista metafísico e ontológico, situa-se na continuidade da heterodoxia de Sampaio Bruno, superando o dogma cristão da criação pelo tema da misteriosa cisão, princípio lógico sem o qual se tornaria impossível inteligir a alteridade, e que desenvolve na sua mais importante obra, intitulada Teoria do Ser e da Verdade (1961). José Marinho funda ontologicamente todo o existente no que designa por «insubstancial substante», que pressupõe um fundo de enigma, supostamente continuando a nossa tradição cultural do «encoberto».
Para Marinho, o enigma «não é dado para o interrogar fora, (mas) adere radicalmente ao ser que interroga» num quadro de descoberta e encobrimento, possibilitando e desenvolvendo a partir daí o tema da «visão unívoca», ou «ver sem distância».

Leonardo Coimbra (1883-1936)

Os conteúdos doutrinários da sua obra remetem-nos para o conceito de criacionismo, que deu título à sua obra mais importante. O criacionismo afirma-se como uma filosofia da liberdade, radicando nas infinitas capacidades criadoras do pensamento, que dinamicamente se liberta dos determinismos naturais e sociais. Na sua base encontra-se a actividade científica que abordou em duas vertentes complementares.
Por um lado, a ciência representava o «espírito da cultura moderna», constituída na base do «livre acordo», tendo a razão por autoridade única, liberta do autoritarismo de princípios impostos exteriormente à actividade do pensamento. Representava um tipo de acordo que, por ser livre e responsável, considerava como a base de realização do acordo social que pela ascenção do indivíduo psico-social à pessoa, numa dialéctica criadora, geraria a comunidade solidária e livre por que sempre se bateu.
Por outro lado, o modelo de ciência a que se referia nada tinha a ver com o do positivismo. Tratava-se de uma ciência constituída na base da dialéctica nocional do pensamento, ou seja, não incide sobre coisas mas sobre noções ou representações mentais, considerando que a sensação é uma noção psicológica e não um dado e que, como noção que é, não é uma realidade completa mas um momento dialéctico de um processo, numa constante marcha para mais realidade e acréscimo de sentido. É na base deste criacionismo, que começa por afirmar-se inicialmente num plano gnosiológico, que se virá a afirmar a liberdade do homem, pois a realidade não poderá nunca ser deduzida de uma noção sintética superior se essa mesma noção não tiver sido por nós elaborada. Em última análise, a realidade não poderá nunca separar-se da dinâmica do pensamento, não é um conjunto de coisas de que o pensamento se aproprie, mas um conjunto de noções, sempre e já elaborado pela acção criadora do pensamento, num processo em si mesmo ilimitado. Se o espírito se move num conjunto de noções por si elaboradas, então ele é acto criador não se limitando a assimilar e a receber o já feito e o já pensado.
L. C. afirma assim uma dialéctica ascensional que partindo do processo de elaboração das noções científicas nelas se não detém, petrificando ou estagnando, procurando antes elevar-se à constituição da última realidade irredutível, por si definida como a «pessoa moral».
Enquadram-se neste processo dialéctico afirmações célebres de L.C., nomeadamente quando proclama que o homem é livre porque «a vida social lhe permitiu interpor entre a sensação e o acto a demora e a riqueza do pensamento», ou que, «o homem não é uma inutilidade num mundo feito, mas obreiro de um mundo a fazer».
No plano da educação, à qual dedicou a sua actividade política de ministro, compreende-se que mais importante que a «liberdade de ensino», condição sem dúvida necessária, seja a defesa da «liberdade pelo ensino», o que o fez também proclamar que mais importante que a vulgarização do saber era a elevação do vulgo à altura do homem.

Teixeira de Pascoaes (1877-1952)

Teixeira de Pascoaes produziu a partir da experiência existencial da saudade - presente de forma vaga e imprecisa nos seus primeiros textos em verso - uma reflexão, a que subjaz o princípio fundamental de que o ser manifesta uma condição saudosa. Do Ser ao ser, processa-se uma verdadeira queda ontológica, uma cisão existencial, manifestando o mundo, na sua condição decaída, um "pathos universal". Da condição saudosa de ser resulta pois uma condição dolorosa do mesmo ser. Dor de privação, dor de saudade, consciência da finitude, de imperfeição, de insuficiência ôntica.
A experiência da dor pelo homem saudoso, é simultaneamente individual e universal. Por ela o homem–poeta entende o mundo como "uma eterna recordação", percebendo a realidade como evocadora de uma outra realidade mais real que aquela.
A condição dramática da existência manifesta-se assim numa permanente tensão entre Ser e existir. O homem existe num primeiro nível de dignidade ontológica, partilhando pelo corpo o mundo da matéria, e vive pelo espírito. A vida é pois uma eterna aspiração à ultrapassagem da realidade material. A alienação é a situação que resulta da impossibilidade de o homem ser, verdadeiramente. Dividido entre assumir-se como puro espírito ou pura matéria, o homem não é nem pode ser verdadeiramente, oscilando eternamente entre uma e outra condição.
A saudade é uma via para o conhecimento: por ela abre-se uma via para uma mundividencia, uma concepção geral da existência. O "pensamento poético" de Teixeira de Pascoaes é a expressão da possibilidade de conhecimento que se abre pela via da saudade. O conhecimento poético é simultaneamente estético, metafísico e ontológico: estético porque o que lhe é próprio se conhece pelo sentimento, metafísico e ontológico porque o seu horizonte é o da verdade que manifesta um caracter transcendente.

Antero de Quental (1842-1891)

Do ponto de vista filosófico é o maior vulto da Geração de 70, com uma obra que se estende da poesia à prosa, passando por um rico epistolário de grande importância para a delimitação das várias fases do seu pensamento. Nos primeiros anos da sua actividade, Antero foi um pensador instável, conhecendo sucessivas fases de evolução do seu ideário, ora de entusiástico idealismo, ora de negação e descrença, vindo a culminar no final da vida, numa fase de maturidade e serenidade crítica a que correspondem os seus mais profundos textos em prosa, com destaque para A filosofia da natureza dos naturalistas (1886) e sobretudo para as Tendências gerais da filosofia na segunda metade do século XIX. (1890).
Foi também a sua visão moral do mundo que determinou a sua filosofia política, marcada pelo socialismo de Proudhon, mas também por esse dinamismo intrínseco que soube estender ao processo de emancipação dos trabalhadores. A emancipação dos trabalhadores deveria ser obra dos próprios trabalhadores, ou seja, da sua energia moral e da sua dignidade, do seu esforço individual e colectivo. Em todo o caso, o essencial a notar é que a superioridade do socialismo sobre as outras formas de organização das sociedades emanava da sua superioridade moral e não do estado: «Cousa alguma grande e duradoura se fundou ainda no mundo senão pela moral: e, se o socialismo tem de ser uma esplêndida realidade, só o será como um passo mais no caminho da evolução moral das sociedades (...), moralidade, moralidade e sempre moralidade».
Noutra vertente, Antero marcou de forma muito sensível a consciência decadentista que desde a Geração de 70 determinou a existência de uma clivagem no diálogo cultural entre os Portugueses, sobretudo através da sua conferência do Casino Lisbonense, intitulada Causas da Decadência dos Povos Peninsulares (1871), onde mitificou o ideal de uma Europa, pátria da civilização e do progresso, da qual tragicamente nos sentia arredados, tese de que mais tarde se viria a afastar.
Em todo o caso, nessa célebre conferência, identificava os erros de via da história pátria, incapaz de pelo culto das ciências, da liberdade moral e da elevação da classe média matar o beato, o fanático e o jesuíta que teimosamente cada português ocultava.

sexta-feira, fevereiro 25, 2005

Antero de Quental

Eu não conheço fisionomia mais difícil de desenhar, porque nunca vi natureza mais complexamente bem dotada. Se fosse possível desdobrar um homem, como quem desdobra os fios de um cabo, Antero de Quental dava alma para uma família inteira. É sabidamente um poeta na mais elevada expressão da palavra; mas ao mesmo tempo é a inteligência mais crítica, o instinto mais prático, a sagacidade mais lúcida, que eu conheço. É um poeta que sente, mas é um raciocínio que pensa. Pensa o que sente; sente o que pensa.

Oliveira Martins, prefácio d'As Tendências Gerais da Filosofia na Segunda Metade do Séc. XIX de Antero de Quental.

Eu acrescentaria ainda, que mais do que um poeta foi um filósofo inquietante. A sua hermenêutica vivencial está muito bem clarificada por Oliveira Martins, pensa o que sente e sente o que pensa. Nunca se atraiçoa e isso é sem dúvida o mais difícil.

domingo, fevereiro 13, 2005

A Cegueira dos Nossos Pareceres

Contra o nosso parecer, nunca achamos dúvida bastante, contra o dos outros sim. A vaidade é engenhosa em glorificar tudo o que vem de nós, e em reprovar tudo o que vem dos outros: nas produções do engenho há uma espécie de criação; daqui procede que ninguém se desdiz sem repugnância, porque a natureza é inflexível no intento de conservar aquilo que produz, e a vaidade nunca renuncia ao lustre da invenção; queremos produzir muito, e meditar pouco, por isso erramos; mas depois o erro se naturaliza em nós, já o não vemos, senão com a figura da razão.

Matias Aires, Filósofo (1705-1764)
in 'Reflexões Sobre a Vaidade dos Homens e Carta Sobre a Fortuna'

Renunciar à Sede de Poder

Quem não conheceu a tentação de ser o primeiro na cidade nada compreenderá do jogo político, da vontade de submeter os outros para deles fazer objectos, nem adivinhará os elementos de que é composta a arte do desprezo. A sede de poder, raros são os que não a tenham num grau ou noutro experimentado: é-nos natural, e contudo, se a considerarmos melhor, assume todos os carácteres de um estado mórbido do qual apenas nos curamos por acidente ou então por meio de um amadurecimento interior, aparentado com o que se operou em Carlos V quando, ao abdicar em Bruxelas, no topo da sua glória, ensinou ao mundo que o excesso de cansaço podia suscitar cenas tão admiráveis como o excesso de coragem. Mas, anomalia ou maravilha, a renúncia, desafio às nossas contantes, à nossa identidade, sobrevém somente em momentos excepcionais, caso limite que satisfaz o filósofo e perturba profundamente o historiador.

Emil Cioran, in 'História e Utopia'

sábado, fevereiro 12, 2005

A ginástica da dignidade por Carlos de Oliveira

- Dizem em voz alta, não muito alta: que porcaria, que nojo de sociedade, e em voz baixa, baixíssima: ora, o que é preciso é “triunfar”. Esta consciência elástica lembra o chewing-gum e pega-se fatalmente à esquerda e à direita. Por mais dez réis de propaganda ou al contado (também faz jeito). Por ninharias. E no entanto a dignidade cultiva-se como a beterraba ou as abóboras. Semeando-a, adubando-a, colhendo-a na altura própria. Muito rústico? Está bem, arranja-se outra coisa. Citadina. A dignidade, desenvolve-a uma ginástica vigilante e diária, que requer apenas paciência, atenção, vontade. Com uns anos de exercício torna-se instintiva, uma espécie de segunda natureza. Pouco maleável (rentável) na prática social mas esse defeito compensa-o largamente a tranquilidade interior (moral) que permite o crescimento livre de certa intranquilidade (imaginativa, criadora), ponto de partida para toda a obra literária alguns furos acima das “necessidades do mercado”. O que sucede nos casos vulgares é a falta da primeira liquidar a outra ou impedi-la dum completo desenvolvimento. E não me venham com o exemplo de alguns génios i(ou a)morais, porque posso arranjar logo uma dúzia de outros génios para contrapor a esses e, sobretudo, porque disse: nos casos vulgares.

Carlos de Oliveira in Abrupto por JPP

quarta-feira, fevereiro 09, 2005

O Terceiro Pai

No Público, de Eduardo Prado Coelho. A ler aqui e mais qualquer coisinha aqui.

domingo, fevereiro 06, 2005

A Virtude Pura não Existe nos Dias de Hoje

Numa época tão doente como esta, quem se ufana de aplicar ao serviço da sociedade uma virtude genuína e pura, ou não sabe o que ela é, já que as opiniões se corrompem com os costumes (de facto, ouvi-os retratarem-na, ouvi a maior parte glorificar-se do seu comportamento e formular as suas regras: em vez de retratarem a virtude, retratam a pura injustiça e o vício, e apresentam-na assim falsificada para educação dos príncipes), ou, se o sabe, ufana-se erradamente e, diga o que disser, faz mil coisas que a sua consciência reprova.
(...) Em tal aperto, a mais honrosa marca de bondade consiste em reconhecer o erro próprio e o alheio, empregar todas as forças a resistir e a obstar à inclinação para o mal, seguir contra a corrente dessa tendência, esperar e desejar que as coisas melhorem.

Montaigne, in 'Ensaios - Da Vaidade'

Fé No Sentimento

A razão age com lentidão, e com tantas vistas, sobre tantos princípios, os quais é mister estejam sempre presentes, que a todo o instante adormece ou perde-se, deixa de ter todos os seus princípios presentes. O sentimento não age dessa maneira; age instantaneamente, e está sempre pronto para agir. É preciso, pois, depositar a nossa fé no sentimento; de outro modo, ela será sempre vacilante.
(...) O último passo da razão é o de reconhecer que existe uma infinidade de coisas que a ultrapassam; se não chegar a isso, é porque é fraca.

Blaise Pascal, in 'Pensamentos'

O Homem É Feito Para Pensar

O homem é visivelmente feito para pensar.
Aí reside toda a sua dignidade e todo o seu mérito, e todo o seu dever é pensar com acerto. Porque a ordem do seu pensamento é começar por si, pelo seu autor e pelo seu fim. Ora em que pensa o mundo? Nunca nessas coisas; mas em dançar, em tocar alaúde, em cantar, em fazer versos, em jogar ao anel, etc., em combater, em chegar a rei, sem pensar no que é ser rei e no que é ser homem.

Blaise Pascal, in 'Pensamentos'

As Pessoas Sensatas

Platão comparava a vida a um jogo de dados, no qual devêssemos fazer um lance vantajoso e, depois, bom uso dos pontos obtidos, quaisquer que fossem. O primeiro item, o lance vantajoso, não depende do nosso arbítrio; mas receber de maneira apropriada o que a sorte nos conceder, assinalando a cada coisa um lugar, tal que o que mais apreciamos nos cause o maior bem e o que mais aborrecemos o menor mal - isso incumbe-nos, se formos sensatos. Os homens que defrontam a vida sem habilidade ou inteligência são como enfermos que não podem tolerar nem o calor nem o frio; a prosperidade exalta-os e a adversidade desalenta-os. São perturbados por uma e por outra, ou melhor, por si próprios, numa ou noutra, não menos na prosperidade que na adversidade.
Teodoro, chamado o Ateu, costumava dizer que oferecia os seus discursos com a mão direita, mas os seus ouvintes recebiam-nos com a esquerda; os ignaros frequentemente dão mostras da sua inépcia oferecendo à Fortuna uma recepção canhestra quando ela se apresenta de modo destro. Mas as pessoas sensatas agem como as abelhas, que extraem mel do tomilho, planta muito seca e azeda; similarmente, as pessoas sensatas muitas vezes obtêm para si algo de útil e aprazível das mais adversas situações.

Plutarco, in 'Do Contentamento'

segunda-feira, janeiro 31, 2005

Hannah Arendt (1906-1970)

Arendt nasceu em Hannover (Alemanha) numa família judaica. Estudou na Universidade de Koniberg, Malburg, Freiburg e Heidelberg. Foi influenciada por Husserl, Heidegger, e Karl Yaspers.
Em consequência das perseguições nazis, em 1941, parte para os EUA, onde virá escrever grande parte das suas obras. Lecciona nas principais universidades deste país (Columbia,Califórnia, Cornell, Princeton, Wesleyan, etc).
A sua filosofia assenta numa crítica à sociedade de massas e à sua tendência para atomizar os indivíduos. Proconiza um regresso à uma concepção política separada da esfera económica, tendo como modelo de inspiração a antiga cidade grega.
Algumas obras:
A Condição Humana; O Sistema Totalitário; O Homem em Tempos Sombrios; O Que é a Política?; A Crise da República; Sobre a Revolução; O Sistema Totalitário.

Henri Bergson (1859-1941)

Bergson nasceu numa família judaica, em Auteuil (Paris), em 1859, foi professor nos liceus de Angers e de Clermond - Ferrand, Henrique IV de Paris, e depois na Escola Nacional Normal Superior e no Collège de France, onde ministrou a cátedra de Filosofia Ocidental.
Em 1927 recebeu o Prémio Nobel de Literatura.
A filosofia de Bergson assenta no conceito da evolução como uma dimensão espiritual da vida humana, associada à questão da liberdade da consciência e do tempo, que considerou como uma sucessão de instantes conscientes. Na sua obra a Evolução Criadora (1907), desenvolve o problema da existência humana e define a mente como energia pura, o élan vital ou impulso vital, responsável de toda a evolução orgânica. Nas últimas décadas procurou relacionar a sua filosofia com o pensamento cristão. A sua filosofia inscreve-se na corrente intuicionista que surge em finais do século XIX como reacção ao positivismo.

Obras:
Ensaios Sobre os Dados Imediatos da Consciência: Matéria e Memória (1896); Tempo e Livre Arbítrio (tese de doutoramento,1889), O Riso (1900), A Evolução Criadora (1907); As Duas Fontes da Moral e da Religião (1932) .

quinta-feira, janeiro 27, 2005

Aletheia #1

«(...) Quando os leaders de Esparta foram visitar o Oráculo de Delfos, uma das perguntas que lhe fizeram foi quando acabaria o mundo. E a resposta do Oráculo foi: "Quando o ignorante fala sobre conhecimento, a prostituta fala sobre honra, e o tirano fala sobre justiça". »

Orientar Filosoficamente a Vida

A ânsia de uma orientação filosófica da vida nasce da obscuridade em que cada um se encontra, do desamparo que sente quando, em carência de amor, fica o vazio, do esquecimento de si quando, devorado pelo afadigamento, súbito acorda assustado e pergunta: que sou eu, que estou descurando, que deverei fazer?
O auto-esquecimento é fomentado pelo mundo da técnica. Pautado pelo cronómetro, dividido em trabalhos absorventes ou esgotantes que cada vez menos satisfazem o homem enquanto homem, leva-o ao extremo de se sentir peça imóvel e insubstituivel de um maquinismo de tal modo que, liberto da engrenagem, nada é e não sabe o que há-de fazer de si. E, mal começa a tomar consciência, logo esse colosso o arrasta novamente para a voragem do trabalho inane e da inane distracção das horas de ócio.
Porém, o pendor para o auto-esquecimento é inerente à condição humana. O homem precisa de se arrancar a si próprio para não se perder no mundo e em hábitos, em irreflectidas trivialidades e rotinas fixas.
Filosofar é decidirmo-nos a despertar em nós a origem, é reencontrarmo-nos e agir, ajudando-nos a nós próprios com todas as forças.
Na verdade a existência é o que palpavelmente está em primeiro lugar: as tarefas materiais que nos submetem às exigências do dia-a-dia. Não se satisfazer com elas, porém, e entender essa diluição nos fins como via para o auto-esquecimento, e, portanto, como negligência e culpa, eis o anelo de uma vida filosóficamente orientada. E, além disso, tomar a sério a experiência do convívio com os homens: a alegria e a ofensa, o êxito e o revés, a obscuridade e a confusão. Orientar filosoficamente a vida não é esquecer, é assimilar, não é desviar-se, é recriar intimamente, não é julgar tudo resolvido, é clarificar.
São dois os seus caminhos: a meditação solitária por todos os meios de consciencialização e a comunicação com o semelhante por todos os meios da recíproca compreensão, no convívio da acção, do colóquio ou do silêncio.
Karl Jaspers, in 'Iniciação Filosófica'

Para Que Serve a Filosofia?

O leitor ocupado perguntará para que serve a filosofia. Pergunta vergonhosa, que não fazemos à poética, essa outra construção imaginativa de um mundo mal conhecido. Se a poesia nos revela a beleza que os nossos olhos ineducados não vêem, e se a filosofia nos dá os meios de compreender e perdoar, não lhes peçamos mais - isso vale todas as riquezas da Terra. A filosofia não enche a nossa carteira, não nos ergue às dignidades do Estado; é até bastante descuidosa destas coisas. Mas de que vale engordar a carteira, subir a altos postos e permanecer na ignorância ingénua, desapetrechado de espírito, brutal na conduta, instável no carácter, caótico nos desejos e cegamente infeliz? A maturidade é tudo. Talvez que a filosofia nos dê, se lhe formos fiéis, uma sadia unidade de alma. Somos negligentes e contraditórios no nosso pensar; talvez ela possa classificar-nos, dar-nos coerência, libertar-nos da fé e dos desejos contraditórios. Da unidade de espírito pode vir essa unidade de carácter e propósitos que faz a personalidade e dá ordem e dignidade à vida. Filosofia é conhecimento harmónico, criador da vida harmónica; é disciplina que nos leva à serenidade e à liberdade. Saber é poder, mas só a sabedoria é liberdade.

Will Durant, in 'Filosofia da Vida'

Só Chegamos a Ser uma Parte Mínima do que Poderíamos Ser

A actividade de comprar conclui em decidir-se por um objecto; mas é também antes uma eleição, e a eleição começa por perceber as possibilidades que oferece o mercado. De onde resulta que a vida, no seu modo «comprar», consiste primeiramente em viver as possibilidades de compra como tais. Quando se fala da nossa vida só se esquece disto, que me parece essencialíssimo: a nossa vida é em todo o instante e antes que nada consciência do que nos é possível. Se em cada momento não tivéssemos à nossa frente mais que uma só possibilidade, careceria de sentido chamá-la assim. Seria apenas pura necessidade. Mas ai está: esse estranhíssimo facto da nossa vida possui a condição radical de que sempre encontra ante si várias saídas, que por serem várias adquirem o carácter de possibilidades entre as quais havemos de decidir. Tanto vale dizer que vivemos como dizer que nos encontramos num ambiente de determinadas possibilidades. A este âmbito costuma chamar-se «as circunstâncias».
Toda a vida é achar-se dentro da «circunstância» ou mundo. Porque este é o sentido originário da idéia (mundo). Mundo é o repertório das nossas possibilidades vitais. Não é, pois, algo à parte e alheio à nossa vida, mas que é a sua autêntica periferia. Representa o que podemos ser; portanto, a nossa potencialidade vital. Esta tem de se concretizar para se realizar, ou, dito de outra maneira, chegamos a ser só uma parte mínima do que poderíamos ser. Daí que nos parece o mundo uma coisa tão enorme, e nós, dentro dele, uma coisa tão pequena. O mundo ou a nossa vida possível é sempre mais que o nosso destino ou vida efectiva. Eu sou eu e a minha circunstância.

Ortega y Gasset, in 'A Rebelião das Massas'

quarta-feira, janeiro 26, 2005

Opinar sem Conhecer

"Porque é que os corpos dentro dos seus caixões são tão pesados ? Ele dizem que é devido a algum tipo de inércia, que o corpo já não é mais dirigido pelo seu dono... ou alguma tolice desse tipo, em oposição às leis da mecânica e do senso comum. Eu não gosto de ouvir pessoas que não têm mais que uma educação geral aventurarem-se a resolver problemas que requerem um conhecimento especial; e connosco isso acontece continuamente. Os cidadãos gostam muito de dar opiniões sobre assuntos que são do foro do soldado ou até mesmo do marechal de campo; enquanto homens que foram educados como engenheiros preferem discutir filosofia e economia política."

Fiodor Dostoievski, in 'Bobok'

sábado, janeiro 22, 2005

Acerca da Tolerância

Filosofia na UAC.

Para quem quiser saber mais um pouco sobre a aplicação da Tolerância a casos contemporâneos, tais como o Aborto, Prostituição e Despenalização das Drogas Leves. Temas que merecem a nossa reflexão e exigem muita informação para que se saiba o que se está a dizer.

sexta-feira, janeiro 21, 2005

Imbecilidade

Apetece-me essencialmente criticar. Não que tenha a pretensão de que saiba fazê-lo melhor e de que ao criticar não caia no que critico, mas tenho já pelo menos consciência disso, o que já não é mau. Não é mau e é o grande primeiro passo para não se cair na imbecilidade rotineira.
O nível de exigência que as pessoas têm consigo mesmas é lamentavelmente vergonhoso, estão todos mais preocupados em mostrar e provar a outros o que parece que sabem (e diga-se que não é nada difícil) do que propriamente preocupados em Saber e prová-lo a si mesmos.
Depois caímos nisto da cultura da doxa. Ninguém sabe muito, mas tem sempre opinião. É fantástico. É um desfile de vaidades quando o rei vai nu.

quarta-feira, janeiro 12, 2005

Louquícias

Não posso de deixar de comentar este novo programa da RTP Açores.
Sou a primeira a dizer que deve haver iniciativas. Não sou daquelas pessoas que dizem que não há nada e que quando as há, só sabe é criticar, mas este é um caso diferente. De facto o programa é um horror, é medonho demais para que hajam palavras que o definam.
Há tempos, um amigo meu que participa no programa, contou-me que o programa iria para o ar - fiquei maravilhada, achei imensa piada à coisa, na verdade, muita falta nos fazia quem tivesse um humor sarcástico, caricaturial e neutro que soubesse colocar os políticos no seu lugar, baixar-lhes a crista para que entendessem os ridículos a que se prestam por vezes. Pensei mesmo que fosse resultar.
Quando vejo o horror que saiu do projecto até fiquei nervosa. Nem os "macacos" são apelativos! Dos diálogos nem falo. Além de fracos de espírito e banais mesmo, não se entendem. Será que esta gente não entende que as "private jokes" dum grupo de jornalistas não se estendem ao grande público? Será que não entendem que nem todos acham piada aos disparates deles? E anda assim a nossa sociedade.
Tenho sinceramente vergonha que alguém de fora veja este programa, bela imagem que vão levar da nossa televisão. E depois queixam-se das audiências. Pudera...
O nosso maior problema, cá nos Açores, é a falta de mérito e de préstimo para se fazer algo bem feito.
Como dizia alguém ontem (sobre a nossa política) no Choque de Gerações "as expectativas são tão baixas que quando se faz alguma coisa, faz-se para contentar o povo" - subscrevo na íntegra e estendo à TV.
Pois meus amigos, uma novidade: Não basta sermos os melhores, temos que ser bons! (E melhores neste caso, não se aplica).
Bolas, mais valia que tivessem estado quietinhos!
Pelo contrário, este novo programa, o Choque de Gerações, está a ser uma boa tentativa de mostrar aos Açorianos, que existe quem se preocupe com as coisas. Nos primeiros programas estava um pouco céptica, confesso. Pareceu-me haver umas lacunas que se não fossem corrigidas, caíriamos em só mais um programa novo, com alguma novidade mas contudo sem grande qualidade.
Dou os meus parabéns ao Joel, o moderador, que se corrigiu na perfeição. Está mais sereno, modera melhor, tem excelentes convidados e assuntos pertinentes. Agora já tenho pena que seja um programa curto, mais uma meia hora e os assuntos seriam discutidos de uma forma mais profunda.
Fazia-nos falta um programa do género, aliás, diria até que um projecto a roçar os Prós e Contras seria viável cá para a nossa realidade. Sobre generalidades somos dos melhores... é que nós, os Açorianos, temos a mania que sabemos um bocadinho de tudo, mas por vezes para se chegar a consenso sobre assuntos sérios, bloqueamos. E quando nos aparece alguém que realmente sabe fundamentar, não reconhecemos legitimidade.
Se queremos chegar a uma maturidade de raciocínio, temos que ser mais humildes na aprendizagem, aprender com quem sabe e não ficar pelo superficial que acaba sempre por ser detectado entremeio de conversas.

segunda-feira, janeiro 10, 2005

Política

Ando tão chateada com esta nossa política em Portugal. Ou seja lá o que isso for. Política já não é certamente, deveríamos trabalhar o sentido á coisa, redefinir o termo/conceito para o que é, porque continuar a chamar-se política ao que se faz é uma ofensa a quem o fez realmente. Isto aplica-se a qualquer partido, nem há necessidade de definir algum.
Suponho que o problema esteja na qualidade da formação dos políticos, sei qual é o processo natural a percorrer, e chega sempre o momento do aliciamento em que se fazem escolhas, em que se escolhe alguém adequado ao perfil para se poder manipular dentro dos partidos. É aí que as pessoas acham que vão dar o salto para a glória e abdicam dos ideais que tem.
Frente a um futuro promissor, raros são aqueles que hesitam e continuam a dormir bem. Os que continuam em frente a pensar que não se estão a trair, a maior parte das vezes sofreram a lavagem do pragmatismo da utilidade, da cegueira de Saramago.
Também é verdade que ainda os há sãos e de boa vontade, pena que esses não tem a retórica sofista aliada ao verdadeiro saber, e perdem estrelato sendo enviados para um trabalho de background pouco ou nada reconhecido. Não interessa, ao menos fazem bem o que se propuseram fazer.
Seja como for, dever-se-ia ensinar política nos secundários, é uma disciplina com tanta, ou mais importância que outras, bem como a filosofia, que ensina a ser-se crítico e no entanto nada! Não se entendem as prioridades no nosso país.
Esta não é só mais uma humilde opinião sobre educação, é mais do que isso, é o "por favor abram os olhos!" e entendam que sem educação não vale a pena discutirmos outros assuntos. Sejam quais forem. Não interessa nada falar-se sobre o que quer que seja, porque não haverão soluções possíveis quando não se podem pô-las em prática! Não já vimos todos que as práticas falham? Está em boa hora de se parar de varrer para baixo do tapete... é que quando alguém ainda não sabe, pode fazer sentido, mas já quando todos deram por isso...! Estamos já apenas a enganar-nos a nós próprios. Que absurdo. E ninguém faz nada, talvez porque não haja nem competência para entender isso.


sábado, janeiro 08, 2005

Esperança

Tenho vagueado pelo universo da blogosfera, depreocupadamente e sem rumos estabelecidos. Encontrei blogs ricos em conteúdo e a maior parte, anónimos. Recuso-me a adicionar, só por adicionar, ou para parecer que os leio, blogs de gente conhecida. É incrível, como também aqui, já se veem manobras de marketing. Os mais lidos, tem todos os mesmos blogs adicionados... Porquê e para quê? Para aumentarem o seu número de visitas? Como se isso interessasse. São os mais secretos os mais puros, sabe-se lá porquê. Talvez porque não haja exposição, talvez porque passar um pouco de si seja a prioridade, talvez porque esta também seja uma forma de escape, talvez porque seja recompensa por si só, talvez porque se goste de ler um comentário anónimo ou quase anónimo de alguém que nos julgue apenas pelas nossas palavras.
Caindo na rotina de se ler o Sr. X ou o Sr. Y porque são conceituados (não o querendo dizer que não o façamos de x em quando), acabamos por fazer "disto" dos blogs, jornais diários com notícias e opiniões corriqueiras que podemos encontrar em todo o lado.
As minhas preferências vão para a procura/encontro da verdadeira diferença, a pura, a descomprometida, a que provém do mais intimo do ser. E há. É isto que no fundo quis dizer desde o início, há essa diferença por aqui, há um pluralismo interessante que nos acrescenta algo se o soubermos retirar. A mim dá-me esperança. Dá-me aquela esperança de entender que afinal existe gente que gosta de pensar a fundo nas coisas, que se preocupa, que quer saber e ser mais.
Isto ainda numa fase embrionária, claro, que surge como que um grito de socorro entremeio duma sociedade torpe, sem eira nem beira, sem valores em comum. Sabe-me bem ler quem tenta ultrapassar o individualismo irresponsável dominante, porque são esses que já se começam a sentir incomodados e tem necessidade de dar mais, de se tornarem responsáveis para se sentirem finalmente livres, autónomos.
Além da literatura, é por aqui também, que temos possibilidade de trocar conhecimentos, ideias, ideiais, inquietações, de "conhecer" o verdadeiro "outro" tal como ele é. Façamo-lo com a mais pura das intenções e de boa fé.

terça-feira, janeiro 04, 2005

O POVO É BOM TIPO

O POVO É BOM TIPO

Texto retirado do Blog acima mencionado. Se puder, ajude por favor. Obrigado por ter lido.

"Umas palavras rápidas para exortar toda a população a passar dos choros de café para ajudar quem faz algo para atenuar toda a dor provocada pela maior catástrofe humana de sempre. Todos nós passamos por dificuldades económicas, mas ninguém deixa de tomar café e ninguém, graças a deus, sabe o que é PASSAR FOME. Portanto, contem connosco para vos chatear. Chateiem os vossos amigos e pensem o que seria de nós se estes TSUNAMIS tivessem feito uma visitinha ao nosso nobre e desprotegido cantinho? Seria assim tão improvável de acontecer?


Deixemo-nos de chorinhos inúteis e FAÇAMOS ALGO!!!


Aqui vão os NIB de organizações que fazem algo no nosso e vosso lugar, por quem tanto sofre.


AMI Missão Ásia
NIB: 0035 0001 0003 0003 8306 2


UNICEF SOS Crianças da Ásia
NIB: 0035 0127 0002 8241 2305 4


CARITAS Ajuda Vítimas da Ásia
NIB: 0035 0697 0063 0917 9308 2

posted by O POVO É BOM TIPO @ 11:14 PM"